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"Para quem mora num contexto isolado, a escola é um espaço de encontro"

Pesquisadora defende que não há oposição entre rural e urbano, e sim um planejamento que compreende e valoriza as especificidades do meio

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Jaqueline Pasuch ,

Jaqueline Pasuch ,
professora da pós-graduação em Educação da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), em Sinop, a 480 quilômetros de Cuiabá

Jaqueline Pasuch, professora da pós-graduação em Educação da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), em Sinop, a 480 quilômetros de Cuiabá, especializou-se no estudo da Educação Infantil do campo, área que prega a necessidade de respeitar as peculiaridades de cada tipo de vivência não urbana existente. Estão incluídos lavradores, indígenas, quilombolas, povos da floresta, caiçaras, ribeirinhos, moradores de acampamentos sem-terra e outros grupos que têm um universo cultural próprio e um modo de vida específico. 

Coautora do livro Educação Infantil do Campo (Ana Paula Soares da Silva, Jaqueline Pasuch e Juliana Bezzon da Silva, 272 págs., Ed. Cortez, telefone 11/3873-7111, 48 reais), ela participou, a convite do Ministério da Educação (MEC), da elaboração da Política Nacional da Educação Infantil do Campo, que estabeleceu diretrizes para o desenvolvimento desse tema no país. O processo, realizado entre 2010 e 2012, incluiu audiências públicas nas cinco regiões e uma grande pesquisa sobre iniciativas bem-sucedidas que poderiam servir de modelo. As reflexões resultantes de tamanho mergulho no assunto compõem a entrevista que você confere a seguir. "O objetivo de tudo isso é assegurar a todas as crianças brasileiras o acesso à Educação de qualidade, algo que é muito desigual quando comparamos regiões e poder aquisitivo", diz Jaqueline.

 

Quais as diferenças entre a Educação Infantil do campo e a urbana?

JAQUELINE PASUCH A questão não é a oposição entre rural e urbano, e sim o valor que deve ser dado ao processo de identificação da criança. O princípio da Educação Infantil deve ser o respeito à centralidade dela. A compreensão de que cada uma vive uma realidade relacionada ao universo em torno dela, circunstância que a leva a se identificar com determinado modo de ser, de se relacionar com o seu espaço, com a natureza e os meios social e cultural. Compreender e valorizar essas especificidades são necessidades para as quais os educadores precisam estar atentos. Uma criança acampada participa de uma luta que outras não participam, uma da floresta tem um jeito de subir numa árvore que outras não têm, uma caiçara tem uma relação com o mar diferente da das outras.

 

Ter acesso à Educação Infantil de qualidade significa autonomia para as mulheres e isso influencia muito a vida familiar.

 

Qual a percepção das famílias nessas regiões sobre essa etapa de ensino? 

As comunidades querem e participam muito dessas discussões quando têm oportunidade. Mesmo porque ter acesso à Educação Infantil de qualidade significa autonomia para as mulheres e isso influencia muito a vida familiar, em vários aspectos. Nossa pesquisa mostrou que mais de 70% das mães colocariam seus bebês com menos de 1 ano na creche, desde que fosse um estabelecimento próximo, que não exigisse transporte escolar, e que a professora fosse alguém da comunidade. Essas mães têm a perspectiva de um lugar que não seja apenas de guarda, e sim um local para se viver experiências de aprendizagem e de valorização da cultura delas.

 

O que a escola pode fazer para identificar, conhecer e valorizar esses diferentes modos de vida?
Precisa se colocar em diálogo real com as famílias e conhecer como a infância é vivida quando a criança não está na escola. E, com base nisso, pensar em como ampliar esse universo cultural e ao mesmo tempo garantir o direito ao conhecimento. Falando de maneira prática, a equipe gestora pode promover reuniões e eventos com a comunidade e conversar com os responsáveis. No momento da matrícula, por exemplo, fazer uma entrevista ampla sobre o modo de vida, as preferências e as expectativas, levantar questões específicas daquele contexto. Porque é por meio dessa leitura da realidade que será feito o planejamento pedagógico e a orientação dos professores. As secretarias municipais de Educação também são importantíssimas nesse processo. Devem entender que não se trata de simplesmente aplicar um currículo pensado para a menina e o menino do meio urbano. Quando se coloca a centralidade como prioridade, é preciso pensar e desenvolver atividades que levem em conta esses diferentes contextos.

