Matéria de capa | Planejamento | Matéria de capa

Falta (quase) sem prejuízo

Para que a ausência dos professores não atrapalhe a aprendizagem, é preciso uma boa gestão de pessoas e muita preparação

POR:
Larissa Teixeira e Rosi Rico

Os alunos chegam e se dirigem para as salas de aula. Alguns minutos depois, entram os docentes, mas de uma das classes ainda se ouve as vozes das crianças, que intensificam o barulho. O professor responsável pela turma faltou e não avisou a equipe gestora. E, agora, o que o diretor e o coordenador devem fazer?

Essa é uma situação comum nas escolas do país. São várias as razões. Ao lado da saúde ? muitos são afetados por doenças relacionadas ao uso da voz e ao estresse mental e físico ?, as questões familiares também estão entre os principais motivos alegados para não comparecer. No estudo As Faltas de Professores e a Organização de Escolas na Rede Municipal de São Paulo, desenvolvido em 2009, a pesquisadora Silmar dos Santos, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), constatou que as ausências ocorrem principalmente pelas más condições de trabalho. ?O número de docentes que acumulam cargos em instituições diferentes é grande, porque eles ganham baixos salários e precisam complementar a renda?, afirma. Além do aspecto financeiro, a desvalorização da carreira também contribui para a precarização dessa atividade e, consequentemente, para as faltas. A modificação do cenário da profissão extrapola as atribuições dos gestores, pois depende de mudanças em políticas públicas. Mas há muito a ser feito dentro da escola.

Além daquelas em que há desconto do salário, o professor concursado tem direito a uma quantidade predefinida de faltas abonadas no ano, que podem ser concedidas pelo gestor. Apesar dessa permissão, não existe uma legislação específica que garanta a figura do substituto, o que pode causar transtornos para diretores, coordenadores e estudantes. "Mesmo não sendo obrigatório, as redes deveriam contratar docentes a mais porque sabem que será preciso. É uma questão de planejamento", afirma Juca Gil, da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Segundo ele, também não há uma regra nacional que estabeleça se os substitutos devem ser concursados ou não. A lei só fala da formação: Pedagogia para anos iniciais do Ensino Fundamental; nível superior e licenciatura para anos finais do Fundamental e Ensino Médio.

De qualquer maneira, os gestores precisam buscar alternativas para que a aprendizagem dos alunos não seja prejudicada pelas ausências, previstas ou não. Esse esforço passa por dois pontos importantes: gestão de pessoas e planejamento. O primeiro inclui a conscientização dos professores sobre os problemas causados pelo absenteísmo e o envolvimento deles no respeito a combinados como o aviso sobre o dia em que estará fora e a busca de soluções para essa data. ?O gestor que constrói uma equipe unida e colaborativa cria comprometimento e consegue que todos se corresponsabilizem de alguma maneira por essa questão. Ou seja, faz com que todos queiram garantir a continuidade do trabalho pedagógico?, diz Roberta Panico, diretora de Desenvolvimento Educacional da Comunidade Educativa Cedac.

HARMONIA Substitutos e docentes regulares participam das reuniões de formação em escola de São Paulo

A segunda frente, de planejamento, visa que a gestão não seja pega de surpresa pelas ausências e envolve práticas como a preparação prévia de aulas e bancos de atividades. Nas redes em que é possível contratar docentes substitutos (chamados de eventuais, volantes ou de módulo em algumas regiões), coordenar o trabalho desses profissionais também exige uma boa programação. ?Quando a escola adota um esquema especial para essas situações, fica mais fácil lidar com as faltas?, afirma Lucelia Brant, analista educacional na Secretaria de Educação de Janaúba, a 540 quilômetros de Belo Horizonte.

Integrar os substitutos à rotina

Na EMEI Santos Dumont, em São Paulo, a diretora Débora Beritele Lisboa conta com o apoio de seis professores de módulo, três por período, para dar aula quando um dos docentes regulares das nove salas de período integral (com 275 crianças entre 4 e 6 anos) está ausente. Dos seis substitutos, cinco são efetivos e um é contratado em caráter emergencial. ?Existe, no quadro da secretaria de Educação, uma previsão de educadores para essa situação. Cada gestor tem uma quantia disponível de acordo com o número de salas da escola?, explica.

