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Presença conquistada

Protagonismo dos jovens, acolhimento e currículo atrativo para combater a evasão

POR:
Patrick Cassimiro, Karina Padial e Rosi Rico
Alunos da EREM Professor Barros Guimarães, em Glória de Goitá (PE). Foto: Marionaldo Junior

Uma nova escola foi inaugurada no bairro. Segundo um levantamento, 100 jovens de 15 a 17 anos moram na região. Por causa disso, foi aberto esse mesmo número de vagas para o Ensino Médio. Mas logo se percebeu o erro de cálculo. Do total de adolescentes, 16 já tinham abandonado os estudos. Nessa faixa etária, 26 estudam nos anos finais do Ensino Fundamental e três, por incrível que pareça, nos iniciais. Portanto, no começo do semestre, apenas 55 vagas haviam sido preenchidas. Essa história, mesmo fictícia, apresenta um quadro proporcional à realidade dessa etapa no país.

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), de 2011, apontou que o Brasil tem mais de 1,7 milhão de adolescentes entre 15 e 17 anos fora da escola, o que representa 16,3% da população dessa faixa etária. Apesar de os números estarem em queda - em 1999 eram 21,5% -, os dados mostram que, agora, o abandono, antes concentrado nos anos iniciais do Fundamental, ocorre mais entre o 8º ano e o Ensino Médio. E é esse último segmento que guarda a maior mudança: em 12 anos, a taxa daqueles que saíram mais que dobrou, passando de 7,4% para 16,2%.

O sinal de alarme soou. É preciso entender o que está levando os adolescentes a interromper a trajetória escolar antes de ela chegar ao fim. Não dá para ignorar que fatores externos à Educação - como trabalho, gravidez precoce, constituição de uma nova família, problemas de saúde etc. - impactam a permanência deles. A hipótese mais recorrente é a de que a pobreza forçaria o jovem a parar de estudar para ganhar dinheiro. Os dados da Pnad realmente mostram que, entre os que têm renda familiar até dois salários mínimos, 17,6% deixaram os estudos, enquanto os que vivem em casas com ganhos superiores a seis salários mínimos a proporção cai para 4,7%. No entanto, diferentemente do que poderíamos supor, a maioria dos evadidos (61,7%) não estuda nem tem uma ocupação profissional.

Pesquisas recentes têm apontado para causas mais ligadas ao próprio sistema educacional. O estudo Motivos da Evasão Escolar, produzido pela Fundação Getulio Vargas (FGV), é revelador: enquanto 27,1% dos adolescentes evadidos alegaram necessidade de trabalho e geração de renda, 40,3% admitiram falta intrínseca de interesse. O restante se divide entre 10,9% que afirmaram ter dificuldade de acesso à escola e 21,7% que apresentaram outras motivações. É hora, então, de um olhar atento para descobrir onde mora o problema e o que é possível fazer para solucioná-lo. 

Em Campo Grande, diretor adjunto acompanha aula de boxe no contraturno. Foto: Erônemo Barros

Repetência e distorção idade-série

A evasão acontece por vários fatores, por vezes associados entre si, mas, se optarmos por destacar um, seria o histórico de repetência na trajetória escolar e a consequente defasagem em relação à série adequada - mais de um terço dos estudantes chegam ao Ensino Médio nesse contexto. Quase 60% dos que abandonaram os estudos ou consideravam fazer isso já tinha repetido algum ano. 

"Aos 18 e 19 anos, o adolescente passa a ter outros interesses que não estão mais relacionados à escola", diz Tufi Machado Soares, coordenador do Centro de Políticas Públicas e Avaliação da Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Ele não se sente mais integrado àquele ambiente por conviver com colegas mais novos e é induzido, cada vez mais, a assumir o papel de adulto, independentemente de sua inserção no mercado. Há também o contingente daqueles de 15 a 17 anos represados no Ensino Fundamental, que têm alto risco de se evadir. Mas ainda são poucas as ações voltadas para esse público.

Uma das exceções é a EM Osvaldo Cruz, em Campo Grande. Fruto de uma política pública que olhou para essa garotada, a instituição abriga o projeto Travessia Educacional do Jovem Estudante (Traje), que busca acelerar o fluxo de alunos de 15 a 17 anos que apresentam distorção. Para isso, foi pensada toda uma estrutura diferente, a começar pela organização das séries. Por lá existem três ciclos ? o inicial (1º ao 5º ano), o intermediário (6º e 7º ano) e o final (8º e 9º ano) - cursados em menos tempo do que no ensino regular. A metodologia também busca aproximar os conteúdos da realidade do estudante, colocando-os sempre diante de situações-problema a serem resolvidas. Por causa disso, a secretaria de Educação oferece formação semanal aos docentes. 

