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Por: Raissa Pascoal

Fazer parcerias sem critério

A atuação com outras instituições é essencial desde que seja articulada ao planejamento pedagógico

E se uma instituição batesse à sua porta e oferecesse computadores com acesso à internet, dinheiro para reformas, materiais para inúmeras atividades, formação de professores e voluntários para dar aulas ou oficinas? A proposta soaria irrecusável, não é mesmo? Mas será que aceitá-la realmente melhoraria o processo de ensino e aprendizagem?

Cybele Amado, diretora do Instituto Chapada de Educação e Pesquisa (Icep), acredita que não há outra possibilidade de melhorar a Educação do país a não ser unindo escolas ao setor privado, ao terceiro setor e às organizações da sociedade civil. ?Toda parceria é bem-vinda, desde que se preze pela autonomia e a autoria dos educadores e se esforce para uma ação conjunta para atingir os objetivos preestabelecidos?, ressalva. ?Também deve estar claro para todos os envolvidos que não se trata de uma terceirização dos compromissos ou uma substituição do Estado. Cada um tem o seu papel e a cooperação tem de ser uma relação democrática, na qual todos sabem por que e para que estão fazendo algo.?

Portanto, não basta abrir as portas para todos aqueles que desejam, mesmo que eles sejam bem-intencionados. É importante, antes de tudo, estabelecer critérios, levando em consideração as reais necessidades da instituição. ?Numa escola que tem clareza do seu projeto político-pedagógico (PPP), já existe um norte para avaliar se determinada ação serve ou não para os seus objetivos. Em lugares em que há uma fragilidade para saber para onde caminhar, é mais difícil avaliar. Assim, aceita-se tudo o que é oferecido, sem pensar se o resultado será mesmo benéfico?, explica Tereza Perez, diretora da Comunidade Educativa Cedac. Além disso, a gestão precisa consultar o conselho escolar e a secretaria de Educação de que faz parte sobre a legislação e os limites para o estabelecimento de algum tipo de parceria. Em todos os casos, também deve-se monitorar os resultados, compartilhá-los com a comunidade e avaliar a continuidade da ação.

Cuidados para uma aliança de sucesso

Há duas formas de estabelecer parcerias. Uma é por iniciativa da própria escola e outra é aceitar uma proposta que partiu de fora. No primeiro caso, é interessante que o gestor procure por ajuda na própria rede, em instituições vizinhas que passaram pelos mesmos problemas, ou em empresas, ONGs e fundações que já tenham boas experiências na área de Educação. ?É indispensável pesquisar sobre o histórico da organização com a qual vai ser firmado um acordo e verificar se ela está disposta a dialogar sobre as ações?, explica Tereza.

No segundo caso, quando a sugestão parte de um agente externo, o diretor precisa redobrar os cuidados. Projetos de organizações que têm um modelo de atuação muito impositivo devem ser rejeitados. ?Quando parcerias desse tipo são feitas, muitos professores ficam ressentidos, pois não podem participar ativamente de todo o processo. É essencial que eles sejam envolvidos como colaboradores?, diz Cybele.

No caso da EMEF José Bonifácio, em Novo Hamburgo, a 43 quilômetros de Porto Alegre, o maior problema era a falta de espaço para atender os alunos que participavam das oficinas do programa Mais Educação no contraturno. ?Ao perceber isso, fizemos uma análise do entorno e identificamos lugares que poderiam abrigar as atividades. Escrevemos um projeto e apresentamos os nossos objetivos para os administradores dessas áreas. Nossa intenção era não precisar pagar o aluguel?, explica Maíra Bisol, coordenadora do Mais Educação na instituição. O primeiro parceiro foi uma escola de futebol de salão. ?Depois que ela aderiu, foi mais fácil outros locais concordarem. Hoje, a comunidade já sabe da movimentação das crianças pelos espaços à tarde?, diz.

A verba do programa federal colabora com a compra de instrumentos musicais, no caso das aulas de percussão feitas numa escola de samba, e das boias que são usadas nas piscinas do Sindicato do Comércio de Novo Hamburgo, onde as crianças fazem natação. ?Os objetos são propriedade da escola, mas ficam nos locais onde as atividades acontecem?, conta Maíra. A coordenadora atua ativamente no planejamento das ações, compartilhando com os educadores as especificidades de cada aluno.

Do outro lado do país, no município de Ibitiara, a 536 quilômetros de Salvador, a iniciativa partiu de um agente externo. Em 2001, o Icep, que atua na região, deu início a conversas com a rede municipal sobre a importância da formação continuada. Com base nos encontros realizados, criou-se o cargo de coordenador pedagógico, que não existia no município. Maria Lúcia Alves Santos, atualmente supervisora técnica pedagógica de Ibitiara, foi uma das profissionais que assumiu o cargo. ?No início, éramos sete coordenadores para 57 escolas. À medida que fomos compreendendo o papel desse profissional, passamos a solicitar mais pessoas para a secretaria.?

A parceria também rendeu reuniões com a equipe técnica da rede e com os diretores, atentando para a importância da reflexão sobre a prática. ?Fomos entendendo que a formação continuada precisa acontecer não só com o professor mas com todos que estão em cargos de gestão, inclusive na secretaria?, diz Maria Lúcia. Segundo ela, a cooperação entre o município e o Icep transformou o processo de ensino, pois fez com que os profissionais da rede se apropriassem dos conhecimentos abordados pelos especialistas do instituto e os disseminassem.

Depois que parceiras como essas estão estabelecidas, a equipe gestora não pode agir passivamente. ?Todos precisam discutir sobre o que se propõe, se colocar no lugar de profissionais que refletem e absorver o conhecimento que foi trazido pelos apoiadores?, explica Cybele. Tereza, do Cedac, concorda. ?Os educadores têm de ter clareza de que o investimento é temporário e que será necessário ter autonomia para lidar com essas questões depois de determinado período?, diz. ?A transformação é um compromisso dos dois lados, tanto do parceiro quanto da escola, e o principal ganho a alcançar é a melhoria da aprendizagem dos alunos?, complementa.


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Ilustração: Raphael Salimena

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