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Faltam para:   

Seções | Ética na Escola


Por: NOVA ESCOLA

Estamos dialogando de verdade?

A partilha de ideias e experiências só ocorre em um espaço em que haja confiança e tolerância

Terezinha Azerêdo Rios,

Terezinha Azerêdo Rios,
graduada em Filosofia e doutora em Educação

Se alguém propusesse a nós, educadores, a organização de uma lista do que falta na escola e o que devemos buscar para melhorar a vida nela, como faríamos? Já advirto que não pensei numa daquelas de supermercado, mas talvez possamos aproveitar a analogia. Se fosse o caso, faríamos, em primeiro lugar, um levantamento do que temos: açúcar suficiente para uma semana, leite só para mais um dia. E do que necessitamos: as bolachas já acabaram e as toalhas de papel passaram a ser usadas como guardanapos. Anotamos: chocolate granulado para passar nos brigadeiros que serão feitos para o aniversário do filho mais novo. Se não tiver, a gente se vira com aqueles confeitinhos coloridos. Está completa? Quem sabe vale consultar as outras pessoas da casa e saber o que elas acham que é preciso ir buscar? Lenços de papel, dirá alguém. Pilhas para o controle remoto, lembrará outro. E aquela pipoca amanteigada que você disse que eu podia comer uma vez por mês....

Aproveito para usar o tom de brincadeira com o intuito de refletir sobre a importância de nos dispormos, não a fazer listas desse tipo, a conversar sobre os desejos, as expectativas e as responsabilidades de todos nesse espaço de vivência conjunta que é a escola. Às vezes, concentramos nossa atenção apenas no que falta, sem levar em consideração o que já temos e que nos ajuda a viver de um jeito bom. Por outro lado, ao nos fixarmos no que temos, podemos deixar de perceber a ausência de alguns elementos sem os quais há uma perda de significado da convivência.

Então, nessa nossa sociedade contemporânea, há mesmo que estarmos atentos para certos produtos essenciais que parecem ir se esgotando sem que disso tenhamos consciência. Um deles, do qual não podemos abrir mão e que anda escasso no contexto social e se reflete no escolar, é o diálogo.  

"Se constatarmos que o diálogo anda em falta, a hora é de nos mobilizarmos para buscá-lo, promovê-lo, construí-lo em todos os espaços."

A proposta de diálogo traz em seu bojo um desafio. Nem sempre levamos em consideração o verdadeiro significado desse gesto. Humano por excelência, ele requer condições específicas para sua realização e vai além do mero falar e ouvir com que costuma ser designado pelo senso comum, quando se refere aos apresentadores de programas de entrevistas e seus convidados ou a uma conversa na qual os interlocutores se sentem bem porque têm opiniões iguais ou vivências semelhantes. Ele ocorre de fato apenas na diferença e na diversidade. E isso é algo complexo e exige disponibilidade dos indivíduos e grupos envolvidos nessa relação, uma vez que só é possível dialogar num espaço em que também habitem a confiança, a tolerância e a consideração a ideias e experiências diversificadas.

Porém, temos encontrado, com frequência, pessoas que só têm se disposto a conversar com aqueles que são de seu partido, de seu time ou de sua igreja, por exemplo. Com quem não pertence a seu grupo, a fala, muitas vezes, é marcada por ofensas, rompendo com o princípio do respeito e ignorando o horizonte da ética, que é o bem comum, a vida compartilhada com dignidade. Temos que verificar se isso tem acontecido na escola. E se constatarmos que o diálogo anda em falta, a hora é de nos mobilizarmos para buscá-lo, promovê-lo, construí-lo em todos os espaços. Ele não é produto que se desgasta ou perde a validade quanto mais é exercitado, mais se multiplica! 


Foto: Tamires Kopp

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