Reportagens | equipe | Reportagens

Funcionários da segurança e portaria também possuem função educadora

Vigias e porteiros têm uma posição estratégica no relacionamento com a comunidade

POR:
Ana Ligia Scachetti e Larissa Teixeira

ENVOLVIMENTO Vigia da EE Terezinha Carolino conhece a vizinhança e ajuda a melhorar o diálogo com ela. Foto: Ney Douglas

A Educação das crianças e dos jovens não é responsabilidade apenas de gestores e professores. Todos os funcionários, desde o pessoal da limpeza até secretários, técnicos e porteiros, são educadores e, portanto, precisam conhecer e se envolver com o projeto político-pedagógico (PPP). Quando a instituição reconhece e valoriza o papel de cada um na formação dos alunos, colabora para a melhoria das relações e garante que a missão dela seja cumprida em todos os momentos da jornada escolar. 

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) trata desse assunto em seu artigo 14 e indica que todos os profissionais da Educação devem participar da elaboração do PPP. Entre eles estão os vigias, porteiros e seguranças que cuidam da entrada e saída dos estudantes. "Deveríamos incluí-los nos espaços em que são discutidos os problemas e planejadas as ações. É preciso haver fóruns de decisão coletiva que contemplem toda a comunidade", aponta Alice Miriam Happ Botler, professora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). 

Mas esse envolvimento não é importante apenas porque está garantido na lei. Ele é essencial, já que esses funcionários possuem uma posição estratégica: além de cuidar do bem-estar de todos, conhecem os alunos e suas famílias e intermediam o contato com o entorno. Ao estar diariamente com as crianças, eles criam uma relação de proximidade e suas atitudes servem de modelo para os mais novos. Ainda, por presenciarem situações de conflito e ouvirem as demandas de pais, estudantes e docentes, podem identificar problemas e propor soluções.

O que tem acontecido em muitos locais é a terceirização dessa função, que fica a cargo de empresas privadas de segurança. Em redes públicas, também é comum a contratação de vigias por concursos que não exigem uma formação na área. Assim, eles ficam encarregados de cuidar do patrimônio físico, mas podem não ter preparação para lidar com os alunos e com o ambiente em que estão inseridos. "Quando isso acontece, o vínculo com os estudantes desaparece. As consequências dessa exclusão são prejudiciais para a instituição e para os funcionários: a escola não conhece direito o profissional que está tendo contato intenso com as crianças, e ele não compreende seu papel de educador", diz Madalena Guasco Peixoto, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). 

Na EE Terezinha Carolino, em Jaçanã, a 147 quilômetros de Natal, o vigia Julio César Porfirio Medeiros Silva conhece como ninguém a comunidade. Ex-aluno da instituição, onde cursou a Educação de Jovens e Adultos (EJA), Silva se ofereceu para atuar como voluntário e assim ficou por quase três anos. Quando o Estado optou por terceirizar a segurança, ele foi contratado e assumiu a função de porteiro, que antes não existia. 

"Pela proximidade que tem com a vizinhança, ele facilita o diálogo. Esse relacionamento melhorou muito após a chegada dele", conta o coordenador pedagógico José Zito de Lima. "Na reunião pedagógica, ele tem um perfil de articulador: traz as queixas que não chegam para a direção e as contribuições das famílias." Silva conta que procura escutar o que os professores dizem nos encontros e dar sugestões. "Também vou na reunião de pais e participo do caixa escolar", afirma. "No portão, às vezes os alunos falam que não querem assistir aula. Eu converso e digo que o futuro deles é importante."

Relações aprimoradas

 

EX-ESTUDANTE  Silva cursou a EJA, se tornou voluntário e depois foi contratado para a função de porteiro. Foto: Ney Douglas

Entender que os vigias e porteiros fazem parte da Educação é apenas o início do processo. Ouvir os comentários deles é importante, mas essa ação deve estar acompanhada de uma orientação contínua. A esse respeito, o Ministério da Educação (MEC) criou um programa de formação dos profissionais das redes públicas da Educação Básica, o Profuncionário. Nele, são oferecidos cursos de nível técnico nas áreas de secretaria, alimentação, infraestrutura, multimeios, biblioteconomia e orientação comunitária. A demanda deve ser apresentada pelas secretarias estaduais. 

A gestão também pode promover encontros para discutir a formação desses profissionais e rever o que se refere a eles em documentos como o regimento e o PPP. Essa organização sinaliza o lugar que eles ocupam na instituição não como prestadores de serviço, e sim como pessoas que precisam saber as maneiras mais adequadas para se relacionar com as crianças. "Os vigias devem participar de reuniões regulares e do conselho escolar e os gestores precisam pontuar a relevância do papel deles", explica Alice. A EE Romeu de Moraes, em São Paulo, age dessa maneira. O agente de organização escolar Vladimir Parola atua como porteiro e também ajuda na manutenção do prédio. Nos encontros, ele leva informações sobre o cotidiano da instituição, especialmente sobre o que ocorre no pátio e no refeitório e contribui com sugestões. Além disso, ele tem uma relação próxima com os estudantes e até já colaborou com algumas aulas de Ciências, pois fez um curso nessa área e é criador de cobras. 

Uma escola que tem um vigia atuante e consciente, além de ter segurança, está mais sintonizada com os seus problemas e suas potencialidades. "É necessário olhar a Educação de uma maneira mais ampla, que não compreende apenas o processo em sala de aula, mas todas as formas de aprendizagem que acontecem no contexto das relações interpessoais entre alunos, professores e funcionários", diz Luciene Tognetta, do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Para ela, a instituição precisa humanizar essa convivência e transformar todos os que permeiam seu ambiente em educadores de fato.