Que tal usar os conflitos para trabalhar valores?

Espaço de Convivência

POR:
Telma Vinha
Telma Vinha. Foto: Alexandre Battibugli

Telma Vinha
Professora de Psicologia Educacional da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)

Quando dois alunos brigam em sala, normalmente são suspensos ou advertidos, certo? Mas será que isso faz com que aprendam a resolver suas diferenças dialogando, sem agressão? Estudos indicam que não. Se uma criança ou um jovem furta algo, mente ou desrespeita alguém, o adulto deve ensiná-lo a não agir assim. Contudo, o modo como a intervenção é feita interfere em como eles lidarão com os conflitos. Os dois garotos do exemplo podem até evitar o confronto na escola, para não serem punidos, mas observamos que eles tendem a continuá-lo em espaços virtuais ou "lá fora", transferindo a situação de lugar.

Algumas instituições de ensino tentam conter ou evitar os conflitos, vendo-os apenas como problemas. Porém, eles são necessários ao desenvolvimento e oportunidades para se trabalhar valores e regras. Isso porque as desavenças causam um desequilíbrio que motiva a criança a refletir sobre o que fazer para restabelecer a relação. Elas promovem a necessidade de argumentar, de cooperar e impelem a agir levando o outro em conta.

Dessa forma, se a convivência democrática é um valor importante para a escola, ela deve refletir em ações institucionais efetivas. Uma maneira é oferecer espaços sistematizados de mediação para melhorar o convívio, como as assembleias (ou círculos de diálogo) e os círculos restaurativos.

As assembleias são momentos em que o grupo discute questões coletivas, ou seja, que envolvem a maioria, como os apelidos pejorativos, a escolha dos times e a presença do bullying. Nelas, professores e alunos se reúnem periodicamente para conversar sobre a convivência na escola (dificuldades e êxitos), tomar consciência das relações, colocar suas perspectivas e transformar o que o grupo achar necessário para melhorar o convívio.

Elas são, portanto, um exercício da cidadania, onde as regras são elaboradas e reelaboradas constantemente e as soluções negociadas com base no respeito mútuo. O foco está no problema ocorrido, e não em "de quem é a culpa". Assim, não será discutida uma briga específica entre dois amigos, mas as brigas entre colegas, os sentimentos de raiva, o desrespeito e as ações decorrentes.

Já as situações particulares de conflito, como discussões de namorados e fofocas, podem ser trabalhadas nos círculos restaurativos, que são mediações privadas, de modo a resguardar a dignidade dos envolvidos. Neles, as partes se reúnem para falar e ouvir um ao outro, considerando as necessidades e os sentimentos recíprocos, e chegar a um acordo. Um adulto, que pode ser um professor, atua como facilitador, conduzindo a conversa. Esse procedimento tem como princípios o diálogo e a responsabilização pelas atitudes, tratando o conflito de forma não punitiva.

Muitos alunos usam a agressão ou a submissão para lidar com as desavenças. No entanto, uma solução positiva para um conflito sugere um equilíbrio entre a capacidade de persuasão do outro e a satisfação de si mesmo. Para tanto, é preciso incentivar um processo cooperativo, em que os envolvidos operam considerando os sentimentos e pontos de vista de todos.

Instaurar essa nova maneira de lidar com a questão da convivência na escola requer esforço e tempo para que gere resultados, mas devemos nos questionar: vale a pena insistir num modelo de Educação que, além de gerar desgastes nas relações entre docentes e alunos, não contribui para que os estudantes aprendam a resolver seus conflitos de forma cooperativa? Que outras oportunidades eles terão para isso, senão na escola?

  • Em colaboração com Lívia M. Silva, do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral da Unicamp e da Universidade Estadual Paulista (Unesp)
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