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Cuidar do professor

Estimular a revisão do trabalho e a busca por novos saberes ajuda no desenvolvimento do profissional

POR:
NOVA ESCOLA
Terezinha Azerêdo Rios,

Terezinha Azerêdo Rios,
graduada em Filosofia e doutora em Educação

A construção de uma escola de boa qualidade passa obrigatoriamente por uma boa formação dos professores. E isso não é algo que termina quando ele recebe o diploma de licenciado, mas se estende por todo o tempo de trabalho, na instituição e fora dela. É por isso que há necessidade de se criar projetos para o aprimoramento constante da prática docente.

Recentemente, tive oportunidade de participar de um encontro com educadores da Diretoria Regional de Educação Freguesia/Brasilândia, da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo. Ali, por iniciativa da Divisão de Orientação Técnico-Pedagógica, está sendo desenvolvido um programa que se chama Nenhum a Menos, destinado à formação continuada de educadores. Esse título nos remete ao filme do diretor chinês Zhang Yimou, que tem como protagonista uma jovem docente que perderia o salário se não conseguisse manter todos seus alunos na escola. Pensamos, portanto, quando ouvimos menção à expressão, na necessidade de garantir o acesso e a permanência das crianças e dos jovens na escola. Acho que a escolha do título para o programa foi muito feliz, pois se propõe a superar a exclusão não apenas dos estudantes mas também de seus educadores, oferecendo a eles a possibilidade de ampliar sua competência, de crescer pessoal e profissionalmente.

"É necessário estranharmos o que é conhecido e costumeiro e procurarmos ver o que nos parece estranho como se fosse habitual, rotineiro."

No encontro, Francisco Mathias, diretor de uma das escolas, deu seu testemunho, afirmando que muitos dos professores, ao participar das atividades do programa, ficam, a princípio, desestabilizados, uma vez que se deparam com propostas que rompem com ideias e práticas com as quais estão acostumados há muito tempo. Isso, porém, tem caráter positivo, pois contribui para uma tomada de consciência, que leva o docente a refletir sobre seu papel e transformar seu trabalho, buscando ampliar a qualidade dele. A possibilidade de entrar em contato com experiências diferentes e de partilhar saberes, dúvidas e inquietações, auxilia não só na superação de situações problemáticas como contribui para a prevenção da presença delas na unidade de ensino.

Os antropólogos chamam nossa atenção para a necessidade de estranharmos o que é conhecido e costumeiro e procurarmos ver o que nos parece estranho como se fosse habitual, rotineiro. Esse exercício, próprio da atitude crítica, da reflexão ética, nos ajuda a fugir dos preconceitos, dos radicalismos que estão presentes entre nós, muitas vezes em virtude do próprio processo educativo que experimentamos em nossa formação e nos contextos socioculturais em que vivemos.

Construir a formação do professor em exercício significa respeitar, cuidar e desenvolver nele e com ele a disponibilidade para olhar o saber que já possui e redescobri-lo de maneira diferente e também para buscar novos caminhos para a aventura sempre desafiadora e valiosa que é a docência.


Foto: Tamires Kopp

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