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É possível se diferenciar sem discriminar

Professor deve intervir quando criação de grupos restringir interação entre estudantes

POR:
NOVA ESCOLA
Catarina Iavelberg,

Catarina Iavelberg,
É assessora psicoeducacional especializada em Psicologia da Educação

A presença depanelinhas não é novidade na escola.Muitos educadores naturalizam esse fenômeno, que podemos caracterizar como uma modalidade de formação (ou seria segregação?) social. Refiro-me ao movimento dos alunos se agruparem em torno de algo em comum e se excluírem da convivência com os demais.

Em muitas escolas, principalmente a partir do 6º ano do Ensino Fundamental, os estudantes proclamam haver duas grandes panelas, a dospopulares e a dos não populares.Ambas se dividem em outros tantos subgrupos. Os populares, por exemplo, podem se juntar em torno do interesse e do bom desempenho nas atividades esportivas, por possuírem características físicas valorizadas pelo coletivo, ou ainda ser compostodaquelesidentificados como divertidos, desinibidos, articulados.  Os não populares muitas vezes reúnem osintrospectivos. Já ouvi quem se autodenominava pertencente ao grupo dos excluídos. No caso, eram alunas novas na turma que não conseguiram se encaixar nas formações preexistentes. Evidentemente, a natureza dessas panelinhas varia de acordo com a cultura escolar e familiar das crianças e jovens. Bons estudantes podem estar inseridos em qualquer grupo.

Mas, afinal, qual o problema das panelinhas?  Sabemos que, na passagem da infância para a adolescência, os alunos buscam fontes de identificação que os ajudem a se diferenciar da figura dos pais. Culturalmente esses pré-adolescentes passam a se unir por centros de afinidades. À medida que se interessam por algo que está fora do universo familiar (videogames, música, esporte, literatura etc.), tendem a buscar pares que compartilhem das novas descobertas. O problema se dá quando um agrupamento se constrói sob uma ótica discriminatória ou restringe as possibilidades de interação e de aprendizagem com outros pares. Como o educador pode atuar quando algo assim acontece?

Certa vez, uma professora de uma turma do 5º ano relatou um projeto desenvolvido com sua classe. Segundo ela, osestudantes estavam completamente divididose mal se viam nos horários do intervalo. As relações estavam tão cristalizadas que, em certos momentos em sala de aula, eles se recusavam a trabalhar nos grupos sugeridos.

Cabe a gestores e professores criar maneiras de colocar em ação práticas sociais não discriminatórias.

Utilizando o dispositivo do conselho de classe, a docente iniciou uma discussão com os alunos sobre o que significava para eles ser popular. A turma levantou aspectos positivos (conhecer e se dar bem com todos) e negativos (se achar melhor que os outros).  Ela perguntou se todos da sala poderiam adquirir os aspectos positivos da popularidade e os estudantes afirmaram que sim. A professora sinalizou que,nesse sentido, ser popular não significaria ter de se enquadrar em um estereótipo, que todos poderiam manter a sua singularidade, mas ao mesmo tempo se conhecer melhor. Os alunos sugeriram então maneiras de ampliar a interação entre eles. Eles propuseram que todos participassem de jogos colaborativos no horário do intervalo.  A proposta foi muito bem-sucedida, a qualidade da interação em sala de aula melhorou significativamente. Os estudantes pararam de criar obstáculos para trabalhar com os colegas e perceberam que todos saíram ganhando com a ampliação das relações interpessoais.

Vivemos ainda tempos hostis, com baixa tolerância às diferenças. Cabe a gestores e professores criar maneiras de colocar em ação práticas sociais não discriminatórias, isto é, que ajudem as nossas crianças e adolescentes a compreender que a diversidade é uma riqueza. Afinal, aprendemos mais sobre nós mesmos no contato com os diferentes.


Foto: Tamires Kopp

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