Ir ao conteúdo principal Ir ao menu Principal Ir ao menu de Guias

Faltam para:   

Matéria de capa | Matéria de capa


Por: Rosi Rico

Performance afinada

Clareza das responsabilidades, formação adequada e ambiente colaborativo asseguram que todos atuem por um ensino de qualidade

Em uma escola, há professores, gestores - diretor, coordenador pedagógico e outros - e funcionários como vigias, secretários, inspetores, merendeiros e auxiliares de limpeza. Ter tantas pessoas trabalhando juntas, porém, não garante a constituição de uma equipe. É preciso mais: cada integrante deve saber qual sua função no grupo e levar em consideração o todo, contribuindo para um objetivo comum. No caso, o de garantir a aprendizagem dos alunos. 

O diretor é quem conduz a construção de um time coeso. O processo capitaneado por ele deve ser contínuo, com avaliações constantes sobre a atuação geral e individual. "Criar um clima pedagogicamente frutífero na escola demanda esforço", diz Vera Placco, do Programa de Pós-Graduação em Educação: Psicologia da Educação, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Primeiro, o gestor precisa ter clareza sobre o rumo que a equipe vai seguir. "O desenho estratégico tem de ser sucinto e conhecido para que haja alinhamento", argumenta Antônio Carlos Brasiliense Carneiro, consultor em Desenvolvimento Humano e diretor do Instituto Alana, em São Paulo.

Isso nem sempre é fácil. "Com frequência, cada um enxerga com seus óculos, ou seja, por meio do que acredita ser uma Educação de qualidade", adverte Elza Corsi de Oliveira, formadora do Instituto Avisa Lá, em São Paulo. "Devemos convencer todos a usar a mesma lente. Aí, pode-se avaliar os fatos com base na proposta que a instituição toda defende." O engajamento deve começar na elaboração do projeto político-pedagógico (PPP). A participação no processo garante a apropriação do que foi decidido e, em geral, quanto mais a pessoa contribui para o planejamento, melhor executa suas tarefas. "Às vezes, há metas dentro do PPP ou de alguns projetos institucionais que são compartilhadas apenas com alguns poucos, o que pode gerar ruídos para os demais", diz Márcia Cristina da Silva, coordenadora pedagógica da Comunidade Educativa Cedac, em São Paulo. 

Uma vez que o grupo inteiro está ciente do caminho a seguir, outras três iniciativas, que se interligam, são fundamentais: definir responsabilidades e objetivos, garantir formação para todos e construir um ambiente colaborativo. "Esses são domínios essenciais. Se faltar algum, a equipe não funcionará em alta performance", diz Carneiro. A seguir, entenda mais sobre eles.

Definir responsabilidades e objetivos

CADA UM NO SEU PAPEL Na EC Sonhém de Cima, os planos são feitos para ações contínuas e pontuais, como a implantação da sala de leitura. Foto: Alexandre Bastos 

Quando se analisa o funcionamento de uma escola, pode parecer que as atribuições dos cargos estão naturalmente definidas. Não deveria haver dúvidas sobre o que professores, merendeiras e auxiliares de limpeza têm de fazer. Mas, se você olhar para os detalhes, notará que muitas vezes o coordenador pedagógico assume o papel do diretor, que por sua vez executa tarefas da secretária e o docente acumula a função de inspetor no intervalo. "Ao ter os processos de cada um bem elaborados, evita-se insatisfações e mal-entendidos na execução das atividades", diz Claudia Dal Corso, sócia- fundadora da consultoria Elos Educacional, em São Paulo, e Educadora Nota 10 de 2007. "Comumente não se conversa sobre o que precisa ser feito. Mas até nas pequenas coisas pode haver visões diferentes. O que é um banheiro limpo, por exemplo? É apenas varrer e passar pano ou é jogar água e lavar? Na secretaria, quais são os passos para efetuar uma matrícula? O melhor, então, é conversar sobre quais etapas seguir e com que objetivos, para que os dois lados - gestor e funcionário - tenham uma definição", completa Claudia. 

A tarefa não acaba aí. Saber qual é a sua função não significa, necessariamente, ter clareza sobre responsabilidades e objetivos. Eles têm de ser construídos em conjunto. Com os docentes, por exemplo, há diferenças conforme a etapa de ensino, a especialização e o nível dos alunos. 

Em geral, está instituída a prática de reuniões regulares de planejamento, acompanhamento e avaliação do que é feito pelos professores. Mas o mesmo nem sempre ocorre com os demais funcionários. "Deve-se construir uma identidade profissional para cada equipe. Todos têm de se orgulhar de seus trabalhos e se reconhecer como participantes da aprendizagem dos estudantes, pois quem está em uma unidade escolar é um educador por excelência", diz Elza. Como a faxineira, a merendeira e o porteiro descobrem isso? "Temos de elogiar, dar voz e visibilidade." 

O diretor deve conhecer muito bem o perfil do grupo para saber o que e como pedir ou quem pode atuar com quem. "O desafio é fazer com que as diferenças entre as pessoas sejam complementares e não opostas. Isso é importante na hora de compor pequenas equipes de trabalho para projetos institucionais, por exemplo", diz Márcia. 

