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Por: Raissa Pascoal

Portas abertas para o mundo da leitura

Com acervo acessível e atividades bem articuladas, as crianças e os adolescentes tomam gosto e se apropriam dessa prática social

Lemos para aprender a escrever, para estudar, para conhecer outras culturas, para socializar, para imaginar ou simplesmente por prazer. A vida em sociedade fica cada vez mais limitada para quem não tem destreza na compreensão de textos. Como resume a pesquisadora espanhola Isabel Solé, em O Prazer de Ler, "aprender a ler é aprender muitas coisas". A autora complementa que os estudantes podem não ter oportunidade de se familiarizar com a leitura em seu dia a dia, por isso é papel da instituição abrir as portas desse universo para eles e colaborar para que ele seja explorado. "A escola não pode compensar as injustiças e as desigualdades sociais que nos assolam, mas pode fazer muito para evitar que sejam incrementadas em seu interior. Ajudar os alunos a ler, com que se interessem pela leitura, é dotar-lhes de um instrumento de aculturação e de tomada de consciência cuja funcionalidade escapa dos limites da instituição." 

Qual é, então, o caminho para garantir que todas as crianças e os adolescentes se tornem leitores autônomos e competentes? Desde os estudos do biólogo suíço Jean Piaget (1896-1980) e do psicólogo bielo-russo Lev Vygotsky (1896-1934), já sabemos que o conhecimento não é transmitido, e sim construído junto com a turma. No caso da leitura, o educador não pode transferir seu desejo e sua proficiência para os alunos, mas é capaz de criar, incentivar e nutrir a vontade de mergulhar num texto, desfrutar de uma obra e utilizá-la para algum objetivo, seja ele da vida escolar ou social. Ele atua como um mediador na construção de comportamentos leitores, que são práticas como a antecipação do que será dito no texto, o compartilhamento de interpretações e a recomendação de livros lidos. 

A escola precisa, portanto, oferecer condições para que seja formado um ambiente leitor, com espaço e materiais adequados e investimento na formação docente. "O objetivo, no caso dos gestores, é construir as condições para progressivamente criar uma comunidade de leitores", afirma Telma Weisz, coordenadora do programa Ler e Escrever, da Secretaria Estadual de Educação de São Paulo, no vídeo que você pode assistir abaixo.

A pesquisadora argentina Delia Lerner complementa essa reflexão no livro Ler e Escrever na Escola: o Real, o Possível e o Necessário (128 págs., Ed. Artmed, tel. 0800 703 3444, 49 reais). "O desafio de dar sentido à leitura tem, então, uma dimensão institucional e, se essa dimensão é assumida, se a instituição como tal se encarrega da análise do problema, se seus integrantes em conjunto elaboram e levam à prática projetos direcionados a enfrentá-lo, começa a se tornar possível encurtar a distância entre os propósitos e a realidade", afirma. 

Direção, coordenação pedagógica e professores precisam agir de mãos dadas para vencer os obstáculos e manter a leitura no centro dos holofotes. A trilha para o sucesso depende de ações simples como a determinação de um local exclusivo e adequado para as obras e segue com a oferta de livros de qualidade, o acesso irrestrito ao acervo e o planejamento de atividades que representem desafios constantes aos leitores em formação.

 

 

 

Organização do espaço e dos materiais

Com obras enviadas frequentemente por iniciativas federais, como o Programa Nacional Biblioteca na Escola (PNBE), a escassez de livros já não é um problema tão comum como era antes no país. Os acervos, ainda que pequenos, costumam ser de boa qualidade e oferecer uma variedade significativa para o trabalho de leitura. Mesmo assim, reclamações como "não temos espaço para expor os livros", "as crianças não se interessam por ler" ou "não posso controlar a entrada e saída das obras porque não tenho um bibliotecário" persistem pelos corredores de algumas instituições. Na opinião de Denise Guilherme, especialista em leitura dosite A Taba, o cerne do problema pode estar na relação que se tem com o livro. "Ainda existe uma visão dele como um objeto privado, que precisa ser protegido para que não rasgue e não seja perdido. Esse medo é tão grande que se opta por não fazê-lo circular", afirma. Trancafiadas em caixas, as obras ficam longe dos alunos. "Um livro que não chega ao leitor é um livro morto. Um livro que não é lido não acontece", diz Edmir Perrotti, professor das áreas de Informação e Comunicação na Universidade de São Paulo (USP) e coordenador do programa Quem Lê Sabe Por Quê, da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo. 