 

Como conciliar a abordagem de temas pertinentes à realidade e à cultura locais com a necessidade de uma vivência mais global? 
Em primeiro lugar, é preciso perceber que cada caso é específico. Para quem mora num contexto isolado - um igarapé no Acre, por exemplo -, a escola é um espaço em que antes de tudo se promove o encontro com outros alunos. Conhecemos uma família que mandava o menino de táxi para a escola, o inglês, tudo na cidade, pensando em prepará-lo para o futuro, porque a vida na fazenda em que morava parecia sem perspectivas. Mas o que ele mais sentia falta era de conviver com outras crianças parecidas. Isso mostra que as expectativas não devem ser confundidas com simplesmente levar à cidade. O processo se dá muito mais no sentido de consolidar e ampliar os conhecimentos que ele já tem, para depois mostrar outras coisas. A internet, por exemplo, é fundamental se for bem trabalhada. A escola que não explora isso está fora do mundo. Os pequenos têm o direito de conhecer outras realidades para, no tempo certo, fazer escolhas.

 

Os pequenos têm o direito de conhecer outras realidades para, no tempo certo, fazer escolhas.

 

Uma das metas do Plano Nacional de Educação (PNE) é universalizar, até 2016, o acesso à pré-escola para as crianças de 4 a 5 anos e ampliar a oferta em creches para atender, no mínimo, 50% daquelas até 3 anos. Como as escolas do campo estão em relação a isso?
Estão precisando ser construídas urgentemente. E a gente espera que o modelo siga o que está pontuado na Política Nacional de Educação Infantil do Campo, com um padrão que inclui horta e área de lazer adaptada à realidade local, além do princípio da proximidade em relação ao lugar em que as famílias residem. O principal desafio dos gestores municipais é como fazer esse atendimento com base em uma leitura que considere as questões aqui levantadas. 


Que tipo de formação os professores e gestores podem buscar, hoje, para atuar na Educação Infantil no campo?
São iniciativas ainda muito tímidas, mesmo porque a afirmação da Educação Infantil como área de pesquisa é recente, e mais ainda a do campo. Mas já há cursos à disposição na Plataforma Freire, além de experiências como uma iniciativa conjunta da Universidade de São Paulo (USP), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (Unesp). Esperamos que daqui para a frente tenhamos mais editais nesse sentido. O que não abrimos mão é a formação em Pedagogia dos professores que atuam no campo. Mas é claro que algo específico é importante, e será cada vez mais. Isso implica também uma mudança geral de mentalidade, porque por muito tempo o trabalho nessas regiões foi visto como aquele reservado aos últimos colocados na seleção ou mesmo como penalidade de natureza política.

 

A senhora costuma usar a forma "Educação Infantil do/no campo", o que ressalta a convivência de duas dimensões nessa definição. Por que fazer essa ressalva? 
É conceitual. "Do campo" trata da organização vinculada ao modo de vida da criança em seu território, local onde se relaciona com o mundo de forma específica. "No campo" é por causa da necessidade de garantir que ela tenha acesso à Educação de qualidade em um lugar que seja o mais próximo possível de sua residência. 

 

Muitas crianças do campo contribuem desde cedo para o ganha-pão da família. Os educadores devem estar atentos à questão do trabalho infantil? 
Sem dúvida. Há um limite frágil. Nós, educadores, devemos ser também protetores dos direitos constitucionais da criança. Uma coisa é arrumar a mesa ou carregar um balde com água para ter a sensação de estar participando da atividade familiar. Mas ela não pode, em hipótese alguma, substituir um adulto na expectativa de que seu trabalho contribua para a obtenção de renda, nem por 10 minutos. Precisamos estar atentos a essas situações e, em caso de dúvida, denunciar ao Ministério do Trabalho. 

 

Há muita discussão a respeito da nucleação. Como esse modelo afeta os pequenos?
Talvez o processo de nucleação tenha sido necessário em alguns momentos, por causa dos recursos financeiros insuficientes, mas isso tomou uma proporção exagerada. No ano passado, várias instituições foram fechadas sem a discussão de alternativas. Para cortar custos, muitas prefeituras resolveram simplesmente estabelecer um sistema de transporte, quase sempre precário, e levar as crianças para as escolas urbanas, como se isso resolvesse. Ao contrário, isso traz uma série de problemas, como a morte da vida no campo, pois muitas famílias decidem seguir o filho e partir para a cidade. Para o menino e a menina isso representa a negação de sua cultura.


Foto: Vanessa Karla

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