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Novo enfoque para o celular

Antes visto como inimigo, ele agora é aliado na aprendizagem, na formação e na comunicação

POR:
Patrick Cassimiro, Karina Padial e Rosi Rico

Em São Paulo, diretora Marineusa da Rosa apoia uso pedagógico do aparelho em sala. Foto: Raoni Maddalena

Vamos imaginar três situações. Na primeira, você está entre amigos conversando sobre o filme que assistiu no dia anterior. Eles perguntam a nacionalidade do diretor, mas você não consegue se lembrar. Na segunda, você está ouvindo uma palestra de um autor que adora. Ele começa a explicar sobre o processo de produção das obras e você decide registrar a fala, mas não tem lápis e papel. E na terceira, seu filho viajou e você ainda não recebeu notícias de que ele chegou bem. Imaginou? Agora, uma pergunta. O que faria para resolver esses três casos? A resposta passaria por uma solução em comum: usar o celular.

E se esses episódios fossem transportados para o contexto escolar - uma dúvida no meio de uma aula, um registro durante uma observação de classe e um contato com a família enquanto os alunos realizam um passeio pedagógico? Ainda assim os recursos do celular seriam utilizados? Hoje, apesar de o aparelho estar nas mãos de 82% da população brasileira e de 92% dos jovens, em 69% das unidades de ensino públicas, seu uso é proibido inclusive para atividades escolares, como mostrou pesquisa deste ano do Instituto Crescer.

Em outra pesquisa, intitulada Entre a Proibição e a Apropriação: Usos dos Dispositivos Móveis em Escolas Públicas, Lívia Neiva, mestre em Educação, Linguagem e Tecnologia pela Universidade Estadual de Goiás (UEG), constatou que na maioria das instituições a punição para quem descumpre a regra é a apreensão do aparelho por períodos que chegam a 48 horas, isso quando, em alguns casos, o gestor não envia o equipamento a um órgão superior como o Ministério Público, o Conselho Tutelar ou a Secretaria de Educação. Tamanha restrição contrasta com outro número, também do Instituto Crescer: 91% dos educadores são a favor de que os estudantes usem os dispositivos pessoais na unidade de ensino. Então, onde está o problema?

"A crise do celular na escola existe porque ele tem entrado como mídia e não como tecnologia educacional", afirma Lígia Leite, coautora de Alfabetização Tecnológica do Professor (112 págs., Ed. Vozes, 24/2233-9000, 29 reais). E, como mídia, seu uso inadequado é um perigo real. "Mesmo com potencial pedagógico, a ausência de controle que ele representa e que pode levar a práticas como o cyberbullying e o sexting (divulgação de conteúdos eróticos e sensuais por meio de dispositivos móveis) é uma nuvem que paira sobre a cabeça dos educadores", complementa Lívia. Lidar com isso exige um trabalho de conscientização e de aprendizado de toda a comunidade a respeito das novas tecnologias - ignorar a questão não resolve os frequentes abusos e só traz mais prejuízos para as relações interpessoais. "A escola é responsável pela convivência dos segmentos que a compõe e isso agora não é só físico mas também virtual. Preparar os professores e orientar os alunos é essencial, uma vez que não dá para esperar que os pais se encarreguem de ensinar sobre o uso seguro e consciente dessas tecnologias se eles mesmos não aprenderam sobre isso", diz Thais Bozza, que estuda cyberbullying em seu mestrado pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

A opinião é compartilhada por Joana Peixoto, líder do Kadjót, grupo de estudos sobre as relações entre as tecnologias e a Educação da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO). "Assim como ensinamos aos alunos uma série de procedimentos para realizar uma leitura de textos mais formais, precisamos fazer o mesmo com os aparatos tecnológicos". Entre esses procedimentos estão a realização de pesquisas em sites confiáveis, a verificação das fontes de informação para saber a veracidade dos fatos, as consequências do anonimato e do compartilhamento de imagens, vídeos e textos pelas redes sociais, a noção de público e privado e o comportamento ético e moral que deve prevalecer no ambiente virtual. Ou seja, não simplesmente restringi-lo ou temê-lo, mas problematizá-lo. O caminho para isso é promover e manter um espaço de debate e negociação sobre o tema (leia no quadro abaixo).

Além disso, é preciso ter clareza sobre as possibilidades e os benefícios do recurso no contexto educativo. Os alunos podem usá-lo para fotografar, filmar e gravar áudios, escrever textos, pesquisar informações e criar grupos de estudo. Isso sem contar a variedade de aplicativos que possibilitam diversificar abordagens e aprofundar conteúdos.

Para mostrar como os gestores podem incorporar o celular no trabalho desenvolvido na escola, apresentamos três instituições que, contrariando as expectativas, diante das situações citadas no início desta reportagem, encontraram no uso do equipamento a solução mais interessante.

