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“A formação continuada precisa se basear nas dificuldades dos docentes”

Segundo a especialista, as secretarias têm de conhecer a rede e colaborar para que coordenadores consigam realizar bem seu papel

POR:
Karina Padial
Rosaura Soligo,

Rosaura Soligo,
coordenadora de projetos do Instituto Abaporu de Educação e Cultura, em São Paulo

As secretarias podem ajudar ou atrapalhar as escolas, constata Rosaura Soligo, coordenadora de projetos do Instituto Abaporu de Educação e Cultura, em São Paulo. Com a experiência de quem já atuou como consultora em diversos órgãos estaduais e municipais, a doutoranda em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) afirma que problemas como a falta de planejamento por parte desses órgãos leva a políticas públicas desarticuladas entre si e desconectadas das reais necessidades dos educadores. Isso, claro, acaba respingando nas ações de capacitação. Afinal, como pensar em pautas e modalidades de estudo sem ter dados que embasem a tomada de decisões? Por isso, segundo Rosaura, é tão comum ver que a formação continuada oferecida pelas redes se resume a duas ou três palestras ao longo do ano ou cursos de 20 horas sobre temas que já foram tratados inúmeras vezes.

Outro aspecto preocupante, de acordo com a estudiosa, é a atuação solitária dos coordenadores pedagógicos, que, em muitos casos, não recebem apoio nem acompanhamento dos parceiros das secretarias. Ao chegar às escolas, algumas vezes sem que ele, ou a direção, tenha clareza da função a desempenhar, esse profissional precisa aprender na prática tudo o que a graduação não deu conta de ensinar, sem ter grupos ou pares com quem possa trocar experiências.

Na entrevista a seguir, Rosaura aprofunda a reflexão sobre esses desafios e aponta estratégias e ferramentas que podem ajudar a reverter esse cenário.

 

Como secretaria de Educação deve atuar em relação à formação continuada dos educadores?

ROSAURA SOLIGO O objetivo desse órgão é que os estudantes aprendam mais e melhor e que os índices de fracasso escolar sejam superados, então ele tem de pensar de maneira sistêmica em todos os aspectos relacionados à qualidade da aprendizagem. A formação continuada é um deles e para que ela aconteça deve-se garantir um tempo para estudo na jornada do professor. Além disso, planejar as ações que serão oferecidas e capacitar os coordenadores pedagógicos, já que são eles os formadores nas instituições, também é essencial. Muitas vezes, foca-se na capacitação dos docentes e se esquece que o coordenador também precisa ser esclarecido sobre sua atuação e ter subsídios teóricos e metodológicos que o ajude a desenvolver seu trabalho. No entanto, as estratégias de uma rede devem ser pensadas de maneira articulada. Corre-se o risco de perder a potência de boas iniciativas se outras demandas, como as relacionadas à carreira e à infraestrutura, são desconsideradas. É claro que muitos municípios não têm verba suficiente para implementar tudo de uma vez e, por isso, precisam se programar bem.

 

Muitas vezes, foca-se na capacitação dos docentes e se esquece que o coordenador também precisa ser esclarecido sobre sua atuação.

 

De que maneira as redes têm planejado isso?

Hoje, o que encontramos é um sistema que funciona por meio de puxadinhos. Faz-se uma ação e no meio dela descobre-se que antes era melhor ter realizado outra. Daí, enquanto as duas estão em andamento, inicia-se uma terceira e as anteriores não são concluídas. No sentido de evitar que isso aconteça, eu defendo que se baseie nos problemas para pensar nas iniciativas um método conhecido como planejamento estratégico situacional. Para isso, a secretaria precisa ter instrumentos que permitam a ela conhecer a realidade das escolas. Muitas vezes, um questionário, enviado a docentes e gestores, já contribui para isso. Ao reunir as respostas com os registros que os próprios técnicos fazem em suas visitas às unidades, o cenário torna-se ainda mais completo. Além disso, a rede deve se valer de dados de avaliações externas e de outros índices, como os de reprovação e evasão. Assim, dá para identificar as principais demandas e definir o que vai ser feito, indicando como cada segmento diretor, coordenador, professor e técnicos será envolvido, o prazo para atingir o resultado desejado, os parceiros em potencial, entre outras coisas.

 

Quais estratégias podem ser usadas para identificar as demandas dos docentes e dos coordenadores?

Vou dar um exemplo de um trabalho feito na Secretaria Municipal de Educação de Rio Branco. O município desenvolveu o Programa de Avaliação da Aprendizagem que pressupunha uma análise do desempenho dos estudantes focada em leitura, escrita e Matemática. Essa é uma ação presente em várias redes, mas lá havia uma diferença substancial: cada professor tinha de apontar suas dúvidas em relação aos resultados obtidos pelos alunos, ou seja, sua dificuldade em entender porque eles não estavam fazendo o que se esperava. Depois disso, ele enviava para o coordenador suas observações junto com algumas atividades realizadas pelas crianças que tinham relação com a questão. O coordenador, então, selecionava os exemplos mais representativos das principais observações da equipe docente e encaminhava para a secretaria. Todo o material era analisado pelos supervisores técnicos e dele surgia a pauta para os estudos coletivos. Assim como nessa experiência, a formação continuada precisa se basear nas dificuldades dos docentes. Não adianta perguntar para eles quais conteúdos gostariam de estudar porque eles podem propor temas que estejam desvinculados das necessidades, já que, às vezes, eles não conseguem perceber sozinhos que suas práticas didáticas  não estão adequadas.