Quando não estão no lugar de alguém, os educadores ficam nas salas, cada vez como auxiliar de um professor regular. ?Eles acompanham as atividades ou ajudam as crianças com necessidades educacionais especiais (NEE)?, conta Débora. O grupo também participa das reuniões pedagógicas, das formações e dos eventos. ?Sempre foi nosso encaminhamento envolvê-los em tudo, também por orientação da secretaria. Afinal, estando em regência ou em módulo, ele é professor da unidade?, explica. ?Essa política garante que eles conheçam as classes e o que está sendo trabalhado, e facilita na hora da substituição.?

A preocupação em constituir uma equipe integrada se estende aos demais docentes, o que permite estabelecer acordos e garantir que eles serão cumpridos. O combinado na EMEI Santos Dumont é de que os professores avisem antecipadamente as faltas, para que se tenha tempo de organizar a substituição, amenizando o prejuízo aos alunos. ?Trabalhamos juntos há muitos anos e conquistamos o comprometimento de todos com a aprendizagem das crianças?, diz Débora. Por causa dessa parceria, diz a diretora, quando ocorre uma ausência imprevista e não há substituto para entrar em sala, os professores regulares se oferecem para dobrar o turno. 
?Os gestores fazem diferença quando criam um ambiente em que o professor tem voz e se sente parte do grupo. Se isso ocorre, há uma conscientização sobre a falta e, assim, os combinados se concretizam em ações de solidariedade e de respeito à necessidade do outro naquele momento?, diz Eliana Chiavone Delchiaro, professora do curso de Pedagogia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e do Plano Nacional de Formação de Professores da Educação Básica (Parfor), e autora da tese Gestão Escolar e Absenteísmo Docente: Diversos Olhares e Diversas Práticas. A pesquisadora acrescenta que uma boa gestão de equipe inclui o respeito às singularidades e a oferta de boas condições de trabalho. 

Para as turmas de Ensino Fundamental e Médio também vale estabelecer combinados. ?Uma estratégia a ser usada é a adequação dos horários. Se um professor não pode vir em determinada data, outro que viria em dia diferente, mas tem disponibilidade para a troca, é convocado e o faltoso utiliza o horário que seria desse colega?, diz Lucelia. ?Assim, não é preciso contratar substituto, interromper aulas ou repor em dias não letivos.?

Criar um banco de atividades e mantê-lo atualizado

Na EE Joaquim Maurício de Azevedo, em Janaúba, a equipe gestora também tem um acordo para evitar as faltas imprevistas e, quando alguém não pode comparecer, avisa com antecedência. Seja em situações programadas ou quando não é possível prever a ausência, a escola está preparada para lidar com o problema: cada professor elabora um banco de atividades sobre o que está sendo desenvolvido em classe. O planejamento é feito nas reuniões pedagógicas em parceria com os coordenadores, o que possibilita maior qualidade do material e o acompanhamento do trabalho.

BACKUP Na escola de Janaúba, a equipe elabora um banco de atividades para lidar com os imprevistos

A rede municipal de Janaúba não oferece substitutos para os anos finais do Ensino Fundamental e do Ensino Médio, portanto, quem entra na sala para cobrir a ausência de um docente são os próprios coordenadores ou, em último caso, o diretor. Apesar de não ser a função dos gestores, isso garante que os estudantes não sejam afetados, uma vez que a equipe conhece os alunos e sabe o que está sendo desenvolvido em cada turma. ?Esses profissionais acompanham semanalmente os educadores na elaboração de seus planejamentos e possuem um arquivo mensal de cada disciplina, o que possibilita que deem sequência ao ensino?, afirma Lucelia.

Como a escola conta com 1.415 alunos, quatro coordenadores especializados nas áreas de exatas, humanas e biológicas estão disponíveis para a substituição, quando necessário. ?Nós temos a visão de que o estudante não pode ser prejudicado pela falta de um professor, e essa ideia foi muito bem aceita por todo o grupo?, explica o diretor Heleno Alves Teles.

 

 

