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Projetos | Aprendizagem | Educação Financeira | Projeto


Por: Raissa Pascoal

Ganhar, poupar e gastar com consciência

Forme pessoas capazes de lidar de maneira crítica e responsável com o dinheiro

REFORMA PLANEJADA A diretora decidiu com os alunos e o banheiro entupido foi priorizado no CEM Castro Alves (Foto: Caio Capela)

No início deste ano, Maria do Carmo Ribeiro dos Santos, diretora do CEM Castro Alves, em Palmas, pediu ajuda para os professores, os funcionários, os alunos e as famílias para levantar quais eram, na opinião deles, as necessidades da escola. Vários ajustes estruturais precisavam ser feitos. O objetivo dessa ação, efetivada em encontros com cada um dos grupos, era estabelecer algumas metas para o ano, visando aumentar a interação dos alunos entre si e com os espaços e também torná-los responsáveis pelos processos da instituição. Com base nas sugestões recebidas, entre elas instalar ar-condicionado nas salas e construir um vestiário, a gestora se reuniu com a equipe para estabelecer as prioridades de acordo com os recursos financeiros disponíveis. "Depois de fazer isso, apresentamos as nossas escolhas a todos, justificando o porquê de determinadas questões serem resolvidas e outras serem adiadas. Explicamos também que primeiro precisamos pensar nas despesas fixas, como água, luz, gás e limpeza, e depois nas melhorias", conta Maria do Carmo.

Esse processo deu início às discussões de um tema prioritário para a escola: a Educação financeira. A reflexão continuou sendo incentivada em outros momentos ao longo do ano. "Os alunos pediram para que nós pintássemos a quadra. No entanto, avaliamos que, primeiramente, era necessário colocar uma tela de proteção no teto para evitar que pombos entrassem e sujassem o local. Só que, no meio dessa discussão, o banheiro entupiu. Então, explicamos a todos que a verba disponível seria destinada para o conserto. Eles concordaram e sugeriram que, enquanto não tivéssemos recurso suficiente, lavássemos a quadra regularmente", lembra. A exposição desse raciocínio visa promover o pensamento sobre boas atitudes em relação ao dinheiro e sobre a necessidade de se tomar decisões bem fundamentadas, diferenciando o que se precisa do que se deseja. "Desde jovens, as pessoas têm de ter consciência da importância de se planejar para alcançar os objetivos da vida. Isso evita que dívidas sejam feitas", explica a diretora.

O trabalho com questões financeiras ganhou força no país depois da Estratégia Nacional de Educação Financeira (Enef), instituída por decreto presidencial em 2010. Em obediência a ela, foi criado o programa Educação Financeira na Escola, coordenado pela Associação de Educação Financeira no Brasil (AEF-Brasil), uma ONG de São Paulo. O projeto-piloto, que funcionou de 2010 a 2011, contemplou instituições de Ensino Médio em algumas redes estaduais, incluído aí o Tocantins, onde está o CEM Castro Alves. Em 2015, o programa foi expandido para o Ensino Fundamental em redes municipais. "O objetivo é dar uma formação crítica e construir uma pessoa capaz de compreender que todo ganho e todo gasto tem de ser regido pela ética", diz Cássia D'Aquino, especialista em Educação financeira. Para ela, esse assunto consiste, basicamente, na promoção de atitudes que privilegiam quatro grandes áreas: como ganhar, poupar e gastar dinheiro e como perceber que ele não é o que mais importa no mundo.