Já o currículo ganhou aulas de linguagem cênica e visual, atividades de desenvolvimento social e um momento semanal dedicado ao lazer, com esporte e música. E no contraturno, há diversas oficinas, pelo programa Mais Educação, do Ministério da Educação (MEC), entre as quais as de futsal, dança, grafite, boxe e xadrez.

O acolhimento também é marca da instituição. Bonés, piercings e maquiagens são liberados. "Entendemos que isso não atrapalha o processo de ensino e aprendizagem. A repressão e a exclusão, sim, podem ter efeitos negativos", diz o diretor adjunto Fábio Roque. Outro exemplo é que, ao perceber a dificuldade dos alunos em se manterem despertos no início do dia, o diretor Mauricio Vieira sugeriu que a entrada passasse das 7 h para as 8 h. Em pouco tempo, já não se vê mais ninguém dormindo em cima das carteiras na aula. 

Essas estratégias têm dado resultado. "As faltas são poucas e as informações que temos é que a maioria segue os estudos. Conseguimos motivar aqueles que estavam desanimados pelo histórico de defasagem que carregavam", conclui Mauricio.

Há também outras maneiras para lidar com o problema. "A reprovação é um instrumento muito usado no Brasil, mas que tem consequências graves: o aluno fica desmotivado, se sente inferior e deixa de ver valor na escola, o que está ligado diretamente ao abandono", diz Haroldo da Gama Torres, coordenador da pesquisa O que Pensam os Jovens de Baixa Renda sobre a Escola, feita pela Fundação Victor Civita (FVC) em parceria com o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). "Há também o inchaço das classes de Ensino Fundamental e o aumento dos custos pelo maior número de anos que ele fica na Educação Básica. É preciso, portanto, criar um sistema de apoio pedagógico que evite a repetência" (veja como aqui).

Escola de Pernambuco inclui os jovens na análise bimestral de desempenho da turma. Foto: Marionaldo Junior

Falta de atratividade

Para muitos estudantes, a escola é um "mal necessário". Eles não veem sentido em vários dos conteúdos ensinados e reclamam que as aulas são excessivamente teóricas. Muitos continuam frequentando a instituição porque, além de ser um local onde encontram os amigos, querem o diploma que irá garantir, no futuro, uma colocação e um salário melhor no mercado de trabalho.

Gisela Lobo Tartuce, coordenadora da pesquisa Ensino Médio: Políticas Curriculares dos Estados Brasileiros, divulgada em agosto e realizada pela Fundação Carlos Chagas (FCC) em parceria com a FVC, afirma que "há um reconhecimento por parte das redes de que o currículo não pode ser baseado apenas na aula expositiva e na memorização e que não deve ser tão fragmentado, exigindo uma articulação maior entre as disciplinas para que elas dialoguem mais de perto com a realidade dos estudantes". Apesar disso, o estudo mostrou que, em geral, o discurso não alcança a prática e a grade das escolas segue não contemplando atividades diferenciadas.

Tufi complementa: "São muitos componentes curriculares, mas não se permite que o jovem escolha o que é mais interessante para ele. Precisamos de versatilidade, garantindo conteúdos mínimos e outros eletivos". E não só isso. "É fundamental pensar em como o currículo se efetiva por meio da organização de espaços de aprendizagem, da composição das turmas e do tempo de aula. Os jovens querem produzir e muitas vezes se organizam em grupos e coletivos fora da unidade de ensino porque nela não têm essa possibilidade", diz Maria Amabile Mansutti, coordenadora técnica do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec).

A EREM Professor Barros Guimarães, em Glória do Goitá, a 64 quilômetros de Recife, atende 705 alunos do Ensino Médio em período integral desde 2009. Por lá, uma parte diversificada no currículo garante que os estudantes desenvolvam projetos interdisciplinares, participem de atividades complementares de música, dança e esportes e frequentem aulas de empreendedorismo. O pilar mais importante do trabalho, no entanto, é o protagonismo juvenil. "Procuramos estruturar as propostas junto com os adolescentes. Ouvimos as demandas deles para saber se estamos no caminho certo e criarmos regras coletivas", conta a diretora, Teresa Mônica Borba Vicente. 

