Ir ao conteúdo principal Ir ao menu Principal Ir ao menu de Guias

Faltam para:   

Reportagens | Formação | Reportagens


Por: André Bernardo

Diretores, uni-vos!

Troca de experiências colabora com a busca de soluções e o compartilhamento de boas práticas

Trabalhar na gestão de uma escola pode ser uma tarefa solitária. É comum que os diretores não possuam pares para dialogar sobre dúvidas ou ideias. Por isso, a troca de experiências tem sido uma estratégia adotada por várias redes de ensino. Evilen Campos, coordenadora-geral de Redes Públicas do Ministério da Educação (MEC), considera essa prática essencial para a formação desses profissionais. Para ela, os encontros são uma oportunidade de conhecer outras realidades, identificar similaridades e, consequentemente, vislumbrar alternativas. "Esse processo favorece uma visão mais abrangente tanto dos problemas como das possíveis soluções para questões do cotidiano", afirma. 

Como o compartilhamento de ideias e percepções sobre a atividade do gestor educacional deve ser feito? Que pontos são imprescindíveis para que ele possa levar à ampliação dos saberes de todos? Na opinião da pesquisadora Bernardete Gatti, da Fundação Carlos Chagas (FCC), o primeiro passo a ser dado é estabelecer uma periodicidade. Uma vez por mês, por exemplo. "É importante que o processo seja contínuo e sistematizado", salienta. Outro ponto a ser considerado é contar sempre com a presença de um mediador capacitado para dar substância às discussões e colaborar para aprofundar os conhecimentos. "Caso contrário, vira uma conversa qualquer, sem valor", alerta. 

Vitor Henrique Paro, coordenador do Grupo de Estudos e Pesquisas em Administração Escolar (Gepae) da Universidade de São Paulo (USP), compartilha a mesma opinião. Para ele, a troca de experiência só funciona se fizer parte de um projeto maior voltado à formação de gestores. "Tem de ser algo bem dirigido e organizado. Mas também não é panaceia para todos os males", avisa. Mais do que tratar apenas de questões burocráticas ou datas comemorativas, Paro lembra que os encontros devem colaborar para aprofundar reflexões políticas.

Maria Nilene Badeca da Costa, presidente do Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed), afirma que não há um formato único para as reuniões. Diversos tipos de intercâmbio, como os realizados entre cidades e até países diferentes, podem ser úteis. Ela exemplifica que diretores que trabalham em um mesmo território podem avaliar juntos como minimizar a violência na escola. Já o diálogo com pares de outros países pode ser significativo para refletir sobre o trabalho com diferentes culturas. "Pessoas que ocupam cargos de gestão precisam ter um vasto repertório de possibilidades para tomar as decisões mais adequadas para a sua realidade", observa. 

A seguir, confira três depoimentos de gestores que participaram de iniciativas voltadas para o compartilhamento de ideias e se beneficiaram. Ações como estas reafirmam a necessidade de considerar a formação de diretores como um dos princípios da rede de ensino e um dos indicadores que colaboram para a qualidade da Educação.

Diálogo com outros países e estados 

A cada dois meses, a Secretaria Municipal de Educação de Palmas promove um encontro entre os educadores do município. Mediada por técnicos da secretaria, a reunião conta com um palestrante convidado e depois abre espaço para o debate e a troca de experiências. Desde 2006, os gestores também têm momentos agendados com colegas de outras capitais. 

Também para contribuir com esse processo, a prefeitura selecionou, em 2013, 120 servidores municipais para participar de um intercâmbio internacional com instituições de Cingapura, Itália, Finlândia e Coreia do Sul. Cada grupo de 30 profissionais visitou um dos locais. "Essas atividades fortalecem o trabalho das escolas e promovem a qualidade do ensino", avalia Berenice Barbosa Castro de Freitas, secretária de Educação do município.

