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Currículo bem ajustado à realidade de cada lugar

Debater propostas e incluir conteúdos regionais ajudam a comunidade a se identificar com o documento

POR:
André Bernardo, Patrick Cassimiro e Rosi Rico

Em Porto Velho, alunos da EEEFM Rio Branco aprendem mais sobre a história de seu estado quando visitam as instalações da antiga Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, hoje desativada. Já em São Luís, no Centro de Ensino Liceu Maranhense, de Ensino Médio, a riqueza da flora local é explorada nas aulas de Biologia, nas quais os estudantes aprendem botânica aplicada ao preparar chás e pomadas medicinais.

Adaptar o currículo escolar à realidade sociocultural de cada estado ou município - como fazem os gestores das unidades acima - está previsto na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) como complemento à base nacional comum. Como o nome já diz, essa base se refere ao conjunto de conhecimentos que todo aluno do Ensino Fundamental e Médio deve aprender, independentemente da unidade em que estuda ou do lugar onde vive. É o caso dos conteúdos de disciplinas como Língua Portuguesa, Matemática e Ciências, seguidos à risca pelos gestores entrevistados para esta reportagem. As instituições de ensino, porém, têm liberdade para incluir temas de interesse e articular seus currículos com base em características regionais. É a chamada parte diversificada, que contempla temáticas como saúde, cidadania e meio ambiente, entre outras.

Da intenção à prática pedagógica na escola, porém, muitas vezes há uma distância grande. Nos anos finais do Ensino Fundamental, a maioria dos documentos curriculares procura um alinhamento com políticas centrais - como os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) e as Diretrizes Curriculares Nacionais -, o que se sobrepõe aos aspectos regionais, segundo a pesquisa Currículo para os Anos Finais do Ensino Fundamental: Concepções, Modos de Implantação e Usos, realizada pelo Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec). A mesma tendência foi apontada nas análises do estudo Ensino Médio: Políticas Curriculares dos Estados Brasileiros, apresentado pela Fundação Carlos Chagas (FCC). Ambos foram encomendados pela Fundação Victor Civita (FVC).

Essa conciliação entre conteúdos locais e universais é um dos desafios no debate sobre elaboração e implantação de documentos curriculares no país. Outros são as consequências da vinculação deles com as políticas de avaliação externa, o equilíbrio entre quanto descrever o que e como ensinar e a preservação da autonomia do professor em sala de aula e a interdisciplinaridade, ou seja, o trabalho coletivo entre docentes de áreas diferentes. Detalhes das pesquisas e dessa discussão são apresentados no especial Mapa dos Currículos, publicação da área de Estudos e Pesquisas da FVC, que será lançada no final de agosto.

"A estratégia de contextualizar temas a favor da realidade local é relevante porque ajuda o aluno a se identificar com o que é ensinado em sala de aula", diz Antônio José Vieira de Paiva Neto, vice-presidente do Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed) e atual secretário de Educação do estado do Rio de Janeiro. No entanto, ele faz uma ressalva: "Para que a adaptação curricular dê certo, é essencial entrar em acordo na hora do planejamento e os professores precisam trabalhar de maneira integrada".

 

Diálogo como base

Apesar de diferentes entre si, os conteúdos da parte diversificada, em geral, percorrem um mesmo caminho nas escolas até chegar à sala. Tudo começa na semana pedagógica, antes do início das aulas, quando o gestor se reúne com os docentes para montar o calendário escolar, revisar o projeto político-pedagógico (PPP) e definir as adaptações que serão feitas no currículo com base no contexto local. "Esse processo deve ser estendido a pais e alunos, para que, em uma assembleia, a proposta da equipe seja entendida, debatida e legitimada pela comunidade escolar", diz Maria do Pilar Lacerda, diretora da Fundação SM e ex-secretária de Educação Básica do MEC.

No Centro de Ensino Liceu Maranhense, todos se envolvem nesse processo, contribuindo com sugestões. A inspiração, algumas vezes, pode vir do inesperado. Foi assim que a gestão incluiu no currículo a aula de Horto Medicinal, há 15 anos. Em 2000, um aluno passou mal e a merendeira preparou um "chazinho" para ele. "Passado o susto, o professor de Física, José Maria Reis, sugeriu a criação de uma oficina de fitoterapia", recorda o diretor Deurivan Rodrigues Sampaio. "O objetivo era valorizar a flora medicinal local e explicar a docentes, estudantes e funcionários como tratar doenças com o auxílio das plantas."