A EM Professora Maria Fidélis Costa, em Maruim, a 33 quilômetros de Aracaju, sofria com o desinteresse das turmas pela leitura. Situada num povoado rural em crescimento, foi obrigada a destinar quase todo o espaço físico para salas de aula. "Estávamos perdendo alguns locais importantes na escola e o acervo de 2 mil obras ficava espremido em um espaço na sala dos professores. Talvez fosse por isso que os alunos não procurassem pelos livros", diz a diretora Kelly Silveira Telles. "Eu era coordenadora e tive a ideia de dividir a sala dos docentes. Falei com a diretora da época e ela conversou com eles, que aceitaram ficar com um local mais reservado para interagir, enquanto a maior parte da dependência passou a abrigar prateleiras." 

PRATELEIRAS NOVAS A reforma do espaço foi acompanhada por um plano de ação na escola de Maruim. Foto: Adilson Andrade


Ao apresentar a proposta, as gestoras expuseram um plano de ação para a equipe, no qual definiram como objetivos promover a interação do aluno com o acervo, despertar o interesse das crianças e das famílias pela leitura e promover o senso crítico. "Os docentes receberam bem a ideia e deram sugestões", diz a diretora. Atualmente, os estudantes sabem como localizar os exemplares que desejam e têm liberdade para frequentar o local em qualquer horário. Depois que o contato com as obras aumentou, eles criaram um senso de responsabilidade por elas. "O desaparecimento e estrago diminuiu muito", conta Kelly, que também viu familiares se interessarem quando os livros eram levados para casa. Delia Lerner lembra que esse reflexo é comum. "Realmente, os projetos institucionais permitem instalar na escola - e não só na classe - um ?clima leitor? que, em alguns casos, se estende para os lares porque vai envolvendo imperceptivelmente não só as crianças como também as famílias", escreve.

Acervo estruturado, livros circulando 

Destinar um espaço exclusivo para a sala de leitura teve um resultado muito positivo em Maruim. No entanto, essa ação não teria sido suficiente para aumentar o trânsito de livros entre os alunos se não houvesse um esforço paralelo em fazer com que eles consigam buscar as obras desejadas. "A biblioteca ou a sala de leitura não é só uma soma de livros, é um conjunto organizado de materiais, que deve respeitar alguns critérios. Caso contrário, não permitimos que os estudantes desenvolvam autonomia nas buscas", explica Perrotti. Portanto, o padrão de catalogação deve ser compartilhado com toda a comunidade. 

Mas não vale dizer que esse trabalho só pode ser feito se houver um bibliotecário na instituição. "Se a biblioteca é de todos, todos vão cuidar. É claro que ter essa pessoa seria o ideal, mas nada justifica deixar o local desorganizado e sem uso", diz Denise. Fátima Fonseca, coordenadora pedagógica da Comunidade Educativa Cedac, em São Paulo, sugere que a catalogação seja feita de maneira simples, separando as obras por gênero literário, por exemplo. "Não se trata de uma biblioteca universitária. Os gestores podem contar com a ajuda dos alunos e dos professores para pôr os livros em ordem e divulgar as novas aquisições", complementa. Orquestrar essa tarefa é papel do diretor, que tem o controle do que chega à escola e pode mobilizar toda a equipe. 

Na EMEI Carolina Maria de Jesus, em São Paulo, uma reforma possibilitou que boa parte do acervo, composto de livros, DVDs e CDs, ficasse exposta. "A sala de leitura possui prateleiras em que as obras ficam com a capa para a frente, facilitando a visualização, o uso e o manuseio pelos pequenos", diz Daniela Juliani, assistente de direção. A gestora conta que os exemplares que não têm espaço na prateleira são guardados num armário. Sem um profissional que cuide do local, são os professores que se responsabilizam pela troca dos destaques periodicamente, dependendo do que está sendo abordado em sala de aula (veja mais sobre o trabalho desenvolvido no vídeo abaixo). Já a gestão tem outras atribuições. "Eu e a diretora temos o papel de viabilizar as mudanças, de ir atrás da compra de móveis e de pensar junto com a coordenação qual a melhor disposição dos objetos na sala, além de cuidar da manutenção e da limpeza do local e organizar o fluxo de utilização", explica Daniela. 

