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Pedaço do mundo

As experiências vividas dentro e fora de um determinado espaço estão fortemente conectadas e se enriquecem mutuamente

POR:
NOVA ESCOLA
Terezinha Azerêdo Rios,

Terezinha Azerêdo Rios,
é graduada em Filosofia e doutora em Educação.

Muitas vezes, ouvimos as pessoas fazerem referência à realidade lá fora quando falam do espaço exterior à casa, a escola ou a igreja que frequentam. É como se o mundo aqui dentro não se conectasse com esse lá fora. Ou como se, pelo menos, fossem locais muito diferentes, nos quais a vida se desenvolve de modo peculiar, a salvo, de certo modo, das ameaças e desafios que se encontram do outro lado. Aqui dentro, onde vivemos mais próximos uns dos outros, as pessoas são conhecidas, as rotinas são familiares e mesmo as dificuldades parecem previstas e superáveis. Por isso, há um susto quando esses ambientes parecem ser invadidos pelo que acontece além de seus limites. E há até aqueles que julgam que se deve instalar uma proteção no sentido de resguardar a tranquilidade garantida pelo costumeiro, pelo conhecido. 

Entretanto, não é assim que se desenvolve a vida social. O que ocorre é uma inter-relação constante dos espaços em que vivemos. É verdade que, em cada um deles, as experiências são específicas, mas todas elas se encontram estreitamente articuladas. O envolvimento com as atividades desenvolvidas na escola, por exemplo, tem significado semelhante à participação numa manifestação para reivindicar algo ou fazer um protesto. O que se passa em um local ressoa no outro e vice- versa - é esse o movimento da convivência.

Os princípios da ética nos impulsionam a não buscar uma vida qualquer, mas uma que seja boa e plena. E ela só será assim de fato se a convivência for respeitosa.

"Como viver sem conviver?", indaga Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) em um de seus poemas. Vida é convivência. Mas que vida? Que convivência? Os princípios da ética nos impulsionam a não buscar uma vida qualquer, mas uma que seja boa e plena. E ela só será assim de fato se a convivência for respeitosa. Isso implica o reconhecimento da diferença e da diversidade. Até para discordar de pontos de vista distintos dos nossos, temos de admitir que essas visões existem e que as pessoas não têm todas uma única concepção sobre a realidade. E que é na busca do bem comum que se vislumbra a possibilidade de diálogo. 

A escola mais rica é aquela que traz o mundo para seu interior e que, ao mesmo tempo, nos lança para esse universo, quando socializa as ideias e os valores. Li, certa vez, uma definição expressa por uma criança: "O mundo é aqui lá fora onde estão todas as coisas". "Verdade maior", como diria Guimarães Rosa (1908-1967). O mundo está dentro de cada instituição e indivíduo. E esse universo pode ser grande ou pequeno, em virtude do conhecimento que se tem dele, da possibilidade de criá-lo ou de nele intervir. A escola é parte do mundo, "aqui lá fora". Se nos esforçarmos para dar a ele uma feição respeitosa, justa e democrática, estaremos construindo uma história pela qual vale empenhar a vida.

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