Para implantar a ideia, foi preciso apenas três meses. Nesse período, Deurivan convocou a professora de Biologia, pediu ajuda a uma ex-aluna do Liceu, a hoje farmacêutica Terezinha Rêgo, referência internacional em pesquisa fitoterápica, e convidou alunos dos cursos de Farmácia e Bioquímica da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) para se revezarem nas aulas de botânica, ramo da Biologia que estuda o reino vegetal. "Com o passar dos anos, transformamos uma área ociosa de 416 metros quadrados, que fica próxima à quadra esportiva, em herbário. Hoje, dispomos de mais de 100 espécies, como hortelã, malva e canela", orgulha-se o diretor.

Desde o início, funcionários e familiares são convidados a participar nas aulas práticas, ao lado do professor responsável, o que contribui para que a instituição cumpra seu papel de ampliar o conhecimento dessas pessoas. "Eles contam histórias, ensinam receitas, enfim, transmitem seus conhecimentos aos mais jovens. Essa troca é muito enriquecedora", diz o diretor.

Deurivan também estimula os docentes a seguir o exemplo do professor José e procurar maneiras diferenciadas de ensinar ou, ainda, enriquecer as aulas com aspectos da cultura local. "É importante ouvir o que pais, alunos e educadores da equipe têm a dizer e, na medida do possível, atender os anseios deles. Mas, para isso, o gestor tem de estar aberto a mudanças. Caso contrário, nada acontece", avisa o diretor.

 

Interesse pelo local

Para o gestor e sua equipe promover uma aprendizagem mais significativa e contextualizada, é importante ampliar o foco do processo educativo. Essa é a opinião de Maike Cristine Kretzschmar Ricci, gerente de Ensino Médio e Políticas Educacionais da Secretaria de Educação do Estado de Santa Catarina. O que isso quer dizer? Em vez de se limitar ao como ensinar os alunos, diretores e coordenadores pedagógicos deveriam refletir também sobre quais conteúdos abordar. "É preciso descobrir o que desperta a curiosidade deles e aguça a vontade de aprender", orienta Maike.

Foi exatamente essa a atitude do diretor Reginey Allan de Abreu, da EEEFM Rio Branco. No início do ano, durante a semana pedagógica, ele se perguntou como tornar mais instigante o ensino de História. A resposta foi trabalhar os elementos da região em atividades extraclasse. O diretor, então, propôs ao professor da disciplina levar os alunos dos anos finais do Ensino Fundamental e do Ensino Médio a alguns dos mais famosos monumentos históricos da capital rondoniense, como a Praça das Caixas DÁgua, o Palácio Getúlio Vargas e o Museu Jorge Teixeira.

O ponto alto da saída foi a visita à famosa Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. Com 366 quilômetros de extensão, a ferrovia ligava Porto Velho, no Rio Madeira, a Guajará-Mirim, no Rio Mamoré. De tão famosa, a Mad Maria - como ficou conhecida - já virou tema de livro e minissérie exibida na TV. Para realizar o projeto, não foi preciso mudar a carga horária ou sacrificar o conteúdo curricular. Mas o diretor cuidou da organização da logística, que incluiu agendar o horário das visitas nos museus, solicitar autorização dos pais e responsáveis e providenciar transporte para os alunos. "Não basta ter boas ideias. É preciso torná-las viáveis", afirma.

Os professores de Geografia e Língua Portuguesa também embarcaram com o docente de História na aventura. Para esse trabalho interdisciplinar, o coordenador pedagógico se reuniu com os educadores e planejou a proposta, alinhando o que seria abordado em cada área. Antes da atividade, os alunos receberam orientações sobre o que deveriam observar no percurso. "Temos o cuidado de não deixar de fora da grade a história de outros estados. Mas queremos valorizar a de Rondônia, pois importa que o estudante saiba quem é e de onde veio", afirma Reginey.

Oferecer atividades diversificadas, como as propostas por essas duas escolas, é uma das formas de tornar o estudo atrativo aos alunos. No entanto, essa estratégia não foi observada pelos pesquisadores na maioria dos documentos curriculares dos estados tanto nos dos anos finais do Ensino Fundamental quanto nos do Ensino Médio. "Nossa análise revelou que faltam tempo e lugar para as especificidades da região e para os interesses dos jovens", afirma Gisela Lobo Tartuce, coordenadora da pesquisa da FCC.


Ilustração: Bruno Algarve