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Faltam para:   

Se a turma toda vai mal, parte da culpa é do docente

Entre Colegas

POR:
Felipe Bandoni
Felipe Bandoni. Foto: Ramón Vasconcelos

Felipe Bandoni
Professor de Ciências na Educação de Jovens e Adultos (EJA) do Colégio Santa Cruz, em São Paulo

Quando eu ainda estava cursando licenciatura na faculdade e era estagiário em uma escola, ouvi um professor comentar com alguns colegas sobre como os estudantes de uma de suas turmas haviam ido mal nas provas recém-corrigidas por ele. A maior nota obtida foi 3, sendo que a avaliação valia de zero a 10. De acordo com o docente, os alunos "não sabiam nada". Ao observar essa conversa, percebi um tom de orgulho e satisfação na fala dele, como se esse péssimo resultado funcionasse como uma espécie de vingança contra a classe.

Acredito que todos nós já tenhamos vivenciado algo semelhante, seja como educadores, seja como alunos. Pensando nessa situação, agora que tenho alguma experiência em sala, não pude deixar de me perguntar: "Como é possível uma turma inteira apresentar desempenho insuficiente?", "Será que a responsabilidade é só dos alunos?".

Para aquele professor, o mau resultado dos estudantes era fruto da incapacidade deles próprios - classificados pelo docente como fracos - em aprender, consequência tanto do sistema, que permitiu a aprovação deles em anos anteriores sem que dominassem conhecimentos básicos, quanto da falta de interesse e da indisciplina dos alunos, que "não queriam saber da escola".

As avaliações, no entanto, não revelam a performance somente da classes. Ao tirar o foco deles, é possível levantar várias hipóteses sobre a atuação do educador em sala: ele não soube ensinar os conteúdos de maneira adequada; o nível com que abordou os assuntos foi incompatível com os saberes dos estudantes; o tipo de aula escolhida não funcionou para aquela turma, entre outros diversos possíveis motivos.

Qualquer que seja a razão do insucesso, notar isso apenas na prova - que, em geral, ocorre no final dos bimestres - revela falta de sensibilidade por parte do professor em observar que os estudantes não estavam acompanhando as aulas.

Além disso, a explicação para as notas ruins pode nem estar no aprendizado dos alunos, mas na avaliação malfeita. Já aconteceu de eu reler uma prova no momento em que ela estava sendo aplicada e perceber que as questões poderiam ter sido melhor formuladas. Porém, muitas vezes, quem evidencia esses problemas de consigna são os próprios estudantes, com dúvidas que revelam interpretações não previstas durante a elaboração do material. Dessa forma, parte dos erros da turma pode ser atribuída a isso.

É importante buscarmos as causas de um péssimo resultado, mas é também preciso pensar nos encaminhamentos para resolver a situação. O que fazer depois de uma prova como essa? Como reverter esse cenário?

No exemplo descrito aqui, lembro que o docente afirmou não estar preocupado com o fracasso dos alunos, pois "a matéria tinha sido dada", assim, ele seguiria com os outros conteúdos. Essa postura deixa entrever uma profunda falta de responsabilidade com a aprendizagem dos estudantes. Dar continuidade ao planejamento somente para "cumprir tabela" não faz sentido se os alunos não aprenderam - como indicam as notas baixas. Pior ainda é conceber a prova como um instrumento de punição.

Caso o aprendizado não tenha sido alcançado, o professor tem a obrigação de revisitar o assunto trabalhado de outras maneiras, já que a primeira não foi eficaz. É como se toda a sala estivesse num processo de recuperação.

A avaliação deve ser um instrumento para analisar o percurso intelectual que foi traçado, tomar consciência dos conhecimentos desenvolvidos e refletir sobre o que pode ser feito, dali para diante, para que os alunos aprendam mais.

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