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Gestão Escolar

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Reconstrução coletiva

Junto com a comunidade, diretor acabou com depredações e reduziu indisciplina e evasão

Diego (de vermelho) com a equipe da EM Darcy Ribeiro, em São José do Rio Preto (SP). 

Na primeira semana de aula de 2014 na EM Darcy Ribeiro, em São José do Rio Preto, a 450 quilômetros de São Paulo, o então vice-diretor Diego Mahfouz Faria Lima se deparou com uma cena de filme: alunos ateavam fogo em cestos de lixo, seguravam cartazes anunciando uma "rebelião" e atiravam restos de merenda contra ele. Diego estava sozinho, já que dois dias antes a recém-empossada diretora, depois de ter o carro cercado pelos adolescentes quando chegava à instituição, pedira licença. Era preciso lidar com os ânimos exaltados. Ele, então, pegou o microfone e avisou que daquele jeito os estudantes não conseguiriam nada. Disse que queria ouvi-los. Logo, as vozes se multiplicaram em insatisfações. "Eles diziam que a escola era feia e suja, estava abandonada e tinham vergonha de estudar lá", lembra o hoje diretor. Surpreendidos com a iniciativa, os jovens identificaram nele um aliado e não um inimigo a ser combatido. Foi o primeiro ato de uma gestão participativa.

DIEGO

Cursou Pedagogia pela Unirp e fez três pós-graduações, entre elas uma em Gestão escolar.

  "Tive professores que mostraram a necessidade de um novo olhar para a Educação, pautado em uma transformação coletiva e significativa para todos da comunidade"

Mas não era só a garotada que percebia o descaso reinante ali. O ambiente denunciava isso. Paredes marcadas pelo fogo provocado em cortinas, classes com janelas e carteiras quebradas e banheiros sem portas ou privadas. A violência estava nos jornais da região, em manchetes como "Aluno é pego com arma de fogo dentro da sala de aula" e "Agressão dentro da escola acaba na polícia". O reflexo: a taxa média de evasão era de 200 estudantes por ano, o índice de falta de professores era alto e os pais procuravam outras unidades, mesmo distantes, para matricular os filhos.

Era preciso um projeto que transformasse a instituição em todos os sentidos - o espaço físico, a relação de toda a comunidade com o lugar, o olhar para a aprendizagem e a participação dos jovens. Foi (tudo) isso que o diretor fez, de maneira concomitante, ao longo de um ano e meio.

 

Relação multilateral

Diego tem apenas 27 anos, mas já tinha atuado como gestor. Foram os bons resultados alcançados que o fizeram ser convidado para, inicialmente, ser vice-diretor onde ninguém mais queria estar. Sua experiência o fez perceber, assim que chegou, que as pessoas não sentiam que a instituição lhes pertencia. Junto com a equipe, composta de uma vice-diretora e uma coordenadora pedagógica, tratou, primeiro, de andar pelo bairro Santo Antônio, considerado um dos mais pobres e violentos do município. Conversou com comerciantes e visitou famílias de alunos.

Para ter um panorama melhor, reformulou a ficha de matrícula. Entre outras coisas, descobriu que recebia jovens de 11 bairros diferentes e que 14,1% dos responsáveis eram analfabetos. As informações o ajudaram a transformar a prática. Um exemplo foi o carro de som, comum na região, que, graças à colaboração de um pai, passou a circular pelo bairro para avisar sobre eventos como reuniões, festas e entregas de uniforme. Dessa maneira, as famílias, mesmo aquelas cujos membros não sabiam ler e as em que os filhos não entregavam os bilhetes, ficam sabendo das ações.

Depois disso, os gestores foram em busca de conhecer os professores e os funcionários. Elaboraram um questionário com perguntas sobre tempo na função, pontos positivos da escola, dificuldades enfrentadas, sonhos profissionais e pessoais. Também reuniram documentos dos anos anteriores sobre faltas, transferências, distorção idade-série, evasão e desempenho e transformaram tudo em gráficos e relatórios. Discutido com os docentes na semana de planejamento, o material, que contava com informações sobre a realidade da comunidade, algo desconhecido por muitos deles, embasou a definição coletiva dos objetivos e das ações prioritárias para o ano.

 

Participação ativa

A EM Darcy Ribeiro tem 827 alunos nos anos finais do Ensino Fundamental e mais 180 na Educação de Jovens e Adultos (EJA), divididos em 28 turmas atendidas por 42 professores. Era muita gente para ser ouvida, mas Diego sabia que a transformação da realidade daquele lugar passava também pelo protagonismo juvenil.

