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Cinco perguntas sobre a organização dos horários de formação

Como planejar a rotina e garantir que o trabalho pedagógico coletivo alcance toda a equipe

POR:
Ana Ligia Scachetti e Larissa Teixeira

A Lei do Piso determina que os docentes tenham 33% da jornada dedicados a momentos de estudo, planejamento e avaliação. Para assegurar que esses horários sejam utilizados adequadamente para a formação e a reflexão coletivas da equipe, o coordenador pedagógico precisa organizar a sua própria rotina para que possa se dedicar e preparar bem essas atividades em parceria com a direção e garantir a participação e o envolvimento de todos os professores. 

Embora a formação continuada dos docentes seja a principal função da coordenação pedagógica, no dia a dia das escolas cabem a ele outras atividades, como tarefas administrativas e o atendimento aos pais e aos alunos. Por essa razão, o tempo desse profissional precisa ser bem planejado e a parceria com o diretor é essencial para manter o foco no que é primordial. "Só há mudança de prática com reflexão. Por isso, o espaço de formação é tão importante para possibilitar a troca de experiências e o estudo", afirma Ana Cristina Gazotto, formadora do Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa (Pnaic). Pensando em colaborar com a superação dos desafios, reunimos abaixo cinco perguntas e respostas sobre a gestão do horário de trabalho pedagógico coletivo (HTPC). Confira.

1. Como garantir espaço para a formação na agenda do coordenador? 
"É importante ter uma rotina estabelecida com a direção e compartilhada com os docentes. Isso é uma maneira de implantar o plano de trabalho, otimizar o tempo e ganhar qualidade nas ações", explica Maria Virgínia Gastaldi, formadora do Instituto Avisa Lá e professora do Instituto Vera Cruz, ambos em São Paulo. Para colocar isso em prática, pode-se elaborar um cronograma semanal que concilie todas as atividades, dando prioridade às questões pedagógicas e reservando um período específico para o estudo e a preparação. "Entre todas as tarefas da semana, a primeira que o coordenador deve cumprir é a formação da equipe. Para isso, ele precisa estar preparado e fazer uma pauta detalhada para a reunião", destaca Maria Inês Miqueleto, Gestora Nota 10 em 2011. Rosana Scarpel da Silva, coordenadora pedagógica da EMEF Professora Ilga Pusplatais, em São José dos Campos, a 94 quilômetros de São Paulo, analisa e planeja o conteúdo das formações às segundas-feiras. Às terças e quintas, ocorrem os encontros com os professores. Além disso, ela organiza uma agenda semestral e anual contemplando seus compromissos e os temas essenciais que precisarão ser discutidos de acordo com a época do ano. 

2. Por que a parceria com a direção da escola é importante? 
Se o diretor não valoriza o espaço de formação e não garante que essa atividade seja priorizada, o coordenador não consegue dedicar seu tempo ao HTPC. Por isso, as pessoas que estão nessas funções necessitam ter um encontro semanal para discutir as questões da escola. "Quanto mais eles conversam e decidem juntos, mais a atuação de ambos se fortalece. É preciso estar claro para eles qual é o papel de cada um e onde esses papéis se articulam", explica Maria Virgínia. Além dessa parceria, o formador pode buscar ajuda de outros colegas e da secretaria, construindo uma cadeia de apoio ao seu trabalho. Na EMEB Professor Nelson Neves de Souza, em Mogi Mirim, a 160 quilômetros de São Paulo, a coordenadora Maria do Carmo Leme Lucon reserva o início da semana para planejar os encontros junto com a diretora e nesse momento elas fazem um diagnóstico das necessidades formativas da equipe. "A direção da escola é pedagógica e compartilha comigo a elaboração da pauta. Trocamos ideias e conversamos sobre as estratégias e os materiais que serão utilizados", conta. Após o HTPC, as duas se reúnem novamente para avaliar o que funcionou e o que precisa ser melhorado.

3. Qual o melhor horário para realizar o HTPC? 
Em muitas redes, a secretaria de Educação define o horário do HTPC. Ana Cristina Gazotto comenta que em Mogi Mirim, por exemplo, o encontro é realizado a cada 15 dias, às quartas-feiras, das 18 às 20 horas. Com isso, todos os profissionais já sabem e comparecem. Se não há uma determinação, o coordenador precisa conhecer o seu público para definir a melhor data. Na UEB Edivalda Bomfim, em Miranda do Norte, a 129 quilômetros de São Luís, a coordenadora Raimunda Maria Nunes Oliveira verifica a cada quinzena qual é o dia que terá mais pessoas presentes e disponíveis para participar e essa é a data escolhida. "É sempre uma conversa, e não uma imposição", conta. "Isso permite que alguém que não compareceu em uma quinzena possa ir na seguinte." Yara Mattioli, coordenadora pedagógica na EMEI Antonio Bento, em São Paulo, não consegue reunir todos os professores em um mesmo horário porque vários atuam em outras instituições. Por isso, procura marcar os encontros quando há o maior número de pessoas e cria pequenos grupos fixos com os demais para falar com todos ao longo da semana. 

4. Como assegurar a participação de professores que atuam em mais de uma escola? 
O coordenador pode fazer atendimentos individuais e conversar com eles sobre os temas abordados na formação coletiva, oferecendo também os referenciais utilizados. "Quando algum professor não pode participar, compartilho com ele a pauta da discussão e disponibilizo todo o material", explica Maria do Carmo. Em São José dos Campos, os docentes com conflitos de agenda têm a opção de comparecer a um encontro no período noturno, organizado pela Secretaria Municipal de Educação para todas as unidades da rede.

5. Que cuidados colaboram para que os docentes valorizem os encontros? 
Para evitar faltas e garantir o envolvimento de todos, o coordenador precisa assegurar que a formação seja bem elaborada, identificar o que cada educador já sabe e agir como um parceiro e não como alguém que fiscaliza. "Quanto mais o HTPC se fortalecer como um espaço de reflexão sobre a prática e de construção coletiva de conhecimento, mais os profissionais se engajarão nesse processo, porque haverá ganhos para eles", afirma Maria Virgínia. Quando assumiu a função, Raimunda sentia que havia muita rejeição às reuniões porque os docentes achavam que ela desejava investigá-los. "Fui mostrando que queria contribuir com o trabalho deles, e expliquei que eu represento um elo entre o ensinar (professor) e o aprender (aluno)", lembra. Antes de decidir os temas que serão abordados, ela faz uma pesquisa para identificar as maiores dificuldades da equipe e também dos estudantes, e prepara uma pauta com os objetivos e estratégias que serão contemplados. No final, todos fazem uma avaliação, tiram algumas conclusões e dão sugestões para os encontros seguintes.


Ilustração: Ariel Fajtlowicz

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