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Crise como oportunidade para tratar de cidadania

Os estudantes precisam refletir sobre problemas como a escassez de água e de energia e a solução para eles

POR:
NOVA ESCOLA
Catarina Iavelberg,

Catarina Iavelberg,
assessora psicoeducacional especializada em Psicologia da Educação

A falta de uma Educação que possibilite a tomada de consciência e o exercício de direitos e obrigações cívicas produz cidadãos alienados ou que se comportam em desacordo com princípios morais e éticos. Algumas escolas se omitem da função de formar alunos críticos, reflexivos, cooperativos e propositivos. Resultado: em momentos de crise (econômica, política, social), a sociedade civil tem dificuldade de se mobilizar em prol do bem comum. 

Atualmente, algumas regiões do Brasil enfrentam simultaneamente duas crises, a de abastecimento de água e a de energia. A dimensão delas poderia ser diferente se a sociedade conhecesse e exercesse melhor os seus direitos e deveres, pressionasse regularmente os poderes público e privado e cobrasse ações eficazes das agências reguladoras. 

Diante desse quadro, presenciamos escolas desnorteadas, agindo sem refletir, simplesmente transmitindo aos alunos as ações (individuais) necessárias para promover a economia desses recursos. O cenário lembra a atuação de bombeiros apagando focos de incêndios. O que, diga-se de passagem, é injusto com a categoria, pois a maior parte do trabalho deles é de prevenção.

A formação para a cidadania pressupõe ações educacionais que possibilitem a construção do conhecimento e a atuação nas relações de interdependência entre diversos fatores.

Infelizmente, atuamos apenas quando uma situação já está instaurada. Não agimos preventivamente, não temos o hábito de utilizar as informações que dispomos para mudar um potencial cenário indesejado. Nossa ação social é, na maioria das vezes, uma reação... Enfim, não deveríamos esperar estar diante de uma crise para começarmos a agir. Isso não significa que, no contexto em que vivemos, não devemos promover iniciativas que visam a economia de água e de energia. Porém, isso só não basta. É importante que os alunos conheçam progressivamente, de acordo com a faixa etária, a complexidade dos problemas (sua conjuntura) e o conjunto das ações (individuais, sociais, institucionais e governamentais) que podem promover a solução deles. Nesse sentido, dizer ao estudante que a crise hídrica é causada pela ausência de chuvas e que o remédio é diminuir o uso de água é reducionista. Esse tipo de abordagem simplista não permite que ele compreenda tudo o que está envolvido. 

Os fatores ligados a questões sociais complexas e dinâmicas nem sempre estão presentes nos livros didáticos. Por isso, é fundamental que o professor utilize outras fontes de informação - sites, blogs, plataformas de divulgação de pesquisas científicas, jornais e revistas - para pesquisar os argumentos de especialistas e o posicionamento das autoridades. Esse conteúdo pode auxiliar na formulação de perguntas, muitas vezes, mais importantes que o esforço de procurar soluções superficiais. Pensando na situação de São Paulo, poderiam ser levantadas questões como: Quais são os órgãos responsáveis pela captação, tratamento e distribuição da água? Como eles atuam? Qual a relação entre a falta de manutenção das tubulações e a crise de abastecimento? A despoluição dos rios Pinheiros e Tietê alteraria esse cenário? Como estratégias de irrigação agrícola e alterações nas linhas de produção na indústria poderiam racionalizar o uso dos recursos naturais? Como é possível conscientizar a população da necessidade de preservá-los?

A formação para a cidadania pressupõe ações educacionais que possibilitem a construção do conhecimento e atuação nas relações de interdependências entre diversos fatores (econômicos, políticos, ambientais, culturais etc.). Ela não será construída de maneira isolada. Precisa ser planejada em longo prazo, com intenções didáticas e objetivos de aprendizagem claros. As atuais crises nos possibilitam rever nossa prática formativa e contribuir com a atuação dos jovens na sociedade. 


Foto: Tamires Kopp

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