São os jovens que acolhem os alunos novos no começo do ano. "Nas reuniões de pais, também são eles que recebem e dão depoimentos sobre os projetos em desenvolvimento", diz Teresa. Bimestralmente, ocorre o monitoramento, quando cada classe se reúne com o professor representante e a equipe gestora para analisar os gráficos de desempenho da turma nas disciplinas e ajudar a pensar em estratégias para que todos sigam avançando. Tanto envolvimento levou a escola a alcançar evasão zero no último ano.

Outras escolas de Educação integral também têm apresentado bons resultados. O tempo maior facilita uma abordagem mais qualitativa e menos fragmentada dos conteúdos. Apesar disso, ela não deve ser vista como a panaceia do Ensino Médio. "Não pode ser obrigatório, pois temos milhões de jovens e precisamos oferecer a opção de eles estudarem em apenas um turno. O importante é as redes avaliarem qual modelo atende à necessidade de seus alunos e em quais localidades sua implantação é viável", diz Mônica Ribeiro da Silva, coordenadora do Observatório do Ensino Médio, da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Uma proposta nacional que integra as principais demandas para essa etapa é o Programa Ensino Médio Inovador (Proemi), do MEC. Ele prevê repasse de verbas às escolas que tiverem seu redesenho curricular aprovado pelas secretarias de Educação. A ideia é aumentar a carga horária e oferecer atividades em diferentes formatos - disciplinas optativas, oficinas etc. -, desde que contemplem três macrocampos obrigatórios: acompanhamento pedagógico, iniciação científica e pesquisa e leitura e letramento. Mais de 5,6 mil instituições já aderiram.

Quando há problema de frequência, conversa é conduzida primeiro por colega em Rio Bonito . Foto: Rafael Xavier

Infrequência às aulas 

Quando os alunos são mais novos, a frequência é uma decisão da família. Mas, quanto mais velhos ficam, maior a autonomia para fazer escolhas. Permanecer ou não na escola é uma delas. Mesmo assim, o abandono não ocorre de uma hora para a outra. "O jovem dá indicações de que vai largar os estudos. Ele passa a faltar mais e deixa explícito seu desinteresse", diz Haroldo. "A instituição precisa ter um olhar para ele, o que permite desenvolver ações como fazer visitas às famílias."

No CE Desembargador José Augusto Coelho Rocha Junior, em Rio Bonito, a 79 quilômetros do Rio de Janeiro, a ação de acompanhamento da frequência, desenvolvida pela secretaria de Educação, ganhou nova roupagem. A iniciativa prevê que cada escola tenha um responsável pelo controle das faltas e pela orientação dos alunos. A instituição, porém, atende 1,5 mil estudantes dos anos finais do Ensino Fundamental à Educação de Jovens e Adultos (EJA), em três turnos. Por isso, logo a equipe gestora percebeu que apenas uma pessoa não seria suficiente. "Avaliamos que era necessário criar um link nas turmas para que o trabalho fosse efetivo. Então, pensamos em ter um estudante por classe para ajudar no contato com os pares", relata a diretora, Loraine Mattos. O representante é escolhido pelos jovens.

Assim que identifica que um colega está faltando, o eleito da turma entra em contato com ele. O encaminhamento depende do motivo das ausências. Se for algo que envolva a família, o representante informa aos gestores - há reuniões mensais de orientação e feedback - que, por sua vez, acionam o grupo de visitadores, composto de um professor, um coordenador, um pai de aluno e um estudante. Eles, então, vão às casas conversar com os responsáveis e com o próprio garoto para saber que tipo de apoio estão precisando.

Recentemente, o caso de uma aluna mobilizou esforços. O colega, ao perceber as faltas, a procurou. Ela contou que fotos íntimas suas haviam sido divulgadas nas redes e que estava em depressão por causa disso. "Pedimos ajuda da equipe multidisciplinar da secretaria, que fez um relatório pedagógico e a encaminhou para um atendimento psicológico", explica Loraine, que comemora o retorno da menina à escola. O trabalho da instituição foi eficiente: em 2014, zerou o porcentual de abandono no 8º ano do Ensino Fundamental e no 3º do Médio.

Sexismo, discriminação racial e homofobia, aliás, também são obstáculos à permanência. Assim como a violência. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (Pense) de 2012, 7,2% dos adolescentes já sofreram bullying e se sentiram humilhados. Por essa razão, ouvi-los é essencial. A existência de um professor tutor por turma que discuta os conflitos e as dificuldades é um caminho. "Precisamos de uma escola que acolha os jovens e pense em um conhecimento que, de fato, seja dirigido a eles", sintetiza Maria Amabile.