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Por: NOVA ESCOLA

Ponha-se em vários lugares

Humildade e coragem são virtudes importantes para o educador que atua em diversos papéis

Terezinha Azerêdo Rios,

Terezinha Azerêdo Rios,
graduada em Filosofia e doutora em Educação

Se há uma coisa difícil de vivenciar, é colocar-se no lugar do outro. Não deveria ser, pois em nossa vida desempenhamos múltiplos papéis e por isso temos a possibilidade de compreender como se dá a experiência em cada um deles. Sou mãe, mas também sou filha e, então, posso entender o comportamento de minha filha. Sou professora, mas fui estudante, logo, compreendo as atitudes de meu aluno. Parece simples, mas não é. E tampouco é fácil. Porque a filha que eu sou é bem diferente da outra filha que é a minha; a estudante que eu fui é bem distinta do outro aluno que é o meu. Entretanto, embora não seja fácil, se há uma disponibilidade para identificar a diferença e beneficiar-se da semelhança, são muitos os ganhos nessa relação eu e outro, base da convivência em sociedade. 

Colocar-se no lugar do outro não é se transformar nele. É, em primeiro lugar, admitir que há experiências e pontos de vista distintos dos nossos e que, se nos dispusermos a conhecê-los e respeitá-los, ampliaremos nossa visão de mundo e a possibilidade de nele intervir. 

O reconhecimento da existência do outro constitui o princípio nuclear da ética, que é o respeito. Também essa constatação parece simples, mas talvez seja um dos maiores desafios que enfrentamos. Não é sem razão que se fala na invisibilidade de algumas pessoas nos diversos espaços sociais - garis, serventes e tantos outros, cuja presença não é percebida ou, o que é mais grave, é recebida com indiferença. 

Na escola, não se trata apenas de o professor procurar compreender os alunos, colocando-se no lugar deles, mas de todos fazerem esse exercício. Não é raro encontrar educadores que são docentes em uma instituição e diretores ou coordenadores em outra. Para esses, no desempenho do papel de professor, às vezes é difícil dispor-se a receber orientações dos gestores. E, na função de diretor ou coordenador, pode haver intolerância com o que vem dos docentes. No entanto, exatamente por causa da experiência vivida no outro papel, abre-se espaço para a compreensão das atitudes e para o diálogo que favorece o trabalho coletivo. Para que isso se concretize, há necessidade da presença de duas virtudes: humildade e coragem. 

"Na escola, não se trata apenas de o professor procurar compreender os alunos, colocando-se no lugar deles, mas de todos fazerem esse exercício."

A humildade implica o reconhecimento dos nossos limites, porque todos os temos no desempenho de nossos papéis nas funções que exercemos nos espaços profissionais. A coragem é requerida para, uma vez constatados os limites, buscar elementos para superá-los, sabendo que essa é uma tarefa que não se cumpre isoladamente, e sim em companhia, no esforço conjunto. 

O poeta mato-grossense Manoel de Barros (1916-2014), que nos deixou recentemente, escreveu, em um de seus textos, um verso bonito e desafiador: "Os Outros: o melhor de mim sou eles". Na concordância verbal que rompe com as regras, uma lição estimulante, a ser aprendida e vivenciada em toda a sociedade, adquire um sentido especial no contexto escolar. É nele que se dão, de maneira organizada e sistemática, a criação e recriação de saberes e a partilha de valores. São conhecimentos que ganham sentido na inter-relação das experiências, no reconhecimento e na valorização dos múltiplos lugares de múltiplos outros, diferentes e semelhantes, todos melhores quando abertos ao diálogo e à descoberta e invenção do novo.


Foto: Tamires Kopp

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