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Seções | Daniela Auad | Entrevista


Por: Patrick Cassimiro, Karina Padial e Rosi Rico

“Gênero é uma questão que já está inserida nas escolas”

Para estudiosa, tentar afastar o tema só aumenta a violência e favorece situações de preconceito

Daniela Auad,

Daniela Auad,
Coordenadora do Grupo de Pesquisa sobre Educação e Gênero da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).

A palavra gênero tem ganhado destaque nos debates educacionais. Em junho de 2015, casas legislativas de várias cidades brasileiras, na iminência da aprovação dos Planos Municipais de Educação, votaram pela proibição da inclusão do termo no documento. Três meses depois, o Ministério da Educação (MEC) anunciou que o recém-criado Comitê de Gênero teria seu nome substituído por Comitê de Combate à Discriminação. A discussão é polêmica e necessária. Por isso, GESTÃO ESCOLAR conversou com Daniela Auad, coordenadora do Grupo de Pesquisa sobre Educação e Gênero da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). A especialista defende que as escolas abordem o assunto e incentivem a formação de professores e gestores.

 

Há um esforço para que o tema fique longe das unidades de ensino?

DANIELA AUAD  Sim, mas isso é impossível. A escola, desde sempre, assim como todas as instituições sociais, está construída e estruturada com base nas relações de gênero, sejam elas mais ou menos desiguais ou igualitárias. Um exemplo disso é que se espera que as mulheres façam Pedagogia e não os homens porque há uma ideia dominante de que são elas que sabem lidar com crianças. Mas o cuidado não é natural só porque temos útero, é algo que necessitamos aprender. Trocar fralda, planejar brincadeiras que estimulem os pequenos e ensiná-los a ler deve ser tão prestigioso quanto o trabalho voltado à gestão, por exemplo. Portanto, gênero já é uma pauta que está inserida de muitas maneiras na Educação e não dá para mantê-la afastada.

 

A questão ganhou uma dimensão política?

Sim, e o problema é que quem está colocando o tema nos plenários não leu a respeito do assunto nem participou de debates ou chamou especialistas para conversar, mas possui ideias preconcebidas e falaciosas sobre ele. Além disso, há a má fé de alguns que acham ser essa uma bandeira eleitoral aglutinadora de votos. Também é algo que mobiliza correntes religiosas. Mas é bom lembrar que o Estado é laico e que essa questão precisa ser analisada do ponto de vista social, moral e ético. Outro ponto é querer colar essa discussão à da homossexualidade. Gênero tem a ver, entre outras coisas, com permitir que meninos e meninas brinquem com todo e qualquer brinquedo. Isso não vai transformar ninguém em homossexual. E, só para lembrar, bons adultos homossexuais não valem menos do que os heterossexuais.

 

Qual a consequência de se trocar o nome do comitê do MEC?

Chamar de diversidade não adianta. É comum, nas universidades, as disciplinas que levam esse nome tratarem sobre o processo de aprendizagem de alunos com deficiência e os professores acharem que, com isso, já resolveram a questão. Como se gênero, racismo e inclusão fossem uma coisa só e uma única pessoa tivesse a expertise para falar sobre tudo isso. É preciso entender e abordar as especificidades dos negros, das mulheres, dos homossexuais etc., e elas são muitas.

 

Uma fala comum é a de que a família deve educar os filhos segundo os seus princípios e que esse não é o papel da escola.

O primeiro ponto é que esse assunto já está na instituição e não lidar com ele reforça as situações de violência no interior dela. Temos casos recentes, noticiados pela mídia, de garotas estupradas no banheiro ou no transporte escolar. Sabemos de garotos assediados ou que são alvo de comentários maldosos, inclusive de professores, por serem percebidos como homossexuais. Travar esse debate permite que mesmo o filho de uma família que acha que discutir gênero é incentivar os alunos a ser gay seja defendido em situações de preconceito, machismo etc. Ou esses pais querem que suas filhas apanhem caladas dos namorados ou que seus filhos batam em uma mulher? Eles podem até alegar não ensinar essas ações em casa, mas só quando os alunos puderem refletir sobre tudo isso perceberão que se trata de violência.

As pessoas que estão colocando o tema nos plenários não leram a respeito do assunto nem participaram de debates ou chamaram especialistas.

 

Como fazer esse trabalho?

Não é preciso criar uma disciplina sobre gênero,  ele deve ser um tema intersetorial. Além disso, práticas igualitárias necessitam estar presentes no cotidiano. Por exemplo, temos de incentivar as meninas a praticar diferentes esportes na Educação Física, se apropriar do espaço da quadra, onde, geralmente, os meninos têm prioridade. Também estimulá-los a ser respeitosos e a mostrar afetividade, abraçando e pedindo desculpas, porque isso não é coisa de gay, mas de gente. Não dar bronca neles dizendo que estão falando mais do que garotinhas nem nelas alegando que são mais bagunceiras do que os rapazes. Isso naturaliza estereótipos que são construções sociais e não biológicas. Também não dá para ter filas só de homem oude mulher, essa não é uma prática social. Se for necessário separar a turma, é melhor usar outros critérios como números ímpares e pares e ordem alfabética.

 

Os gestores e os professores devem ser formados para lidar com o assunto?

Sim. Desigualdades, preconceito e violência são causas de evasão e repetência. Trata-se do direito à plena vivência das experiências educativas formais e informais na primeira infância e à socialização durante toda a trajetória escolar. Os gestores e os docentes, portanto, devem ser motivados a estudar sobre o tema até para poder articulá-lo nas disciplinas. Material formativo não falta. É possível encontrá-lo nos sites da Secretaria de Políticas para Mulheres, do governo federal, da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (Secadi), do MEC, e de organizações não governamentais. E há várias universidades com núcleos de pesquisa sobre gênero que oferecem cursos, palestras e seminários.


Foto: Mariana Pekin

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