São tantos na classe, mas cada um é um

Por trás de cada olhar que nos recebe no início do ano, há alguém singular em seu potencial. Por isso, toda turma é heterogênea

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Luis Carlos Menezes
Luis Carlos de Menezes. Foto: Marina Piedade
Luis Carlos de Menezes é físico e educador da Universidade de São Paulo (USP)

Começamos o ano planejando o trabalho com cada turma, tendo por base a expectativa média sobre maturidade, habilidades e conhecimentos anteriores dos futuros estudantes. No entanto, o previsto será continuamente reformulado porque o aluno médio é uma abstração que raras vezes corresponde à variedade encontrada nas salas de aula. Por isso, é melhor nos prepararmos para turmas heterogêneas, em lugar de as lamentarmos. Levar em conta sua diversidade é condição para poder ensinar.

Diferenças logo percebidas - de estatura, tom de voz e modo de vestir - são pouco significativas se comparadas com as de personalidade, história de vida e propensões, que só se revelam em um convívio significativo e não cabem em classificações gerais, como condição social e inteligência. Um garoto que demore para resolver uma questão por considerar mais elementos e possibilidades não deve ser visto como inferior a outro que logo apresenta uma resposta direta.

São muitos os casos de julgamentos equivocados, até de crianças que a escola avalia possuir algum tipo de deficiência intelectual e que, mais tarde, se revelam geniais. Aliás, é preciso mais do que valorizar a inteligência, pois jovens brilhantes também podem se prejudicar por problemas de relacionamento. Se a escola for atenta a cada ser humano - que pode se revelar mais ou menos sociável, curioso, introspectivo ou irreverente -, consegue desenvolver as potencialidades de cada um para sua realização pessoal e também em benefício dos colegas, fazendo assim da heterogeneidade uma vantagem, e não um peso.

Não existe uma forma única de promover o convívio significativo, que se baseia no respeito aos diferentes ritmos e no reconhecimento de características individuais. Uma coisa é lidar com uma pequena turma de crianças, outra é fazer isso com adolescentes. Para o professor do 1° ao 5° ano, que tem uma ou duas turmas, já é difícil orientar uma criança perplexa diante de tarefa ainda não entendida e ao mesmo tempo compreender a impaciência de outra que se apressa em mostrar o trabalho concluído.

Para o especialista, o desafio se amplia. Com mais de 40 estudantes em cada uma de suas várias classes, ele não tem como prestar um atendimento individual. Se você está nessa situação e quer saber se só passará conteúdos ou se contribuirá para o desenvolvimento de cada um, sugiro um critério divertido: sempre que for possível se imaginar substituído por uma palestra gravada e supervisionada por um vigia, seu trabalho não valorizará a diversidade humana. Quando a expectativa é que os alunos apenas ouçam, copiem, entreguem lições individuais e façam provas, o resultado será notas e médias, ou seja, números. É possível fazer de outra forma? Acredito que sim e dou sugestões para quatro necessidades:

- Conhecer a condição inicial dos alunos. O diálogo, seguido de um questionário de recepção, orienta a condução de cada etapa da escolaridade.

- Respeitar os ritmos de aprendizado. Tarefas de classe e questões de prova com variados níveis de dificuldade promovem desempenhos sem gerar exclusão.

- Ensinar alunos a se expressar e participar. A integração deles em grupos de trabalho com tarefas coletivas funciona melhor que uma conversa individual.

- Garantir que se considerem as características e necessidades dos estudantes. Reflexões sobre cada um devem ser realizadas nos conselhos de classe.

Não é fácil para um professor implementar sozinho essas práticas, mas, quando um projeto pedagógico as propicia, é notável o engajamento da comunidade escolar para enfrentar o desafio de promover todos os alunos, em lugar de selecionar alguns. O trabalho passa a fazer mais sentido e o esforço vale a pena.

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