A assistente de direção também conta que, quando a reforma começou, os livros ficaram amontoados em um lugar da escola. Ao fim dos ajustes nos espaços, a equipe gestora percebeu a necessidade de repensar a forma que o material era apresentado. "A discussão foi encabeçada pela coordenadora pedagógica nos horários destinados à formação. Naquele momento, havia professores que preferiam que a organização fosse por autor, enquanto outros defendiam que fosse por gênero", diz. Numa reunião, todos entraram em acordo e definiram que o critério mais adequado seria o segundo, pois a divisão em contos, fábulas, poesias e outros facilitaria a busca. Parte das docentes se responsabilizou por começar a catalogar as obras, colocando etiquetas coloridas. 

Quando Fernanda Noronha assumiu a coordenação pedagógica da EMEI, o trabalho havia sido feito e ela encontrou os materiais já classificados e etiquetados. No entanto, ela considerou que isso não era suficiente para que alunos e professores conseguissem efetivamente ter acesso aos livros. "As pessoas não tinham conhecimento sobre quais eram os títulos existentes. Por exemplo, o educador queria planejar aulas sobre a questão indígena, mas não sabia se havia alguma obra que poderia ajudar", explica. Ela propôs, então, que se construísse uma planilha com os dados de todos os materiais, com título, autor, imagem da capa, sinopse e quantidade de exemplares. "O documento está disponível para todos os usuários na sala de leitura e cada professora recebeu uma cópia em PDF por e-mail. Assim, é possível localizar títulos e autores mesmo em casa, onde algumas docentes planejam atividades", diz. A expectativa das gestoras é que o catálogo sempre ajude nos planejamentos, no controle da saída e entrada dos livros e dê clareza de quais obras já existem na escola e se é preciso comprar alguma.

 

 

 

Aumento da complexidade e da autonomia 

Levante a mão quem nunca se deparou com um texto repleto de referências aparentemente enigmáticas, informações que exigem um árduo trabalho de interpretação e vocabulário impossível de digerir sem o apoio de um dicionário na mão. Às vezes, dá vontade de desistir, não é? Essa dificuldade não acontece só nos estudos do Ensino Superior ou durante a leitura de documentos burocráticos. No dia a dia escolar, os alunos também enfrentam obstáculos quando se defrontam com escritos ou gêneros com os quais pouco ou nunca tiveram contato. Não à toa, eles abandonam o material no meio ou optam por aqueles que oferecem a segurança de que serão entendidos sem ajuda externa. Para Denise, do site A Taba, a falta da percepção de que as crianças e os adolescentes também têm dificuldades pode causar uma interpretação errada sobre a evolução do perfil leitor dos estudantes. "Livros simples, que têm uma linguagem mais superficial, são muito lidos pelos alunos, o que causa a impressão de que eles estão se tornando ótimos leitores. Mas não é verdade que, se eles leem muito, eles leem melhor. Antes de tudo, eles precisam aprender a ler bem", diz. 

Fátima Fonseca, da Comunidade Educativa Cedac, acredita que o trato dos educadores com textos mais complexos também depende da concepção que se tem de alfabetização. "Se a escola acredita que ler é decodificar, talvez ela considere que, depois que o aluno está alfabetizado, ele vai avançar na leitura sozinho. No entanto, ler não é só isso e os estudantes precisam ser apresentados aos diferentes materiais", diz. Delia Lerner explica por que o aumento da complexidade é tão importante: "Aprender a ler textos ?difíceis? é um aspecto prioritário na formação do leitor no ensino obrigatório, porque está vinculado com o propósito de preparar os alunos para desenvolver com êxito estudos posteriores, para se inserir na vida acadêmica". O desempenho futuro como leitor autônomo vai depender, então, da incorporação dessa atividade na rotina em toda a escolaridade. Como diz a especialista argentina, ler textos fáceis, ainda que em grande quantidade, só habilita à ação de ler textos fáceis.

