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Hora de enfrentar cinco conflitos

Para avançar no debate, impasses importantes precisam ser resolvidos

POR:
luciana alvarez, Rosi Rico e Victor Malta

1. Como articular conteúdos de diferentes disciplinas?

Poucos termos são tão repetidos entre os objetivos dos documentos curriculares estaduais, mas tão difíceis de colocar em prática quanto interdisciplinaridade. O desafio de fazer um trabalho em conjunto  que envolva as diferentes áreas, sem perder o foco nas particularidades de cada uma não consegue ser resolvido nos textos oficiais das redes. Assim, cabe às escolas abraçar de fato essa meta,
fazendo planejamento desde o início do ano e usando o horário de trabalho pedagógico coletivo (HTPC) para articular os diferentes professores. Não há receita para a interdisciplinaridade. Isso será feito de acordo com o contexto e as possibilidades de integração das escolas, diz Elba Siqueira de Sá Barretto, professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP) e consultora da Fundação Carlos Chagas (FCC) e do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec).

Entre as barreiras para a interdisciplinaridade está a organização dos cursos universitários para docentes, aponta Bernardete Gatti, vice-presidente da FCC. A própria formação de professores no Ensino Superior é disciplinar e não há quase nenhuma interação entre as diferentes licenciaturas, diz. Assim, é preciso vencer uma cultura que tradicionalmente oferece ao educador o conhecimento de maneira fragmentada. 

Nos documentos oficiais das redes estaduais para o Ensino Médio, há claramente um discurso de currículo integrado. A intenção é de ultrapassar o ensino com foco apenas nos saberes escolares, de maneira a associar conhecimentos e ampliar a participação do aluno. Muitas vezes se destaca a imnportância de considerar o saber prévio do jovem, mas, de maneira geral, não há muito detalhamento de como as disciplinas e os conteúdos podem ser articulados.

Entre os documentos curriculares estaduais para os últimos anos do Ensino Fundamental, há casos com indicações pontuais de possibilidades de trabalho interdisciplinar. Os fundamentos teóricos se apoiam com frequência no psicólogo bielorrusso Lev Vygotsky (1896-1934), o que é coerente com essa intenção de interligar conteúdos e áreas. Em metade das redes, porém, a interdisciplinaridade é assumida como um princípio norteador, mas não é algo que se concretiza, porque as metas dos currículos são, em grande parte, explicitamente disciplinares.

 

2. Como respeitar a autonomia de professores e gestores?

Anos de trabalho, discussões com diversos setores, documentos extensos. Tudo isso é importante, mas tanto esforço precisa chegar à sala de aula. E quem faz isso são os gestores e os professores. O documento só pode ser traduzido para a prática nas instituições de ensino. 

Portanto, uma boa política curricular deve considerar que a ação do educador vai muito além de aspectos técnicos, como o de simplesmente operacionalizar atividades e ideias que venham de outro lugar,
defende Antonio Carlos Rodrigues de Amorim, professor da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Os docentes produzem conhecimento nas ações pedagógicas que realizam. A elaboração dos documentos curriculares necessitaria levar em consideração as dimensões produtivas e criativas do trabalho deles.

Nos currículos do Ensino Médio, o nível de detalhamento sobre o que ensinar varia bastante. Há algunsque especificam os conteúdos bimestre por bimestre, outros são bem mais genéricos. Quase todos, porém, sugerem princípios avaliativos e alguns fornecem orientações e sugestões de atividades sobre como ensinar. A questão que se coloca, muitas vezes, é quanto de descrições é necessário para garantir um bom trabalho para o educador. E, também, a de identificar a barreira que não deve ser ultrapassada para não interferir na autonomia do professor em sala.

Por mais prescritivos e detalhistas que sejam os documentos curriculares, é certo que quanto melhor a formação do docente, mais ele conseguirá desfrutar de certa liberdade, avalia Bernardete. O professor bem formado sempre terá um bom grau de autonomia, tanto pelo seu domínio da matéria e outros saberes associados como pelo seu conhecimento pedagógico, afirma a educadora.