Nas instituições em que a substituição é feita por outro docente, que, portanto, não acompanhou a preparação das atividades disponíveis no banco, o ideal é colocar instruções claras sobre em que contexto elas estão inseridas e quais são os objetivos (saiba mais sobre esse instrumento no vídeo abaixo). E as propostas devem ser adaptadas ao nível de ensino. Para as crianças, são várias as possibilidades. ?Há muitos recursos na Educação Infantil que podem ser previamente planejados, como o uso dos cantos diversificados e a contação de histórias?, diz Eliana, da PUC. No Ensino Fundamental e no Médio, o fato de os alunos terem autonomia pode ser utilizado para programar atividades durante as quais o docente não precisa estar o tempo todo presente, como sessões de filme seguidas de debates, programas de tutoria, em que o mais velho orienta o estudante mais novo, e a elaboração de projetos que envolvam várias turmas. ?Assim, quando a única opção for unir classes diferentes, elas podem desenvolver conteúdos em conjunto, como um jornal. A discussão sobre a pauta pode ser feita por todos e depois cada uma produz sua parte?, exemplifica Roberta, do Cedac. Para Eliana, misturar crianças e jovens em idades diferentes não é, necessariamente, uma desvantagem. ?Nessas ocasiões, dá para trabalhar solidariedade, inclusão e respeito ao próximo. Afinal, aprendizagem não é só conteúdo mas também valores?, completa. Claro que todas essas iniciativas precisam estar integradas ao planejamento do ano. Não adianta assistir a um filme desconectado do que vem sendo abordado em sala ou pensar em ações que apenas sirvam para preencher o tempo.

Registrar e deixar disponível o que é feito em sala

Com 1.200 alunos da Educação Infantil à Educação de Jovens e Adultos (EJA), a EMEF Olímpio Vianna Albrecht, em São Leopoldo, a 35 quilômetros de Porto Alegre, conta com três substitutos para os períodos da manhã e da tarde. À noite, com as classes de EJA, os professores especialistas são acionados para substituir nos dias em que não possuem aulas regulares. E, quando necessário, a bibliotecária, que é pedagoga, entra em sala.

Se ocorrem faltas imprevistas, a equipe utiliza planos de emergência, que funcionam da mesma maneira que o banco de atividades. ?São aulas que estão relacionadas aos conteúdos previstos para cada turma e que podem ser desenvolvidas em sala ou em espaços alternativos, como a biblioteca ou o laboratório de informática?, conta a diretora Joseane de Mello Breitenbach. Esses planos, que precisam ser repostos cada vez que um é utilizado, ficam guardados em pastas, divididas por disciplina e série e que podem ser acessadas pelos substitutos.

Para aquelas ausências avisadas com antecedência, o docente deixa preparada uma atividade mais específica para que o eventual dê continuidade ao que está sendo trabalhado naquele momento. Nos dois casos, tudo é avaliado e registrado, com a articulação do coordenador. ?O substituto deixa por escrito como foi a aula, se houve tempo suficiente para fazer o plano indicado, quais os resultados obtidos com os alunos etc.?, conta Joseane.

É importante que essa prática também seja adotada rotineiramente pelos professores regulares, que devem deixar acessíveis o planejamento, diagnósticos de turmas, relatórios e portfólios. Tudo isso ajuda a enfrentar os problemas causados pelo absenteísmo. ?O coordenador precisa acompanhar muito o cotidiano da sala, as anotações dos docentes e também o caderno das crianças. Afinal, é ele quem irá orientar o substituto sobre o que já foi feito?, afirma Roberta, do Cedac.

Utilizar o apoio da secretaria

Além dos recursos internos, o gestor pode verificar quais opções de ajuda externa estão disponíveis em sua rede. Na EMEF Décio Martins Costa, em Porto Alegre, quando um docente está se ausentando muito, o diretor Getúlio Renato da Silva Fagundes, se achar necessário, pode encaminhar o caso para o setor de Recursos Humanos da Secretaria Municipal de Educação, que mantém quatro psicólogos para atender educadores e investigar os motivos das ausências. Em casos mais graves, os docentes são direcionados para um acompanhamento funcional, com sessões marcadas semanalmente.

GESTÃO DE CRISE Em Porto Alegre, Fagundes conta com a secretaria para investigar os motivos das faltas

Fagundes conta que, desde que assumiu o cargo no ano passado, já encaminhou algumas pessoas para esse serviço e a iniciativa contribuiu para resolver os problemas. ?A primeira coisa que pensamos é que os funcionários são pessoas e que a falta envolve uma série de questões. Por isso, avaliamos a própria adaptação do professor ao modelo de gestão, de escola e de comunidade em que ele está inserido, e também a relação que ele tem com a equipe?, diz o diretor.

Para garantir uma boa gestão de crise em uma falta imprevista, por exemplo, a secretaria também oferece formações para que os diretores saibam como contornar a situação sem prejudicar a aprendizagem dos alunos. ?A equipe de apoio auxilia os gestores a pensar sobre as situações de falta e também oferece supervisão e orientação pedagógica?, explica Helena Teles Caetano, diretora de recursos humanos da secretaria.