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Seções | Espaço | Ética na Escola


Por: NOVA ESCOLA

Salas e aulas

Como a reorganização do espaço colabora para práticas didáticas com menos amarras

TEREZINHA AZERÊDO RIOS,

TEREZINHA AZERÊDO RIOS,
é graduada em Filosofia e doutora em Educação

filósofo e educador Mario Sergio Cortella, no livro A Escola e o Conhecimento: Fundamentos Epistemológicos e Políticos (160 págs., Ed. Cortez, tel. 11/3611-9616, 34 reais), faz referência a uma espécie de anedota, segundo a qual um monge medieval europeu teria entrado em coma e permanecido vivo até hoje. O corpo dele foi trazido para um convento no centro de São Paulo. Um dia, o monge despertou e caminhou pela cidade, assustando-se com tanta coisa desconhecida, amedrontado diante da confusão. Só se tranquilizou quando entrou num lugar que era familiar e seguro para ele. A disposição dos móveis, os objetos de trabalho, tudo era já conhecido. Estava numa sala de aula, diz Cortella. 

De fato, a sala de aula deve ser o espaço que menos sofreu modificações no contexto escolar. Em algumas instituições, o quadro, o giz, a forma como se posicionam a mesa do professor e as carteiras dos alunos ainda são muito semelhantes ao que encontramos nas classes de outros tempos. E como o local em que se dá o processo de ensino e aprendizagem afeta as relações que ali são construídas, podemos indagar sobre o que significa essa organização e talvez pensar que a permanência encontrada indica, de certo modo, a manutenção de um jeito de conceber a relação pedagógica.

Mas será que os novos arranjos vistos nas salas de aula representam novas formas de conceber os processos educativos? Myriam Nemirovsky, pesquisadora  argentina, afirma que embora as mesas e cadeiras não sejam mais pregadas ao chão, as amarras permanecem na cabeça de muitos gestores. É preciso libertar-se disso. Não basta trocar a cadeira de lugar, é preciso mudar o modo de entender a dinâmica da didática e pensar e explorar alternativas diversas do espaço.

O local em que se dá o processo de ensino e aprendizagem afeta as relações que ali são construídas.

Se queremos que a escola seja um lugar em que se realiza uma prática pedagógica competente, que promove a vida boa, isso tem de ser objeto de reflexão da equipe de educadores. Até mesmo a ideia de sala de aula deve ser ampliada. Ela é um espaço físico, mas é, mais do que isso, um espaço vivencial. Alguém afirmou que a melhor aula é aquela que transporta o aluno para fora da classe, ou que consegue trazer para ele a multiplicidade de conhecimentos, de emoções e de contradições que constituem o mundo. Portanto, é a aula que caracteriza o local e ela pode existir no pátio, na quadra, na cantina, no jardim.

Silvio Barini Pinto, diretor do Colégio São Domingos, em São Paulo, instalou um piano numa passagem do casarão onde a instituição funciona. E lá estão acontecendo práticas magníficas, nada tradicionais. São aulas-encontros, aulas-descobertas, aulas-surpresas. As relações ali estabelecidas não são só de professores com alunos mas de alunos com alunos, professores com professores, gente com gente. Tudo por causa de uma concepção de ensino que acredita que aceitar riscos é condição para a experiência verdadeira e que procura romper com estereótipos e modelos capazes de engessar e prejudicar o trabalho. A singularidade dessa experiência seria formadora?, indaga o diretor. A resposta é sim! Educação é construção da humanidade, processo de formação. Na perspectiva ética, ela cumpre seu papel se é criadora de vida mais plena, com base em um pensar aberto e em uma ação corajosa, que ouse promover as mudanças que a história demanda.


Foto: Tamires Kopp

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