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Por uma escola memorável

Como construir um espaço educativo carregado daquelas emoções que têm sentido e nos fazem bem

POR:
NOVA ESCOLA
Terezinha Azerêdo Rios,

Terezinha Azerêdo Rios,
graduada em Filosofia e doutora em Educação

Ponho o CD no aparelho, a música começa a tocar. A voz do cantor invade a sala: "A saudade mata a gente, morena...". E, como se fosse um passe de mágica, meu pai está ali, cantando junto e sorrindo para mim. Muda a música e meu pai vai-se embora. Já não estou mais em casa - dessa vez, estou subindo a rampa de acesso às salas de aula do colégio em que estudei. E não estou sozinha. Rindo e fazendo algazarra, sobem comigo alguns de meus colegas. A música acaba e passo para a varanda. Olho a lua cheia e ouço minha avó cantarolando: "Lua, luar/pega a menina e me ajuda a criar/Depois de criada, torna a me dar!". 

Sou adulta e posso voltar a ser criança. Estou em minha casa e posso estar em outro lugar. E posso encontrar agora meu pai e minha avó, que já se foram há muito tempo. A música e a lua me fazem lembrar.
 

Não poderíamos falar em história, de uma pessoa ou de muitas, se não fôssemos dotados dessa capacidade intangível, complexa e mágica chamada memória. Sem ela, o que seria do processo educativo?

Já se escreveu muito sobre a função e o significado da memória na vida dos seres humanos. A capacidade de lembrar do que já vivemos, do que experimentamos e daquilo que presenciamos e aprendemos é algo surpreendente, maravilhoso. Não poderíamos falar em história, de uma pessoa ou de muitas, se não fôssemos dotados dessa capacidade intangível, complexa e mágica chamada memória. Sem ela, o que seria do processo educativo? O que seria da escola? E olhem que eu não estou me referindo à necessidade de decorar informações, muito usada num determinado estilo de ensino. Falo da memória associada à emoção, daquela que guarda o que tem sentido, tanto coisas boas quanto ruins.

Quando tive de escrever um memorial para ingresso na carreira como professora na universidade, procurei saber o que isso significava. Recorri ao dicionário. E encontrei: "Substantivo masculino. Relato de fatos memoráveis". Memorável é aquilo que merece ser lembrado especialmente. E tem outro nome: recordação. Eduardo Galeano, escritor uruguaio cuja obra sempre me emociona, traz, em um de seus livros, uma definição precisa e preciosa: "Recordar. Do latim re-cordis. Tornar a passar pelo coração". É mais do que lembrar, assim como é mais do que "esquecer" a expressão que usa Guimarães Rosa (1908-1967) no seu Grande Sertão: Veredas: "Aquele menino - como é que eu podia deslembrar?". 

Quando falamos da importância do ensino e do significado do trabalho dos educadores vale perguntar: o que torna uma escola memorável, digna de recordação? O que dela permanece, é guardado, estimula a volta da vivência e a gente não deslembra? Há uma implicação ética nessas perguntas, uma vez que se espera da escola um trabalho de boa qualidade, algo que faça bem para as pessoas. O que faz bem tende, em geral, a ser mais lembrado do que o que não faz. Fazem bem para mim a canção que eu cantava com meu pai, a música cantada em gritaria na rampa da escola, a lua cheia que ia me levar para criar, atendendo ao pedido de minha avó. 

Faz bem na escola a preocupação de professores e gestores com uma aprendizagem construtora de cidadania, a atitude solidária nas relações interpessoais, a avaliação justa, o convívio alegre. Coisas para habitar na memória, que tornem a passar pelo coração. E o mais importante: não são coisas que nos fazem apenas voltar ao passado. Elas povoam o presente e nos lançam para o futuro, nos ajudam a projetar. Se a avaliação é um olhar que tem a intenção de retomar o que se fez para seguir adiante, ela seria enriquecida se considerássemos também, além da apreensão de conteúdos, o que é memorável nesse processo em que estamos todos empenhados.


Foto: Tamires Kopp

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