O planejamento das ações precisa incluir, além da orientação por parte dos gestores, o acompanhamento da execução e a definição de prazo para a conclusão de cada etapa. Durante esse processo, deve-se monitorar o tempo e o resultado das ações e, se for o caso, fazer ajustes no que havia sido acordado anteriormente. 

Na EC Sonhém de Cima, em Sobradinho, cidade-satélite de Brasília, a definição sobre demandas, responsabilidades e objetivos ocorre em diversas etapas e engloba todas as áreas. Há o planejamento mais amplo, sobre o que será desenvolvido ao longo do ano, e outro por bimestre, ambos com o grupo completo. Há também os mensais e até mesmo os semanais. "Toda terça-feira, me reúno com os outros membros da gestão para pensar sobre as ações da semana e definir o que cada um irá fazer. O vice-diretor, em geral, fica com as questões administrativas e o coordenador com a parte pedagógica, que é sua preocupação principal. Mas, como essa área exige mais do que o administrativo, eu, muitas vezes, ajudo o coordenador", conta a diretora, Maria do Socorro Xavier Rodrigues Ripper. A unidade, rural, possui 160 alunos da Educação Infantil ao 5º ano e 42 funcionários. 

Essa organização por meio de planos de ação facilita o acompanhamento e é feita também para atividades pontuais. Neste ano, por exemplo, foi utilizada para colocar em prática a ideia de transformar o espaço onde estavam computadores fora de uso em uma sala de leitura. Os professores definiram os livros que iriam compor o acervo e envolveram os estudantes nessa escolha. O pessoal da limpeza e outros funcionários de apoio entraram na preparação do local. Com a gestão ficou a coordenação do trabalho, a administração dos recursos financeiros e a contratação de pessoal, como marceneiros. Foram pouco mais de quatro meses para concluir o projeto.

Garantir formação para todos

COLEGAS INFORMADOS Após os cursos, funcionários da EMEF João Prudêncio de Brito compartilham os conhecimentos recebidos. Foto: Jhônatas Santos

Uma boa gestão de equipe implica estar atento ao desenvolvimento dos profissionais e um dos pontos principais para potencializar a atuação geral é a formação. Para os docentes, é indispensável garantir o bom uso do horário de trabalho pedagógico coletivo (HTPC). E quando não é possível resolver tudo dentro da própria escola, deve-se estimular e organizar a participação em cursos propostos pelas secretarias e por outros parceiros. 

Nesse item, diretor e coordenador pedagógico precisam estar entrosados, com discursos afinados e foco comum. "Se a parceria não existe, se desenvolvem conflitos, pois quem está em formação pode procurar brechas para continuar agindo da mesma maneira. Isso porque as pessoas têm medo de mudanças e, quando estudamos e reavaliamos as práticas, é natural que elas ocorram", diz Elza, do Instituto Avisa Lá. 

"Deve ser construída uma rotina para que todos estudem. Em geral, o diretor fica com a parte operacional para que o coordenador assuma o pedagógico. Mas isso tem de ser planejado em conjunto", ressalta Elza. Na agenda da dupla também entra o diagnóstico para definir os cursos de acordo com as necessidades de aprendizagem de cada um. O próprio funcionário, quando a equipe está integrada, se sente à vontade para expor suas dificuldades. 

Para assegurar o acompanhamento, pode-se criar um roteiro de observação e análise, registrar tudo e estabelecer devolutivas individuais e coletivas, dependendo dos objetivos. O retorno é muito importante tanto para estimular quanto para rever práticas. Criar oportunidades para análises coletivas sobre o cotidiano escolar contribui, inclusive, para a reflexão dos próprios gestores. 

Esses cuidados são contemplados pela EMEF João Prudêncio de Brito, em Parauapebas, a 718 quilômetros de Belém, onde o diretor, Antonio Marcio Reis Batista, estimula que todos participem dos cursos de formação oferecidos pela Secretaria Municipal de Educação e também convida profissionais de fora para ministrar palestras. Ele lidera uma equipe com 44 pessoas, entre professores, gestores, merendeiras, vigias e pessoal de secretaria e de limpeza. A escola atende 518 alunos, do 6º ao 9º ano. 

Entre as aulas e palestras já frequentadas estão as de uso adequado de Equipamentos de Proteção Individual (EPI) para vigias e merendeiras, de reaproveitamento de alimentos para o pessoal da cozinha, de relações interpessoais para a equipe inteira e de atendimento à comunidade para os que ficam na secretaria e no portão. "Quando os pais são bem atendidos, se sentem valorizados. São atitudes que reforçam o vínculo e se refletem na maior participação deles nas atividades da escola", diz Batista. 