Nas assembleias gerais, estudantes apresentam temas para ser discutidos e votados. 

Quais as expectativas dos jovens em relação à escola? O que gostavam mais e menos nela? Uma das respostas foi que a instituição era muito punitiva. E não tinha como negar: contavam-se cerca de 60 suspensões semanais. Os docentes relatavam que os bilhetes já ficavam assinados e bastava preencher o número de dias de punição antes de mandar os alunos para casa. Nessa dinâmica, muitos nem voltavam a frequentar as aulas.

Os gestores levaram o tema à reunião de professores. A ideia era elaborar normas de convivência, que não existiam, e, com base nelas, rever o regimento interno. O que derivou disso foi a construção de um texto-base, que contou com a cola boração dos funcionários e do conselho escolar, e foi discutido com os jovens. "Por ajudar a criar os acordos, eles se sentem responsáveis por garantir o cumprimento e passam a cobrar o mesmo dos colegas", diz Diego. O resultado foi o fim das suspensões e o início da conciliação.

Ao fazer um curso de mediação de conflitos oferecido pela Secretaria Municipal de Educação (SME), Diego percebeu que permitir aos próprios implicados em um problema encontrar a solução para ele proporcionava reflexão e corresponsabilização. O educador levou a proposta para a escola e, com a ajuda da SME, formou alunos mediadores - hoje, há jovens atuando nos três turnos.

Mas não é só nesse momento que os estudantes têm destaque. Às sextas-feiras, quando ocorrem assembleias, os temas propostos por eles são discutidos e votados. "Passamos a ter voz. Hoje, quando há um problema, tentamos encontrar uma solução que melhore a situação. Todos querem ajudar, inclusive o diretor, que deixa a porta da sua sala aberta para conversar", diz Geisa Cândida da Rosa, aluna do 8º ano e representante do projeto Vereador Mirim na Assembleia Legislativa.

Outros fóruns que dão sustentação a uma gestão democrática foram reativados. É o caso do grêmio, para o qual foram feitos eleição e estatuto. O conselho escolar e a Associação de Pais e Mestres (APM) foram ressignificados. Se antes seus membros nem se conheciam, porque eram convocados só para assinar documentos, agora, depois de uma formação sobre suas atribuições, se reúnem todo mês e se envolvem nas decisões pedagógicas, administrativas e financeiras.

Também uma vez ao mês há as avaliações institucionais, em que todos analisam questões sobre a organização e as ações das diversas instâncias. As informações, expostas nos murais, pautam as reflexões sobre o que precisa ser implantado, revisto ou aprimorado. "A valorização dos segmentos e o protagonismo dado aos jovens recuperou o sentimento de pertencimento que estava desaparecido", diz Maura Barbosa, consultora pedagógica de GESTÃO ESCOLAR e selecionadora de projetos de direção do Prêmio Educador Nota 10. 

 

Lugar de aprender

De um lado, alunos que não tinham interesse em estudar; de outro, professores cansados e desestimulados. Conclusão: mais de 200 reprovações por ano. A mudança exigia estruturar uma série de medidas e enfrentar as resistências de um grupo de educadores. Diego não se intimidou e, junto com a equipe, elaborou um plano de ações.

Uma das primeiras iniciativas foi implantar as tutorias de classe. Cada professor tornou-se responsável por uma turma. Isso significa que cabe a ele conhecer melhor os estudantes, suas dificuldades e avanços, conversar com os demais docentes da sala, chamar os pais, quando necessário, para reuniões e intervir em casos de indisciplina.

Também foi mudado o modelo de avaliação, agora contínua, para permitir ajustes na rota. Por isso, nos horários de trabalho pedagógico coletivo (HTPC), semanais e em dois turnos para que todos participem, os docentes debatem os roteiros de aprendizagem e, com base neles, fazem registros do rendimento da turma e os compartilham. Esse material favorece a reflexão sobre as práticas e o planejamento de ações. "Garantir tempo e espaço para que todos olhem juntos para um mesmo objetivo é importante para conseguir o avanço dos alunos", diz Cybele Amado, presidente do Instituto Chapada de Educação e Pesquisa (Icep).

