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Por: Patrick Cassimiro, Raissa Pascoal e Rosi Rico

"Um líder eficiente cria uma cultura de altas expectativas"

Para consultora, boa formação garante o aprimoramento do ensino

Maria Carolina Nogueira Dias ,

Maria Carolina Nogueira Dias ,
consultora em Educação e doutoranda em Políticas Públicas na Fundação Getúlio Vargas (FGV)

A ntes de atribuir ao diretor uma alta carga de responsabilidade pelo sucesso da escola, o sistema educacional inglês resolveu investir na preparação desse profissional. De 2002 a 2012, era obrigatório passar por cursos de formação de liderança, aprender com gestores mais experientes e ser avaliado para receber um certificado de aptidão para assumir o cargo.

Essa realidade foi estudada por Maria Carolina Nogueira Dias, consultora em Educação e doutoranda em Políticas Públicas na Fundação Getúlio Vargas (FGV), durante pesquisa realizada pela Fundação Itaú Social em parceria com o British Council. Nesta entrevista, ela explica o contexto de criação de uma escola de líderes e dá indicações de como o Brasil, aproveitando o capital humano que já existe, pode se inspirar na experiência inglesa para qualificar a Educação do país.

O que é ser um líder na escola?
MARIA CAROLINA NOGUEIRA dias Significa assumir tanto as questões pedagógicas quanto as administrativas. Na Inglaterra, os gestores têm uma formação muito sólida e realizam bastante autoanálise, ou seja, fazem um esforço constante para identificar em que áreas precisam de apoio de outras lideranças. Outra característica desse profissional é conhecer muito bem com quem ele trabalha para delegar tarefas de acordo com as habilidades da equipe. Trata-se, portanto, de uma gestão compartilhada, em que o diretor responde por tudo, mas não leva a escola sozinho.

Como é a preparação na Inglaterra?
Naquele país, percebeu-se que, antes de responsabilizar o diretor pelo sucesso da escola, era necessário dar condições para que ele se posicionasse como um líder que realmente beneficiasse a instituição. Daí o investimento na formação contínua desse profissional. Em 2002, foi criado o centro de referência National College for Teaching and Leadership (Colégio Nacional de Ensino e Liderança). Durante quase dez anos, participar dos cursos oferecidos nesse lugar era obrigatório para assumir esse cargo numa unidade de ensino. Inicialmente, o centro apresentava as inovações na área de gestão por meio de seminários, palestras e materiais de apoio. Com o tempo, notou-se que isso era insuficiente e que o diretor precisava ser formado também no chão da escola, destacando outro gestor mais experiente para acompanhá-lo num período formativo durante a prática.

Existe algo semelhante no Brasil? 
O governo federal faz investimentos em programas de apoio para desenvolver os gestores, mas nada é obrigatório. Vivemos em um regime federativo em que, ainda que existam essas ofertas, são os municípios e os estados que têm uma responsabilidade grande nos segmentos que assumem. Já faz parte da agenda de alguns estados, como São Paulo, Goiás e Mato Grosso, o desenho de uma escola de lideranças, mas não temos nada estruturado e funcionando como na Inglaterra.

Por que palestras e materiais de apoio foram percebidos como insuficientes?
Estruturar a política de formação continuada apenas em cima dessas estratégias é desperdiçar recursos. É necessário garantir que, em algum momento, alguém esteja junto com o diretor na escola e veja como ele está empregando o que aprendeu. Conheço programas de secretarias de Educação brasileiras muito bons. No entanto, mesmo que o gestor seja aplicado nos estudos, quando ele termina o curso, se vê sozinho na instituição de novo. E, às vezes, não consegue enxergar que determinada situação que vivencia tem tudo a ver com o que leu e refletiu.

É necessário garantir que, em algum momento, alguém esteja junto com o diretor na escola e veja como ele está empregando o que aprendeu. 

A troca entre diretores é um caminho?
Sim. Identificar líderes que possuem excelência na maneira de gerir e fazer formações entre pares ou permitir que o diretor de uma boa escola vá colaborar com uma instituição com desafios maiores e ajude a elaborar um plano de ação são medidas que o Brasil pode adotar com custos baixos e sem grandes mudanças estruturais ou políticas. Na Inglaterra, elas foram implantadas e são vistas como estratégia de autoaperfeiçoamento o próprio sistema gera profissionais que estão apoiando os colegas a melhorar o desempenho. É claro que essas iniciativas práticas não resolvem tudo, mas já contribuem com a formação da rede.

Como avaliar o trabalho do gestor?
No Brasil, essa tarefa é muito pautada pelo administrativo. Um supervisor ou secretário adjunto é capaz, por exemplo, de ensinar o diretor a controlar os recursos financeiros, mas não consegue apurar o olhar dele para os aspectos pedagógicos. A lei também não colabora, porque só pune questões administrativas. A inspeção inglesa, feita pelo Office for Standards In Education (Ofsted), é diferente. Ela conta com o próprio gestor para avaliar os quesitos da escola, da aprendizagem à burocracia. As punições só acontecem em casos limites e, antes de chegar a essa ação, o Ofsted acompanha o diretor por pelo menos três anos para ajudá-lo a alavancar os resultados.

O que representa ter um bom líder a frente de uma escola?
É ele quem garante um ambiente comprometido com a aprendizagem dos alunos, onde ninguém pode ser deixado para trás. Isso ficou muito claro  para mim quando conversei com diretores ingleses que recebem alunos de diversas partes do mundo e que fugiram de conflitos. Muitas dessas crianças nem falam inglês. Vi que todas são tratadas da mesma maneira e têm o direito de aprender colocado acima de tudo. A existência de um líder eficiente cria uma cultura de altas expectativas, que não espera que o estudante chegue apenas ao básico. No Brasil, ainda precisamos avançar nesse sentido e quebrar o discurso que permite o fracasso e que cria desculpas. O norte deve ser um só: todos têm de aprender com qualidade.


Foto: Mariana Pekin 

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