transversalidade do tema

"As pessoas tratam a Educação financeira como se fosse sinônimo de Matemática, que aborda conteúdos como soma, juros, taxas e rendimentos. No entanto, ela é uma das ferramentas para a tomada de decisão durante o planejamento da vida", explica Amarildo Melchiades da Silva, pesquisador do Núcleo de Investigação, Divulgação e Estudos em Educação Matemática (Nideem) e professor do mestrado da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).  O assunto dialoga com conteúdos que já estão previstos no currículo de diversas disciplinas, inclusive com outros temas transversais presentes nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), como consumo e meio ambiente. Cabe ao coordenador pedagógico ajudar o grupo de educadores a articular o conteúdo programado com as questões financeiras durante as aulas. "Um professor de Química pode propor a produção de sabão aliando os processos envolvidos ao pensamento sobre a economia que é feita com essa ação e os benefícios disso para o meio ambiente", explica Alessandra Camargo, coordenadora do programa de Educação Financeira no Tocantins e autora do projeto institucional que acompanha esta reportagem. Por sua vez, os docentes de Geografia podem aproveitar o cenário atual do país para falar sobre a importância de gerir bem a economia.

FORMAÇÃO No Guarujá, a equipe reflete sobre finanças pessoais antes de levar o tema para a sala (Foto: Claudio Vaz)

A escolha do que e como trabalhar com os alunos vai depender da faixa etária em que eles estão. E quando esse esforço deve começar? "Quanto antes, melhor, pois é até por volta dos 5 ou 6 anos que construímos as ideias de como lidar com esse e outros assuntos", defende Cássia.  A questão vai ser sempre de que maneira ela é realizada. Não faz sentido, por exemplo, pretender que uma criança saiba administrar um montante, pois ela não tem uma fonte de renda. "Com os pequenos, é interessante começar problematizando aspectos relativos ao consumo sustentável e, aos poucos, discutir sobre o valor do dinheiro", defende Marco Aurélio Kistemann Júnior, coordenador do Grupo de Pesquisas Financeiro-econômicas em Educação Matemática (Grife) da UFJF.

Novos hábitos para todos

Na EM Professora Maria Aparecida de Araújo, no Guarujá, a 88 quilômetros de São Paulo, os orientadores (como são chamados os coordenadores pedagógicos da rede) e os docentes participam de uma capacitação oferecida pela Secretaria Municipal de Educação antes de tratar de questões financeiras com os estudantes do 6º ao 9º ano. "Nesse curso, aprendemos tanto de que maneira é possível trabalhar esse tema pedagogicamente nas diferentes disciplinas como maneiras de utilizar esses conhecimentos na nossa vida pessoal", explica Marlucia Reis Santana, orientadora educacional. Ela acredita que, para atingir o objetivo de formar cidadãos críticos em relação ao consumo, também é preciso ser formado desse modo. No CEM Castro Alves, a preocupação é a mesma. ?Se eu oriento o aluno, eu também tenho de ser preparada e ter certeza daquilo que estou dizendo. Não adianta falar sobre planejamento orçamentário se estou endividada?, diz Maria do Carmo.

Para garantir que a própria equipe seja capaz de lidar com suas finanças pessoais de maneira responsável e servir como um exemplo para os estudantes e para os colegas, o diretor pode criar iniciativas próprias. Algumas possibilidades são o agendamento de palestras com especialistas sobre o assunto, abertas para toda a comunidade, e a utilização do orçamento da instituição de maneira formativa, como fez a gestora em Palmas. ?Recomendo sempre que se comece por um encontro com os familiares para apresentar a proposta. É importante deixar claro que a escola não tem resposta para tudo, está ali para ajudar e não tem a intenção de atropelar a família e ditar o que ela deve fazer em relação ao dinheiro?, defende Cássia D?Aquino. Com conhecimento suficiente, todos estarão aptos a realizar escolhas ao longo da vida.

Projeto Institucional: Combate à violência

Justificativa

Em tempos de crise econômica, poupar e gastar os recursos com sabedoria nunca foi tão elementar. A escola, por ser capaz de mobilizar a comunidade para discutir questões cotidianas, é o local ideal para criar uma consciência financeira com base em bons hábitos e posturas.

Objetivo geral

Disseminar conceitos de Educação financeira e formar pessoas capazes de fazer boas escolhas relacionadas ao dinheiro.