Outra estratégia desenvolvida, desta vez como apoio pedagógico, é o plantão de dúvidas. Divididos em turnos diários, os docentes realizam atividades diversificadas e orientam os estudos dos jovens no contraturno. A iniciativa é aberta a todos. Também depois das aulas regulares, ocorrem ações de alfabetização com uma educadora enviada pela SME. A medida foi necessária porque, após sondagem, foram identificados 99 alunos do 6º ano com problemas de leitura e escrita.

Para tornar a instituição mais atrativa, há oficinas de teatro, cinema e grafite, entre outras. A maioria é feita com a colaboração da comunidade e algumas com recursos do programa Mais Educação do Ministério da Educação (MEC). Os destaques são o Clube de Astronomia e a Camerata Jovem Beethoven. "Estou na escola há quase 20 anos e não via a hora de me aposentar. O ambiente era péssimo", diz Maria Silvia Dela Giustina, professora de Ciência do 7º ao 9º ano. "A mudança reascendeu nossa motivação. Não foi um processo fácil e vários docentes que não concordavam com o projeto foram embora. Mas hoje venho trabalhar com prazer e, mesmo me aposentando em 2016, não pretendo deixar de dar aulas aqui."

Wagner Soeiro, docente de Geografia, com os alunos do Clube de Astronomia Rio Preto. 

O aprimoramento do processo educativo também passa pela realização do conselho de classe, com representantes de todos os segmentos, e das reuniões de pais, que começaram com a presença de 50 responsáveis e hoje recebem cerca de 500.  

A equipe gestora também entra em ação sempre que o sistema aponta que um adolescente faltou dois dias consecutivos: manda bilhetes, telefona para os pais ou vai à casa do aluno identificar a razão da ausência e incentivar o retorno. "Eu tinha receio de matricular minhas filhas por tudo que ouvia. Mas os professores me pediram um voto de confiança e eu dei. Não me arrependo. A escola é aberta à participação de todos e eu mesma já fui voluntária nas oficinas do contraturno", conta Ana Lúcia Pinheiro Dutra, mãe de Anaelly e Rita, 11 e 12 anos, ambas do 6º ano. 

 

Aberta para reforma

A degradação das instalações também se refletia na maneira como os alunos reagiam, por meio de posturas agressivas e com mais depredação. Com o repasse de verbas bloqueado por falta de prestação de contas dos antigos gestores - algo que os atuais já regularizaram -, o jeito foi pedir ajuda. Diego enviou um e-mail para mais de 100 diretores pedindo restos de tinta - as escolas da rede são da mesma cor. Em pouco tempo, tinha o suficiente para pintar duas das salas mais detonadas. Depois, a SME liberou dois pintores para trabalhar na Darcy Ribeiro por uma semana. A notícia da arrecadação, porém, se espalhara. Os gestores rodaram a cidade recolhendo as doações, pois muitos queriam contribuir. Até funcionários e famílias dos alunos ajudaram na pintura.

O antes e o depois: com o fim das depredações, a escola ganhou novas carteiras e cadeiras.  Foto: Arquivo pessoal e Erick Men

Outros espaços foram reformados. A sala de informática, antes desativada e transformada em depósito, e a biblioteca, na qual caixas colocadas em frente às prateleiras, muitas nunca abertas, tornavam os livros quase inacessíveis, voltaram a estar a serviço de alunos, professores e pais, que agora podem fazer empréstimos de obras.

O fundo da instituição, que vivia trancado, recebeu melhorias. O muro que a separa da rua tinha buracos por onde entravam e saíam drogas. Hoje ele é parte da praça de leitura, com grafites feitos pelos alunos e caixotes que exibem livros. Um jardim sustentável coabita o espaço. A unidade ganhou três novas salas: uma de jogos, uma para o plantão de dúvidas e outra multimídia. A quadra e os banheiros foram arrumados.

Pelo histórico de depredação, a conservação que se seguiu à reforma impressionou a todos. A diferença é que, quando os estudantes se sentem o pertencentes à escola, o vandalismo não se justifica. A mudança de postura foi reconhecida pela rede com a troca das carteiras velhas por novas.

A surpresa após todo esse trabalho ocorreu no início deste ano. Os alunos foram recepcionados com um café da manhã. "Passamos um vídeo com fotos do antes e depois da instituição. Foi uma maneira de os estudantes verem o que todos tinham feito por eles e, assim, se sentirem valorizados", diz o diretor. Enquanto isso, os funcionários seguravam cartazes nos quais estava escrito: "Sejam bem-vindos à nossa nova escola". 


Fotos: Erick Men e Ilustração: Bruno Nunes

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