Conteúdo de todas as disciplinas

Assim como a complexidade, a diversidade é um item importante para ampliar a competência leitora. E como há muito enfoque nas obras literárias, outros materiais têm sido deixados um pouco de lado pelos educadores. É o caso dos textos informativos, muito importantes durante toda a vida escolar, uma vez que é por meio deles que as crianças estudam, ou seja, leem para aprender mais. "Alguns professores acreditam que estudar é algo natural para o aluno e que o contato constante com textos informativos é suficiente para que ele aprenda a ler esse gênero e a interpretar e localizar informações", critica Denise. O problema se agrava à medida que eles passam para etapas nas quais as especificidades das disciplinas aumentam, como os anos finais do Ensino Fundamental e o Ensino Médio. "Entre docentes especialistas, como os de Ciências, por exemplo, é comum que haja uma queixa de que os estudantes não aprendem alguns conteúdos. No entanto, cabe ao próprio docente ensinar procedimentos de leitura para materiais sobre determinados assuntos, porque cada um guarda particularidades de organização, de tema e de vocabulário", explica Milou Sequerra, coordenadora pedagógica da Comunidade Educativa Cedac e do ciclo de alfabetização do Colégio Santa Cruz, ambos em São Paulo. Com a mudança de etapa, é claro que o papel do coordenador pedagógico no apoio ao professor também muda. "Enquanto nos anos iniciais o coordenador discute com a equipe as formas que os textos estão entrando na sala de aula, nos anos finais e no Ensino Médio ele trata da especificidade de cada área, contando com o especialista para ampliar a reflexão", diz Fátima. 

Outro esforço indispensável da equipe pedagógica é diversificar as fontes de leitura e as atividades propostas na hora de trabalhá-las. "Geralmente, nos apoiamos só no livro didático, que apresenta escritos bem mais simples e mais curtos. Raramente se atua com o original, que é mais complexo", diz Denise. A especialista também sugere que o professor apresente aos alunos diferentes materiais sobre um mesmo assunto e, numa leitura compartilhada, busque e estabeleça relações entre as informações apresentadas junto com a turma. Aí, é possível propor que os estudantes façam anotações e um resumo. "Práticas como essas são usuais para alguém que já consegue estudar com autonomia", diz Milou. 

Isabelle Judith Ramos de Mendonça, diretora da EM Noilde Pessoa Ramalho, em Natal, acredita que o incentivo à leitura e o trabalho constante com textos cada vez mais complexos fizeram com que a biblioteca se tornasse pouco para os estudantes. "Os professores, principalmente os do 5º ano, estimulam muito as crianças, trazendo outros tipos de materiais. Nosso acervo é pequeno e, mesmo com a compra de novas obras que consideramos necessárias, chega uma hora que ele não é mais suficiente para os alunos. Mas eles não podem ficar reduzidos àquele nível." Zenaide Campos Faria, que era responsável pela biblioteca e faz a ponte com o Instituto Brasil Solidário, que ajudou a montar o local, também conta que o uso diário do espaço pelos estudantes foi o diferencial para aumentar o interesse deles. "A equipe da escola que recebe os alunos quando eles saem daqui já nos disse que eles são os que mais buscam livros lá", diz. 

DIVERSIDADE A equipe de Natal busca indicar outros materiais para as turmas, além de melhorar a biblioteca. Foto: Giovanna Hackradt

Milou explica que, às vezes, o estímulo do professor é a faísca que as crianças e os adolescentes precisam para escolher materiais com temáticas variadas e vocabulário mais complexo. "Quando o docente favorece o contato com materiais mais desafiantes, o estudante aprende a vivenciar estratégias e práticas diferentes de leitura. Ele vê o que um leitor experiente faz enquanto lê e passa a se perceber como um leitor mais fortalecido", diz.

Preparo também para o professor

Numa reunião de formação sobre como trabalhar leitura, Denise Guilherme levou uma série de obras e pediu para que cada docente escolhesse uma que julgava interessante levar para a sala de aula. "Muitos optaram por livros simples e, na hora de justificar a opção, disseram que uma criança era incapaz de lidar com temas complexos. Então, para eles, ainda que as outras obras mais desafiadoras fossem mais interessantes, não seriam entendidas", conta. Esse episódio fez a especialista refletir que, ao se deparar com falas como essa, o coordenador pedagógico pode estar lidando com uma questão anterior à compreensão dos alunos: a dificuldade do próprio professor em lidar com textos complexos. A solução para isso é apresentar os livros aos educadores e ajudá-los a esmiuçar o material, planejando atividades e intervenções. 