Objetivos específicos

Para a equipe gestora

  • Organizar a formação sobre Educação financeira para os docentes e assegurar que o tema seja contemplado por ações dentro e fora da sala de aula.

Para os professores

  • Trabalhar o assunto de maneira contextualizada com a realidade da comunidade.

Para os alunos

  • Entender a importância das finanças e do consumo consciente e disseminar o conhecimento adquirido.

Tempo estimado

Todo o ano letivo.

Desenvolvimento

1ª ETAPA Diagnóstico

Antes de planejar qualquer ação ou atividade, investigue o que a equipe escolar e os alunos entendem sobre Educação financeira. Para isso, elabore um questionário para professores e funcionários e outro para estudantes com algumas perguntas básicas, levando em consideração a realidade deles. Com os adultos, é possível explorar, por exemplo, se têm o hábito de poupar e planejar seus gastos. No caso dos estudantes, será necessário levar em consideração a faixa etária e o fato de a maior parte não possuir renda própria. Portanto, algumas questões pertinentes são se eles conseguem avaliar a diferença entre aquilo que se precisa e o que se quer e se são capazes de estabelecer prioridades. O resultado do mapeamento ajudará a ter ideia de que tipo de formação deverá ser oferecida à equipe e como orientar o trabalho em sala de aula.

2ª ETAPA Formação

Com as respostas dos questionários em mãos, convide o coordenador pedagógico para avaliar a percepção da comunidade. Caso vocês concluam que os professores e os funcionários têm tido muitos problemas na hora de administrar os recursos pessoais, convoquem uma reunião e proponham um exercício de planejamento financeiro tomando como exemplo a gestão da própria escola. Essa etapa garante a formação daqueles que servirão de exemplo para os alunos. Para prepará-la, utilize como base a reportagem Transparência: Contas Abertas à Comunidade. Separe os docentes e os funcionários em grupos e apresente a eles as receitas e as despesas previstas na instituição para o bimestre seguinte. Peça a eles que levantem quais melhorias são urgentes e estabeleçam prioridades, considerando que parte do dinheiro já está comprometido com as contas fixas, como água e luz. Solicite que cada grupo apresente as escolhas e as justificativas no final da atividade. Discuta a importância de distinguir o que é urgente do que pode esperar mais um pouco e a necessidade de poupar parte dos recursos para eventuais imprevistos. Além de criar e exercitar a consciência financeira, essa formação também é uma oportunidade para praticar a transparência dos recursos e as características de uma gestão democrática, em que todos participam das decisões e têm voz para opinar. Se precisar, convide um especialista para conversar com o grupo e tirar as dúvidas que restaram.

3ª ETAPA Planejamento de atividades interdisciplinares

Com professores e funcionários aptos a dar bons exemplos de como lidar com o dinheiro, é hora de pedir ao coordenador pedagógico que comece a planejar ações voltadas para os alunos. Oriente-o a voltar ao resultado dos questionários e, junto com os docentes de todas as áreas do conhecimento, avaliar quais são as principais dúvidas dos estudantes. O coordenador também deve fazer um estudo de quais conteúdos já previstos no currículo podem ser relacionados a esse assunto e pedir e dar ideias de atividades que tratem desse tema de maneira transversal. Uma sugestão é criar situações didáticas com base no material do programa Educação Financeira nas Escolas. Com essas reflexões, os docentes terão uma ideia melhor de como podem levar o conteúdo para dentro da sala de aula.

AVALIAÇÃO

Faça um novo questionário para verificar se os professores, os funcionários e os estudantes mudaram suas concepções sobre Educação financeira e adquiriram hábitos mais saudáveis a esse respeito. Se for necessário, realize novas formações com a equipe e peça ao coordenador pedagógico que continue incentivando e acompanhando o trabalho transversal com o tema em sala de aula.


CONSULTORIA Alessandra Camargo Godoi, mestre em Educação e coordenadora do Programa Educação Financeira no Tocantins.