 

As secretarias devem sempre ir até as escolas e o coordenador precisa ter uma rotina nas salas de aula.

 

Que cuidados se deve tomar para avaliar se o trabalho está sendo efetivo?

É comum ter secretarias com iniciativas muito consistentes, mas que não fazem o acompanhamento do que acontece nas escolas por não considerá-lo importante ou por não ter recurso humano suficiente. Agindo assim, atua-se com base em uma fantasia de que há um aprimoramento automático da prática ao se participar de um processo formativo. Mas nem sempre é desse jeito. Por isso, as secretarias devem sempre ir até as escolas e o coordenador precisa ter uma rotina nas salas de aula.

 

O planejamento ajuda os profissionais da secretaria ou da escola a pensar quais estratégias mais atendem às necessidades do grupo?

Deveria ajudar. Muitas vezes, pensa-se que com algumas palestras ou um curso de 20 horas o problema estará resolvido. Mas não é bem assim. Cada modalidade corresponde a uma necessidade. A palestra funciona quando se quer fazer a atualização de um tema ou discutir uma nova abordagem para um assunto que já é de domínio dos educadores. Ela também pode ser utilizada para sensibilizar os professores em relação a um assunto novo, por exemplo, com um grupo que nunca discutiu a inclusão. Mas as ações não devem parar por aí. É preciso refletir sobre a prática pedagógica e pensar em formações específicas para cada público.  Para esse aprofundamento, é adequado criar grupos de estudos pequenos, de 15 a 20 professores, para que eles possam falar, apresentar dúvidas e discutir.

 

Que outros momentos de estudo podem ser realizados?

Eu gosto muito da supervisão, quando alguém de fora é chamado para fazer uma análise da prática, com base nas informações prévias que ele tem sobre a realidade de uma rede ou de uma escola, obtidas por meio de relatos e outros registros enviados anteriormente. Dessa maneira, a reflexão acontece com base nas principais dificuldades apresentadas pelos próprios educadores. Outra estratégia que eu acho muito potente é a observação de sala de aula porque é nela que, de fato, o formador pode identificar questões que o professor não veria com seus próprios olhos. Outra modalidade, ainda pouco adotada, é um profissional inexperiente observar um mais experiente. Muitas vezes os recém-chegados não têm muito repertório e ficam com turmas complicadas. Então, essa é uma maneira de ajudar a preparar esses docentes.

 

O coordenador precisa aprender muita coisa na prática porque sua graduação, na maioria das vezes, não dá conta disso.

 

Quais os principais desafios do coordenador para garantir os encontros pedagógicos?

Como o coordenador precisa aprender muita coisa na prática porque sua graduação, na maioria das vezes, não deu conta disso, é fundamental que ele esteja inserido em um grupo com pessoas para as quais ele leve suas questões e possam ajudá-lo a resolvê-las. Mas ele ainda atua de forma muito solitária, em uma posição que tem uma ambiguidade inerente ao cargo. Ao mesmo tempo, está no lugar, pelo menos em tese, de parceiro experiente do docente e de representante do poder, por seu papel de liderança. E aí, se ele não se constituir como uma figura legitimada e que tenha a confiança da equipe, isso pode criar um problema grande. Como um professor vai expor sua dificuldade para alguém que, pelo menos na cabeça dele, tem a responsabilidade de acompanhar se o seu trabalho está indo bem ou não? Por isso também, e aí está outro desafio, o coordenador deve contar com o apoio do diretor, o que nem sempre acontece tanto por um excesso de atividades burocráticas que as instituições possuem como pela falta de clareza em relação às funções que ele tem de desempenhar.

 

A formação continuada também deve colaborar para ampliar o repertório cultural dos docentes?

A formação cultural não é algo que acontece de uma hora para outra, é um processo que se dá ao longo da vida e tem a ver com as oportunidades que a pessoa teve até então. Mas as ações propostas pelas secretarias e pelas escolas têm potência suficiente para colocar o professor em outro patamar. Há alguns anos, eu e uma equipe trabalhamos com coordenadores pedagógicos que integravam a rede de São Luís. Junto com as pautas da formação, nós também planejamos momentos de leitura de textos literários. Levávamos livros na mala e montávamos um canto, no qual eles podiam fazer uma pequena feira de troca. No começo, foi um fracasso total, eles não levavam nenhum exemplar e reclamavam que não estavam lá para isso. Mas nós insistimos e eles começaram a tomar gosto. No final do curso, quando fizemos uma avaliação, muitos disseram que passaram a gostar de literatura por causa dessa proposta e que tinham levado a iniciativa para as suas escolas. Às vezes, uma ação simples pode colaborar para que o educador descubra novas possibilidades e potencialidades. Por isso, acho que os formadores devem propor atividades em espaços culturais e, no caso da inexistência deles ou da dificuldade de acesso, realizar sessões de cinema e saraus literários. Quanto mais contato com o universo cultural o professor tiver, mais ele vai conseguir pensar em novas ideias e apresentá-las aos alunos.


Foto: Mariana Pekin

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