Foi isso o que fez a coordenadora pedagógica Nelma Pedroso, da EE Professora Regiane do Carmo Monteiro, em São Paulo, que atende os anos iniciais do Ensino Fundamental. Quando a escola recebeu novos livros literários da Fundação para o Desenvolvimento da Educação (FDE), Nelma organizou uma reunião de formação para apresentar o acervo à equipe docente. "Nesse encontro, nós estudamos escritos de Kátia Bräkling, Delia Lerner, Telma Weisz e Paulo Freire (1921-1997) e destacamos o que era pertinente para nossa realidade. Eu falei das etapas que seguiríamos para chegar ao nosso objetivo de fazer com que as crianças tivessem diferentes modelos leitores, ampliassem o repertório e se envolvessem mais na leitura", conta a coordenadora. Um dos textos utilizados foi Leitura do Mundo, Leitura da Palavra, Leitura Proficiente - Qual É a Coisa Que Esse Nome Chama?, de Kátia Bräkling, que levanta a discussão sobre comportamentos leitores e a dimensão individual e social dessa prática. 

ESTUDO E PRÁTICA Em São Paulo, a coodenadora convidou os docentes a se colocar no lugar de leitores. Foto: Silvia Zamboni 


Inspirada pelas sessões simultâneas de leitura propostas pelo Projeto Entorno, realizado pela Fundação Victor Civita (FVC), Nelma convidou cada profissional a selecionar um livro para ler. No encontro seguinte, as obras foram apresentadas aos colegas. "Falamos sobre as opções dos professores e comentamos que, com as crianças, o processo não é muito diferente, já que elas também se interessam pela capa, pelo assunto e pelo título", lembra. A coordenadora ainda propôs que a equipe debatesse os textos, levantando questionamentos que os alunos poderiam fazer e estratégias para ajudá-los. 

Após essa discussão, os docentes fizeram resenhas, que foram coladas em cartazes ao lado das capas dos livros e de listas para que as crianças de todas as turmas se inscrevessem para ouvir a história pela qual mais se interessassem, o que acontecia semanalmente. No dia da leitura em voz alta, os alunos se dirigiam para as salas onde seriam lidos os materiais escolhidos e os professores faziam intervenções, estimulando os estudantes a utilizar algumas estratégias, como a antecipação do que poderia ocorrer depois de determinado ponto da trama. Todas as classes participavam, misturadas de acordo com as opções feitas. "Existem livros que não são tão pertinentes para crianças de 6 anos como para as de 10. No entanto, avaliamos todas as obras lidas e, por mais difíceis que elas fossem para os mais novos, julgamos ser importante que eles as ouvissem, para que fossem estimulados desde cedo", explica Nelma. De volta para a sala de aula de origem, os alunos ainda trocavam com os colegas as experiências numa roda de conversa. "Com esse esforço, tivemos um ganho grande, todos começaram a se interessar mais por ler", conta a coordenadora. 

As situações em que desafios são apresentados às turmas, no entanto, não precisam se limitar apenas a propostas como a de Nelma. Os coordenadores pedagógicos também podem sugerir aos professores que planejem diferentes modalidades de leitura em sala de aula, como a individual ou a compartilhada. A escolha depende do objetivo da atividade e dos conhecimentos prévios do grupo. "Existem obras cuja temática e organização textual são familiares para o estudante. Então, ele tem condição de ler, mas tem dificuldade de entender. Para isso, indicamos que seja feita uma leitura compartilhada, durante a qual os alunos têm uma cópia em mãos", exemplifica Milou. Se os docentes tiverem dúvidas sobre como trabalhar algum texto, uma das estratégias de formação que o coordenador pode adotar é realizar com eles a mesma sequência que será feita em sala. Isso pode ajudar os professores a ter mais segurança ao executar a atividade. 

Com tantos esforços estruturados, o "clima leitor" de que fala Delia contamina a comunidade positivamente e o contato com os livros se torna cada vez mais natural. Como diz Isabel Solé, pode-se, então, usufruir de uma dimensão transcendente genuína da leitura, afinal "ela não é somente um dos instrumentos mais poderosos de que dispomos para ter acesso e apropriá-los da informação; também é um instrumento para o ócio e a diversão, uma ferramenta lúdica que nos permite explorar mundos diferentes dos nossos, reais ou imaginários; que nos aproxima de outras pessoas e de suas ideias". Para aproveitar, é só abrir as portas certas. Pode entrar, seja bem-vindo.