Benefícios na Educação

Estudo indica caminhos para o bom aproveitamento da tecnologia

Resumo: possíveis usos de dispositivos sem fio nas áreas educacional e administrativa.

Riscos da mídia

Materiais para apoiar as reflexões sobre o uso inadequado do celular

Resumo: discute os efeitos de postagens, curtidas, compartilhamentos e retuitadas.

Resumo: gravação feita pela canadense antes dela se suicidar por causa de bullying.

Resumo: falso vidente que "descobre" coisas sobre a vida dos seus clientes.

 

Formação conectada

Coordenador grava, em Iraquara, intervenções da professora para uso em formações. Foto: Sthel Braga

Não faz muito tempo, Patrícia Diaz, diretora de desenvolvimento educacional da Comunidade Educativa Cedac, conduzia um encontro pedagógico sobre leitura. Em determinado momento, diante de uma dúvida do grupo, ela pediu para os professores procurarem a resposta no celular. Eles ficaram se olhando como se estivessem prestes a fazer algo errado. "Ainda paira o medo do uso inadequado e isso, claro, é reflexo de como os gestores têm lidado com a questão", diz. Mas se está a serviço da aprendizagem, como em situações formativas, não há por que restringi-lo.

José Pedro Alves do Nascimento, coordenador pedagógico da EM Rui Barbosa, em Iraquara, a 469 quilômetros de Salvador, não pensou duas vezes quando percebeu que o dispositivo móvel seria um facilitador na hora de registrar as intervenções realizadas pelos professores nas observações de classe que realiza periodicamente.

O acompanhamento da prática docente, que ele faz com base nos planos de aula elaborados conjuntamente com a equipe, acontece desde 2011, quando assumiu o cargo. O processo consiste em analisar a interação entre professor e aluno, registrando as falas de um e de outro - método muito utilizado em pesquisas acadêmicas, no qual o diálogo se transforma em objeto de reflexão. Mas quando começou a visitar as salas, José Pedro anotava tudo a mão. "Muitas falas eu perdia porque não conseguia escrever tudo", conta.

Com o celular, ele transcreve literalmente as conversas e faz uma devolutiva detalhada. O protocolo, como ele chama, é entregue a cada docente, mas também passa por estudo coletivo nas reuniões pedagógicas. "Antes, eu usava muitos materiais de fora para fazer tematização da prática, mas a formação sempre é mais potente quando se pode refletir sobre o próprio trabalho. Hoje, embora eu continue recorrendo a eles, os áudios e as transcrições se tornaram nossa principal fonte de estudo", explica. O coordenador ressalta que costuma usar apenas trechos e que sempre pede autorização do professor envolvido na gravação antes de apresentá-los aos demais.

Retomar o que ocorreu dentro de sala com uma transcrição literal do momento permite ao grupo debater interpretações diferentes sobre um mesmo objeto de estudo. Quando o coordenador faz apenas anotações em papel, o que é levado para análise já é a sua impressão sobre a aula. Os registros também servem para observar os espaços escolares e avaliar como eles estão favorecendo - ou não - a aprendizagem.

 

Combinados em sala de aula

Docente monitora pesquisas dos alunos realizadas pelo celular em escola de São Paulo. Foto: Raoni Maddalena

A incorporação do celular no processo de ensino e de aprendizagem está ligada à concepção pedagógica. "A gestão que atua na perspectiva de estimular a autonomia, a reflexão e a autoria dos alunos avança mais facilmente nesse trabalho", diz Jane Reolo, assessora de tecnologias da informação e comunicação da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo (SME-SP). "São os diretores e os coordenadores que, com base no projeto político-pedagógico (PPP), vão articular e planejar, com ajuda de professores e estudantes, o uso do aparelho e sua relação com os conteúdos, os materiais e até o espaço, uma vez que o dispositivo, por ser móvel, não limita a sala como ambiente único de interações", diz Joana.

Sabendo disso, Marineusa da Rosa, diretora da EMEF Jardim Mitsutani I - Jornalista Paulo Patarra, na capital paulista, que atuou quatro anos como professora de Informática, sugeriu que os docentes discutissem e fizessem combinados sobre seu uso com suas turmas, não se limitando a impor uma proibição e levando em conta seu potencial como ferramenta pedagógica.

O professor José Rosemberg, que atua no 4º ano, entendeu o recado. Nas primeiras aulas, propôs um debate para a classe. "Conversamos sobre as utilidades do celular, mas também sobre como ele pode atrapalhar. Então, entre os combinados, fixados na parede, está deixá-lo no silencioso e só atendê-lo em casos de ligações urgentes, o que deve ser feito no fundo da sala."

