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A inteligência coletiva e a transformação da Educação

Redes de troca de conhecimento contribuem com o desafio de rever e atualizar os conteúdos com vistas a atender a novas competências e habilidades

POR:
NOVA ESCOLA
FERNANDO M. REIMERS,

FERNANDO M. REIMERS,
Professor de Políticas Educacionais e Inovação na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. É assessor de governos, fundações e organizações internacionais

No século 21, as escolas poderão apoiar os estudantes na obtenção das habilidades que eles necessitam para prosperar, na medida em que professores e alunos participem da geração da base de conhecimentos. Isso requer duas mudanças que estão inter-relacionadas: 1) uma ênfase clara em promover o desenvolvimento de atributos para esse século, além das disciplinas acadêmicas básicas; e 2) a organização de formas de gestão baseadas na implantação de redes e grupos capazes de construir uma inteligência coletiva.

Nas últimas décadas, diversos esforços em nível nacional e internacional têm ido de encontro à urgência de assegurar que os saberes que os estudantes adquirem lhes permita contribuir e participar da sociedade. Desde que Benjamin Bloom (1913-1999) apresentou, há quase 70 anos, sua valiosa taxonomia de aprendizagens que sugeria uma hierarquia baseada no conhecimento dos fatos e incluía aspectos como a solução de problemas, a avaliação e a síntese, múltiplos projetos têm colaborado com a compreensão de quais são as competências com valor para o indivíduo e sua comunidade.

Algumas décadas de reflexão

O relatório da Comissão Internacional sobre Educação para o século 21, da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), como resultado de uma ampla consulta global durante os anos 1990, formulou uma valiosa concepção holística com quatro pilares: aprender a ser, a conhecer, a fazer e a conviver. No final da mesma década, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico  (OCDE) coordenou uma consulta para definir os atributos necessários para viver em democracia e em sociedades de conhecimento, que se tornou a base para a formulação do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa). Lançada no ano 2000, essa iniciativa visa medir as competências cognitivas dos estudantes nas áreas de linguagem, Matemática e Ciências.

Outros esforços semelhantes incluem uma análise patrocinada pelas principais empresas globais de tecnologia (Avaliação e Ensino de Competências para o Século 21). O Departamento de Trabalho dos Estados Unidos também patrocinou um relatório em 1991 especificando as noções de trabalho que as escolas deveriam desenvolver (US Dept of Labor Secretarys Commission on Achieving Necessary Skills). Esse documento destacava a importância de procedimentos de administração de recursos como tempo, dinheiro e materiais, o processamento de informações e capacidades interpessoais e tecnológicas. Na base desses assuntos estão temas como leitura, escrita, aritmética, comunicação, pensamento, tomada de decisões, responsabilidade individual, autoestima, sociabilidade e integridade.

A OCDE coordenou uma consulta para definir os atributos necessários para viver em democracia e em sociedades de conhecimento.

Mais recentemente, uma coalizão público-privada, a Aliança para a Educação do Século 21, promoveu esforços para que os diversos estados americanos adotem uma visão mais ampla dos propósitos da Educação, que inclui compreensão global, habilidades financeiras e capacidades cívicas, de saúde e bem-estar. A ênfase dessa coalizão está no desenvolvimento de capacidades de colaboração, comunicação, pensamento crítico e criatividade. A Academia Nacional de Ciências, também dos Estados Unidos, publicou um relatório que sintetiza estudos sobre as competências humanas com importantes consequências pessoais e sociais, agrupando-as em aspectos cognitivos, de autoconhecimento e de relacionamento.

Caminhos para a ação

Ainda que exista um crescente consenso sobre a importância de que as escolas promovam aprendizados mais amplos que os que contempla com o currículo tradicional, muitas instituições e redes de ensino estão apenas começando a avançar e dar alguns passos na hierarquia de habilidades formulada por Bloom há tanto tempo.

A análise da maneira como diversos países levantam as competências que os estudantes do século 21 precisam ter é o foco de um trabalho de investigação comparada que realizamos na Universidade de Harvard, onde planejamos analisar não apenas a diversidade dos currículos como também os programas e políticas que permitem alcançar esses objetivos. Nesse trabalho ainda em curso, encontramos importantes diferenças entre os diversos países observados. Alguns, como o Brasil e os Estados Unidos, utilizam um modelo importado de gestão de empresas do século passado que consiste em definir metas específicas, medi-las e utilizar incentivos para alcançar tais objetivos. Essa concepção gera uma preocupação com o risco de que a reforma seja executada em escala, prestando mais atenção ao ritmo e à sequência de ações. Em outros locais, como Cingapura, há muito mais ênfase no currículo e investimento na preparação de professores e diretores para que possam apoiar seus alunos a alcançar essas habilidades.

Os esforços de mudança podem ter objetivos diversos e os instrumentos que são úteis para alguns objetivos podem não funcionar para outros. Particularmente, as ferramentas políticas que têm sido mais exitosas para aumentar a eficiência da gestão educativa não têm demonstrado o mesmo sucesso para promover inovações que permitam o desenvolvimento das competências para o século 21.

O resultado é que grande parte das reformas empreendidas são focadas em melhorar a eficiência do sistema educativo, com pequenos passos. Não é frequente uma preocupação sobre se ainda é pertinente o que se aprende e nem a discussão sobre porque se deve mudar os propósitos do ensino. Traduzir esses desejos ambiciosos em uma nova cultura escolar requer ações de maior complexidade.

Consequentemente, os sistemas que têm tido maior êxito em melhorar a eficiência não têm conseguido ao mesmo tempo empreender reformas que estimulem a inovação, já que os instrumentos utilizados para alcançar resultados a curto prazo deslocam a perspectiva da própria inovação e do longo alcance, necessários para reformas mais adaptadas às mudanças sociais no entorno da escola.

Os sistemas que têm tido maior êxito em melhorar a eficiência não têm conseguido ao mesmo tempo empreender reformas que estimulem a inovação.

Vivemos em uma época de oportunidades sem precedentes para a transformação da Educação, geradas frequentemente por pequenos grupos. Há um grande potencial no estudo dessas inovações locais que estão ajudando os alunos a desenvolver as competências que precisam, com casos de sucesso contra os prognósticos.

As novas possibilidades estão em diversas áreas onde a tecnologia consegue unir especialistas na solução coletiva para problemas complexos. A versão mais popular desse conceito é o crowdsourcing, que é apenas uma instância de uma classe mais geral de formas de inteligência coletiva. É possível atualmente criar sistemas que permitam a amplos grupos profissionais, com professores e gestores, participar da definição dos propósitos e no desenvolvimento de pedagogias e planos de estudo.

Além da pesquisa e da difusão dessas boas práticas e das diferentes comunidades de aprendizagem profissional que podem se estruturar para facilitar a transferência apropriada dessas ideias, a Educação do século 21 poderia ser acelerada pela promoção da inovação por meio dessas redes de aprimoramento que envolvam professores e outros atores-pensadores em ações que componham uma mente coletiva. Com isso, será possível assumir desafios maiores que as capacidades individuais dos integrantes e construir modelos de gestão apropriados à Educação do século 21.


Foto: Silvia Diaz Granados/Arquivo pessoal

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