Suiany Costa, diretora da EMTI Luiz Nunes de Oliveira, em Palmas

"Passei uma semana em Cingapura. Visitamos uma escola particular e duas públicas. Conhecemos toda a organização pedagógica e administrativa delas. Quem nos guiava era o gestor, com a ajuda de dois intérpretes. Nossa preocupação era saber como eles conseguiam administrar a instituição em tempo integral. Esse intercâmbio de práticas também é realizado com frequência aqui em Palmas. Se algo é bom, a gente tenta implantar nas demais escolas da rede. Foi por meio dessas reuniões que os outros gestores tomaram conhecimento do meu projeto Bate-Papo com a Família. Eu e os demais funcionários vamos à casa dos alunos. A cada bimestre, a gente contempla um determinado número de famílias. Até dezembro, as residências de todos os 295 alunos são visitadas. Os alunos tiravam notas baixas e os pais não participavam da rotina. Depois, tudo mudou: tanto na participação dos pais quanto no engajamento dos professores. A EMTI Professora Sueli Pereira Reche foi a primeira a adotar nossa ideia. Conversamos muito sobre o projeto nos encontros bimestrais para ajudá-los. Depois, mais unidades também aderiram à iniciativa."

 

Ideias compartilhadas em núcleos regionais 

No município de Acará, a 65 quilômetros de Belém, as escolas que integram a rede estão divididas em núcleos. Cada grupo é formado por diretores e representantes da Secretaria Municipal de Educação. São eles que, desde outubro de 2010, se reúnem todos os meses e discutem temas como a gestão do espaço e o relacionamento com as famílias dos alunos. 

"Em nosso município, a formação continuada é vista como peça primordial. Não queremos ter uma ilha de excelência, e sim uma rede de excelentes escolas", afirma Maria de Nazaré Pereira Barros, secretária de Educação. Na opinião de Edilvana Lobato, diretora de Planejamento e Formação, são os novatos no exercício da função de gestor que mais têm a ganhar com o intercâmbio contínuo e sistematizado, mas a prática envolve todos.

Cristiano Carneiro de Souza, diretor da EM Eduardo Angelim, em Acará

"Uma das ideias que mais deram certo no município foi a implantação de dois professores por sala de aula. Enquanto um explica o tema, o segundo tira dúvidas dos alunos. Um único docente não conseguia dar conta porque as turmas, que têm de 25 a 30 alunos, em média, são bastante heterogêneas. Para implantar essa iniciativa, recorri à Secretaria Municipal, após justificar a importância dela no nosso projeto político-pedagógico (PPP). Em seguida, apresentei a sugestão durante uma reunião com os outros gestores e ela agradou a praticamente todos. Logo, várias unidades, como a EMEF Coronel Sampaio, a EMEF Professora Izabel Barral e a EMEIEF São João Batista adotaram a prática. A troca de experiências faz toda a diferença na nossa formação. Não é porque a solução partiu de fulano ou beltrano que sicrano não vai poder usá-la. Se ela é boa, tem mais é que ser compartilhada. E a gente sempre faz ajustes. Afinal, uma comunidade nunca é 100% igual à outra."

 

Estudos de caso com visita às escolas 

Para a prefeitura de Aracruz, a 83 quilômetros de Vitória, compartilhar ideias não é suficiente. Por isso, a Secretaria Municipal de Educação promove visitas estruturadas às escolas, com foco predefinido. No trabalho de campo, os 53 diretores percorrem a unidade de acordo com o tema que se quer observar. No final, relatam suas impressões e dizem o que levam de aprendizado. Com isso, a secretaria detecta conteúdos para incluir nas formações. 

Além disso, todos os meses há encontros com os profissionais divididos pela etapa da Educação em que atuam. "Isso permite aprender com o fazer do outro e repensar a experiência relatada de acordo com a realidade e a necessidade do local em que atua", diz Zélia Dalva Forecchi Giovanni, responsável pelo setor de Gestão na Secretaria Municipal de Educação.

 

Adriana Alves dos Santos, diretora do CMEB Honório Nunes Jesus, em Aracruz

"Sou professora há 16 anos e gestora há nove. Às vezes, o olhar fica viciado, sabe? Por mais que tente, você não consegue enxergar adiante. Na troca, você sempre aprende algo novo. E ensina algo também. Começa a perceber que a mudança é possível. Durante a visita a uma das escolas da rede municipal de Aracruz, conheci o self-service infantil. O que mais me chamou a atenção foi a questão da autonomia. Quando propus a mudança onde trabalho, muitos reclamaram: ?Ah, mas isso não vai dar certo!?. ?Vamos tentar?, argumentei. Até as crianças se acostumarem, levou tempo. E alguns pratos quebrados também. Queria assegurar às crianças - de 2 a 5 anos, principalmente - o direito de se servir sozinha, de escolher o que comer, de sentar à mesa para fazer a refeição. Até então, eram as merendeiras que preparavam os pratos. Foi difícil, mas conseguimos."

 


Ilustrações: Juliano Augusto