Uma análise mais aprofundada sobre a elaboração dos documentos curriculares para os últimos anos do Ensino Fundamental em três estados (São Paulo, Pernambuco e Acre), feita pelos pesquisadores do Cenpec, mostrou que todos tinham a intenção de aproximar o texto de situações reais de trabalho dos professores, com orientações específicas para sala de aula. Mas isso não basta. As secretarias reconhecem que a implementação do currículo só é possível se gestores e docentes aderirem a ele.

A formação dos docentes foi o caminho escolhido pelos três estados. No Acre, a secretaria fez parcerias com universidades de maneira a formar profissionais mais próximos do perfil esperado, ou seja, com aulas que seguem pressupostos semelhantes ao do documento curricular. Em Pernambuco, a participação dos educadores na elaboração do currículo foi a principal maneira de engajamento. Além disso, um dos documentos que compõem as indicações do estado tem por objetivo orientar a formação continuada dos professores, que precisa ser organizada em torno da proposta curricular. Em São Paulo, os novos concursados passam por uma formação na qual o currículo e suas metodologias são amplamente discutidos.

 

3. Como equilibrar o conteúdo comum e o diversificado?

Ao fazer ou refazer seus documentos curriculares, os estados têm se lançado num esforço de centralização, com o objetivo de atingir certos padrões comuns de qualidade do ensino. Sobretudo nos anos
finais do Ensino Fundamental, como analisado pelo Cenpec, há um foco na padronização da rede, em detrimento às iniciativas locais apenas três estados se ocupam de tratar em profundidade a parte diversificada do currículo. Além disso, a pesquisa para esse nível de ensino identificou um claro movimento deuniformização, o que significa que o alinhamento com políticas centrais os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) são os mais citados, seguidos pelas Diretrizes Curriculares Nacionais acaba se sobrepondo aos aspectos regionais.

Essa tendência é observada também na etapa final da Educação Básica. Com a quantidade de conteúdos explicitada nos curriculos para os três anos do Ensino Médio (ou mesmo com o número de competências e de objetos de conhecimento relacionados na Matriz do Enem), os jovens e também os professores não têm tempo para fazer mais nada na escola, diz Gisela Lobo Tartuce, coordenadora da pesquisa da FCC.

Se o excesso de conteúdos do que é comum não deixa espaço para a parte diversificada, também é preciso considerar que os estados têm limitações para desenvolver atividades diferentes, como contrato e jornada dos professores. As secretarias estaduais visitadas também parecem pouco orientar as escolas nessa direção. Além disso, os livros didáticos têm o foco no âmbito nacional, dificultando o tratamento de aspectos ligados às regiões. Enfim, são vários os fatores que dificultam esse trabalho. A parte diversificadamerece ser analisada com cuidado e questionada, pois nem sempre é tão diversificada assim; ela é comum na oferta de uma mesma língua estrangeira, como por exemplo inglês, complementa Gisela.

A tensão entre o central e o local escamoteia um problema maior, que é definir quais valores, estratégias de pensamento, conhecimentos de cada área e temas que, por sua importância na vida contemporânea e em razão do interesse que despertam nas novas gerações, devem compor o currículo. O que se nota é a disputa do que precisaria ser contemplado como mínimo. Nesse jogo de poder, as disciplinas buscam garantir sua presença. Mas, na batalha entre parte comum e diversificada, essa última fica sempre em segundo plano, afirma Amorim.

Bernardete classifica a discussão como complexa. Conhecimentos básicos são comuns: ler e escrever, saber interpretar textos diferenciados, tomar ciência dos espaços de vida, dos hábitats, por exemplo. Mas currículos precisam ter espaços de flexibilidade, afirma. A iniciativa para conseguir isso pode ser dos gestores. Localmente, diretores podem acionar os recursos da comunidade e apoiar professores e alunos a integrá-los aos trabalhos escolares, seja criando atividades na instituição, seja levando os alunos para contextos social, ambiental e cultural diferentes, mediante projetos bem orientados, sugere.

