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Faltam para:   

Ser autônomo é vencer resistências e transformar-se

Contraponto

POR:
Lino de Macedo
Lino de Macedo. Foto: Paulo Vitale

Lino de Macedo
Professor aposentado
do Instituto de Psicologia
da Universidade de
São Paulo (USP)

Educar para a autonomia parece ser um ideal defendido e buscado nos dias atuais. Quem é autônomo é livre, capaz e competente para realizar alguma atividade. Costumamos dizer que uma criança ganha autonomia quando consegue cumprir certas tarefas sem a ajuda dos adultos. Talvez por isso, uma palavra de imediato relacionada ao conceito seja independência. Contudo, a ideia de independência expressa apenas um dos lados da questão. O outro se refere à necessidade de pertencer, de saber conviver e compartilhar. Assim, a pessoa autônoma é livre por ser capaz de agir por si mesma e, ao mesmo tempo, responsável porque age como parte de um grupo.

Por exemplo, uma criança que não sabe ler depende da mãe, da professora ou de outro adulto letrado para ter contato com o conteúdo dos livros ou de qualquer material escrito. Na medida em que ela se alfabetiza, adquire conhecimentos suficientes para ler histórias e fica independente de um leitor externo. Agora ela já pode ler sozinha, sem intermediários entre ela e o texto. Mas qual é o preço dessa aprendizagem? É o de a criança se tornar leitora e, assim, fazer parte da classe daqueles que sabem ler e que aceitaram ser influenciados por esse objeto tão precioso chamado livro e por essa ação, tão transformadora, chamada leitura.

Ser autônomo se torna possível por um jogo de interdependências, ou interacionismo, segundo Piaget. De um lado, existem aspectos externos ao sujeito: o ambiente, as pessoas, o livro. De outro, aspectos internos, como as ferramentas que o habilitam: os conhecimentos prévios, as condições orgânicas. Um terceiro ponto é o comportamento: aquilo que o indivíduo realiza ou pensa e que ninguém pode fazer por ele. Vale dizer que cada pessoa reage de forma diferente a um mesmo objeto ou situação. Em inglês, existe o termo self government (autogoverno), que indica que não basta o estímulo, e sim o que o sujeito faz ou compreende em função do estímulo. Por isso a interação é um elemento tão primordial para a construção da autonomia.

Na vida contemporânea, quem não quer ser livre ou independente? Quem não quer compartilhar, fazer parte de algo que julga significativo para si e para os outros? Um dos problemas para alcançar essas realizações é justamente o de enfrentar e superar dois obstáculos internos muito desafiadores. Um deles é o modo como interagimos com as coisas e como expressamos as nossas reações emocionais ou afetivas. Entre elas figura o medo da mudança. O outro refere-se à necessidade de aperfeiçoamento, ao compromisso de aprender algo que nos capacita a ser incluído no grupo daqueles que já sabem.

É, na prática, tornar-se outro, superando todo o tipo de reações negativas e resistências. E também tornar-se como o outro, aprendendo habilidades e conhecimentos. Um sujeito duplamente passivo - por estar subordinado a padrões de medo ou raiva, e de ignorância ou desatenção - dá lugar a um sujeito ativo e responsável por suas ações e independente, sem deixar de ser interdependente. Dizendo assim, parece uma tarefa quase impossível, mas é esse impossível que hoje embala os sonhos de um século que necessita de pessoas que sejam ao mesmo tempo livres e solidárias, ou seja, autônomas.

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