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A nova onda de diagnósticos

Transtorno opositor desafiador (TOD) é usado para tentar explicar o mau comportamento

POR:
NOVA ESCOLA
Catarina Iavelberg,

Catarina Iavelberg,
assessora psicoeducacional especializada em Psicologia da Educação

De tempos em tempos, diagnósticos psiquiátricos avançam pelas portas das escolas feito ondas enormes. As instituições são tomadas por um discurso que indica a medicalização da infância. Testemunhamos crianças serem tratadas com drogas que visam a extinção de  um comportamento inadequado ou uma melhor performance na aprendizagem. Há alguns anos, a bola da vez era o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH). Já discutimos nesta coluna os cuidados educacionais e pedagógicos necessários quando recebemos alunos com esse rótulo.

O novo quadro clínico que surge nas salas de aula é o transtorno opositor desafiador (TOD), também conhecido como transtorno de oposição. De uma hora para outra parece haver um tsunami de diagnósticos desse tipo e, primeiramente, cabe indagar, em paralelo a esta breve reflexão, se não existe algum tipo de excesso por parte dos médicos. Crianças e adolescentes anteriormente tidos como hostis, desobedientes ou simplesmente mal-educados passam a ser vistos como portadores de um distúrbio mental.

Crianças e adolescentes anteriormente tidos como hostis, desobedientes ou simplesmente mal-educados passam a ser vistos como portadores de um distúrbio mental.

Segundo a psiquiatra Maria Antonia Serra-Pinheiro, o TOD é um transtorno disruptivo, caracterizado por um padrão global de desobediência, desafio e comportamento hostil. A criança discute excessivamente com adultos, não aceita responsabilidade por sua má conduta, incomoda deliberadamente os demais, possui dificuldade de aceitar regras e perde facilmente o controle se as coisas não seguem da forma como deseja.  O sistema diagnóstico DSM-IV define o TOD como um modelo de comportamento que inclui, por pelo menos seis meses, quatro entre estes critérios: Perder a calma, discutir com adultos, negar-se a obedecer aos pedidos ou regras dos adultos, fazer coisas que incomodem, gratuitamente, os outros, culpar os outros por seus erros ou comportamentos inadequados, ser suscetível à irritação, ficar enraivecido e ressentido, e ser rancoroso e vingativo.

O tratamento normalmente sugerido é uma espécie de terapia familiar que visa alterar as atitudes da criança por meio da modificação da maneira como os pais lidam com ela. A isso são aliadas a terapia individual para o estudante e o uso de medicação. Mas, afinal, o que a escola pode fazer diante de um quadro como esse?

Primeiro, é importante nos posicionarmos de uma forma sensata. Não somos onipotentes, não temos o poder de, sozinhos, solucionar os problemas desse aluno e de sua família, mas também não somos totalmente impotentes. Há algo que podemos e devemos fazer. Evidentemente, o comportamento dessas crianças afeta a relação delas com colegas, professores e gestores. A escola precisa, então, cumprir a sua função educativa de oferecer parâmetros claros sobre o que é permitido nas relações sociais e o que não é tolerado.  Nesse sentido, ela não pode ser permissiva, tem de ajudar os estudantes a compreender os princípios que orientam as regras e zelar pelo cumprimento delas. Aqueles que não seguirem tais preceitos devem ser responsabilizados por sua conduta com o coletivo. 

Entretanto, se quiser colaborar com aquele que insiste em enfrentar as figuras de autoridade, a escola também precisa ter tato. Ela tem de fazer um filtro diante das atitudes dos alunos e definir quais delas serão objeto de intervenção. Como dizem os guias de orientações norte-americanos que fornecem sugestões aos professores para lidar com o diagnóstico de TOD, não é possível ganhar todas as batalhas em uma guerra.

Esses manuais orientam os professores a desviar do aluno e não bater de frente, isto é, não valorizar o conflito criado por ele. A dica é, quando possível, ignorar o comportamento provocativo e oferecer uma nova oportunidade para o estudante ter uma projeção positiva no grupo. Outra orientação é valorizar as boas atitudes de quem costuma transgredir. Assim, ele se dá conta de que pode assumir outros papéis e que não precisa ficar aprisionado no lugar de criança-problema. Para alcançar esse objetivo, professores, orientadores e gestores precisam se aproximar desse aluno, conhecê-lo melhor, descobrir suas competências e seus centros de interesse, além de criar oportunidades para um relacionamento positivo dele com o conhecimento. Não há remédio que substitua uma convivência frutífera e solidária.


Foto: Tamires Kopp

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