 

4. Como vincular currículos e avaliações externas?

Em diferentes graus, quase todos os estados usam avaliações externas, como a Prova Brasil e o Enem, para pautar as políticas curriculares. Entretanto, essa lógica significa uma inversão do caminho natural o correto é que os currículos escolares sirvam de orientação às exigências das provas. Os problemas são evidentes. Com o estabelecimento de sistemas de avaliação e de aprendizagem centralizados, a comunidade escolar se afasta de uma participação mais articulada e autoral. Os gestores trabalham para responder àquilo exigido na prova externa e, em menor grau, ao que efetivamente interessaria aos projetos políticos-pedagógicos (PPP) das escolas, argumenta Amorim.

No Ensino Médio, há uma ênfase em promover o acesso ao Ensino Superior. E dos 16 documentos analisados para os anos finais do Ensino Fundamental, em apenas dois as avaliações externas não são citadas. Para as secretarias, elas são instrumentos para melhorar a Educação, servindo para balizar a aprendizagem dos alunos e também o próprio processo de ensino.

A questão é que, com isso, os currículos acabam enfatizando conteúdos que geram uma produção de resultados mensuráveis. Um dos inconvenientes é deixar de lado aprendizados importantes, mas que são medidos de maneira mais subjetiva.

Bernardete alerta que essa prática é uma redução do processo curricular pleno, afinal a escola não deve apenas preparar o aluno para ter êxito numa prova. Trata-se de formar integralmente para a cidadania as novas gerações, em um desenvolvimento da articulação de conhecimentos com seus significados para a vida, o que inclui comportamentos, valores e atitudes, argumenta a pesquisadora.

 

5. Como se deve trabalhar a diversidade?

Aquestão da diversidade está presente em quase todos os documentos curriculares investigados pelos pesquisadores, tanto os do Ensino Médio quanto
os dos anos finais do Fundamental. Ela é incluída das mais diferentes maneiras: pode ser como tema transversal, como conteúdo associado a alguma área do conhecimento ou como disciplina autônoma. Mas continua sendo em grande parte responsabilidade das escolas e abordado com mais ênfase onde há comunidades indígenas e quilombolas nesses casos, a temática, em geral, aparece separadamente das orientações do currículo.

Mas como se deve trabalhar a diversidade? Na sociedade, nas instituições de ensino e também nos documentos curriculares, o assunto parece ser tratado de maneira polarizada entre o padrão único/idêntico e o diverso/diferente. A diversidade tem sido entendida como outra síntese que aglutina as diferenças em um tipo de homogeneidade variada, cujas marcas dos sujeitos são apagadas totalmente, afirma Amorim. Procura-se ainda assegurar que haja aspectos comuns em todo diverso, que retornariam o pensamento curricular para um humano ideal, utópico, completa o professor.

Para ele, vista sob tal concepção, a diversidade acaba mal resolvida, compondo um quadro de vários diferentes, únicos em si mesmos, sem possibilidades de encontros e transformações. Penso que seja muito importante, nas discussões sobre currículo, migrarmos do pensamento com e sobre a diversidade para o pensamento da diferença. Há acúmulo considerável de produção de pesquisas acadêmicas nesse campo, que nos dá algumas pistas sobre o quanto é importante pelo menos colocar a diferença como algo a ser problematizado, debatido e revitalizado também dentro da escola, afirma Amorim.

Quando se fala em diferente, o espectro é amplo, pois nele se incluem não apenas as questões étnico-raciais mas também as de gênero. Para o negro e o índio serem respeitados e melhor conhecidos, sua cultura deve ser trabalhada em todas as escolas. Temas como homofobia e defesa dos direitos das mulheres também precisam ser debatidos por todos, diz Elba. Para que ocorra uma mudança de postura dos alunos em relação aos outros, não adianta estudar ou fazer a defesa só para os grupos envolvidos na comunidade em questão, adiciona. Enxergar a multiplicidade das diferenças é um
grande desafio. A heterogeneidade das sociedades e das culturas está posta e é dinâmica. Mas deve ser compreendida em suas interações e mútuas influências, afirma Bernardete.


Ilustrações: Bruno Algrave