Estabelecer acordos de convivência em conjunto com a turma é importante, assim eles entendem a necessidade de cada regra e não passam a cumpri-las apenas por conformismo ou medo das consequências. Fundamental também é, como fez José, lembrar que há exceções e buscar soluções não punitivas em espaços destinados à discussão dos conflitos, como as assembleias.

A iniciativa do docente não parou nos combinados. Para realizar um trabalho sobre animais, que resultaria em um jogo, em cujas cartas estariam as ordens de grandeza deles - tamanho, peso, gestação etc. -, ele programou uma visita ao zoológico. Como as crianças deveriam fotografar os bichos e anotar as informações das placas, José pensou que o celular seria uma boa alternativa. "O professor conversou comigo e eu apoiei a ideia. Então, ele discutiu as maneiras de se fazer registros e a diferença entre como eles eram realizados antes e como são agora. Com isso, os próprios alunos perceberam que o dispositivo era uma opção", conta a diretora. Antes do passeio, o docente tratou com a garotada sobre a responsabilidade de levar o aparelho e comunicou os pais.

Registros feitos, voltaram à sala para tabular os dados colhidos. Porém, perceberam que não tinham as mesmas informações de todos os animais e que seria preciso realizar novas pesquisas para completar as lacunas. O professor conectou os celulares dos alunos na rede da escola e disponibilizou o tablet da classe e o seu próprio aparelho para que todos os grupos tivessem acesso. Em pouco tempo, o trabalho estava concluído.

 

Comunicação com a família

Aplicativo de troca de mensagens é usado, em Salvador, para informar famílias sobre passeio. Reprodução

Ter informações sobre o trabalho desenvolvido na escola é um direito dos responsáveis. Os gestores podem garantir isso com estratégias que também estimulem a participação. O celular pode ser uma opção, pois permite que as famílias acessem informações sobre os alunos e, consequentemente, apoiem a aprendizagem deles.

As alternativas são muitas. Uma delas é filmar uma atividade que acontece em classe e, depois, mostrá-la na reunião de pais para que eles entendam determinado processo. Por meio de mensagens é possível, inclusive, mandar fotos e vídeos de uma produção da turma. Ainda com o SMS, vale, além de enviar lembretes com a data da próxima assembleia ou convites para uma apresentação dos estudantes, dar um retorno sobre uma dúvida levantada durante um encontro ou sobre uma decisão tomada coletivamente.

Outra possibilidade foi encontrada pela equipe do Colégio Padre Ovídio, em Feira de Santana, a 116 quilômetros de Salvador. Por lá, eles tornaram uma prática comum fora dos muros da escola - postar, nas redes sociais, fotos de locais visitados - em estratégia para aproximar a família. Quando a garotada vai para visitas a campo, os responsáveis podem acompanhar pelo aplicativo WhatsApp. Para isso, junto com o informe impresso sobre a saída, eles recebem um aviso sobre a criação do grupo e a possibilidade de participação por meio do envio do número do celular. "O grupo é montado na semana do passeio e os pais são orientados sobre o objetivo e as regras de funcionamento, por exemplo, que não são enviadas imagens individuais dos alunos", explica Paula Costa, coordenadora do 4º e 5º anos. Ao longo do dia, a equipe informa o local que está sendo visitado e compartilha fotos das turmas.

A estratégia, segundo a coordenadora, foi adotada para deixar as famílias, que sempre ficam receosas quando há atividades externas, mais seguras e mostrar a elas as experiências vivenciadas pelas crianças. "Os pais elogiaram a iniciativa. É interessante vê-los trocando informações, comentando as imagens e, inclusive, mediando as conversas, já que não conseguimos ficar conectados durante todo o tempo para responder dúvidas e comentários", conta Paula. O grupo é desativado no dia seguinte à excursão, quando seu objetivo foi concluído.

Esse tipo de ação deve levar em conta que nem todos têm celular com acesso à internet ou os aplicativos necessários. No caso da escola baiana, apenas 10% dos responsáveis não aderiu ao grupo. Mesmo assim, a coordenação se preocupou em fazer todas as comunicações impressas e disponibilizou em seu site as fotos do passeio.

Grupos de WhatsApp estão se popularizando na escola, mas é preciso cuidados a mais porque, ao utilizá-los, se espera respostas imediatas, o que nem sempre é possível. "É importante alinhar expectativas - se vai ter um horário específico em que o educador estará online ou, no caso de equipes, se vai haver uma escala de atendimento e atualização", comenta Lívia. Do contrário, isso poderá significar muitas horas extras de trabalho para o gestor ou docente e ansiedade e angústia para os demais usuários.

Acertados os ponteiros, é hora de colher os benefícios. "Uma comunicação mais estreita e eficiente possibilita à família condições de auxiliar as crianças e de se posicionar frente às ações desenvolvidas. Também permite à instituição de ensino prestar contas sobre o seu trabalho", finaliza Patrícia.

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