Para o funcionário também faz diferença. "Ele percebe seu valor dentro da instituição, afinal todos somos responsáveis por uma Educação de qualidade", conta o gestor. Assim, se torna mais confiante para opinar e participar dos debates. Uma auxiliar de serviços gerais, por exemplo, sugeriu utilizar plásticos transparentes nas mesas do refeitório com textos por baixo. "Adotamos a ideia e colocamos materiais diversos. Há mesas com poemas, notícias e crônicas. Agora os alunos leem enquanto almoçam", conta Batista. Depois dos cursos, Batista pede que o pessoal compartilhe, nas reuniões de seu grupo, o que foi aprendido. Além dos encontros específicos de cada área, realizados periodicamente, há momentos com a presença de todos. Esses espaços também contribuem com o aprimoramento da equipe.

Construir um ambiente colaborativo

MUITO PRAZER! Por sugestão da equipe, a diretora passou a apresentar os novos funcionários para as turmas. Foto: Ramón Vasconcellos 

Para criar um clima harmonioso também é essencial uma gestão em que haja diálogo e que estimule a participação de todos nas decisões. Conquistar isso exige uma postura democrática do diretor, em que fique demonstrado que ele sabe ouvir a equipe e trata todos como profissionais da Educação. "As conversas não podem ocorrer pelos corredores, e sim em momentos organizados, com uma rotina sistematizada que permita escutar as necessidades", diz Márcia. Isso pode ser feito com o estabelecimento de um calendário de reuniões coletivas e individuais. "Nessas ocasiões, deve haver disposição para explicitar os conflitos. Até porque eles não são obrigatoriamente destrutivos. Eles fazem parte da natureza humana e podem ser obstáculos que, superados coletivamente, fortalecem os vínculos", completa a formadora do Cedac. 

O principal, porém, é que esse respeito pelo outro esteja presente no cotidiano e que seja um valor em toda a instituição. Ao diretor cabe, então, ser coerente com o que propõe e faz. "Não basta dizer como deve ser, é preciso demonstrar por meio de atitudes. Tem de ser aquele que mais ouve do que fala, que escuta os dois lados na hora dos conflitos e que mantém a calma, pondera e é imparcial", diz Claudia. Ao se portar assim, o gestor ganha a confiança do grupo e estimula que todos se comportem da mesma maneira. 

Além da predisposição por parte da direção, para que as pessoas se sintam à vontade para dar sugestões, fazer críticas ou contar sobre suas inquietações, elas precisam perceber que o que dizem é valorizado. Trabalhar pelo desenvolvimento profissional, por meio da formação, contribui para isso, bem como elogiar e divulgar boas iniciativas. Um ambiente colaborativo também pressupõe troca entre os funcionários, e não apenas entre eles e a chefia. "A construção de vínculos cria uma espécie de liga entre a equipe. Essa integração e a consequente criação de relações de confiança se dão quando se conhece bem cada um", diz Carneiro, do Instituto Alana. Daí a importância de promover, ao longo do ano, e não apenas no último mês de aulas, confraternizações e eventos culturais fora da escola. "Nesses encontros, o grupo passa a se enxergar de outra maneira, ampliando as chances de que as pessoas se identifiquem como parceiros", completa Márcia. 

Na EMEB Julio de Grammont, que tem 613 alunos da Educação Infantil ao 5º ano e 56 funcionários, em São Bernardo do Campo, região metropolitana de São Paulo, as reuniões coletivas eram realizadas com frequência. Ainda assim, merendeiras, vigias e auxiliares de limpeza não opinavam muito, pois os professores eram maioria e acabavam tendo mais demandas, o que inibia os demais. A alternativa foi criar um grupo estratégico, com representantes dos vários segmentos, responsável por discutir as metas para o ano, avaliar o que já foi proposto e o que ainda é possível fazer. "Nos encontros desse grupo, há menos pessoas, então todos se sentem mais confortáveis para falar", conta a diretora, Caroline Guerra Takeuchi. O número menor de participantes ainda permite que as discussões ocorram com uma frequência maior. 

Tudo o que é debatido nessas reuniões é registrado e depois divulgado nos momentos em que a equipe inteira está presente. Neste ano, um dos temas discutidos foi justamente a necessidade de maior integração entre gestores, docentes e outros funcionários. A proposta apresentada foi de incluir, em esquema de rodízio, o pessoal de apoio nas atividades organizadas para as classes fora da escola, como a ida dos alunos a teatros e museus. Eles também foram convidados para as confraternizações. "Fizemos um evento em que as merendeiras assumiram posição de protagonista, dando aula de culinária saudável para os colegas, os estudantes e os responsáveis", conta Caroline. Outra sugestão adotada pela diretora foi apresentar os funcionários novos para as classes, para que eles conheçam mais sobre o trabalho de cada um. "A gente mostra quem atende ao telefone quando os pais ligam, quem prepara o alimento deles e assim por diante." O resultado foi tão bom que a gestão pretende fazer o mesmo no próximo ano, expandindo para todos os profissionais e incluindo as famílias (confira abaixo como as crianças retrataram os funcionários em seus desenhos). 

Essas iniciativas tornaram o clima mais harmônico. "Ainda há o que aprimorar, mas o projeto da equipe estratégica e as ações que surgiram depois dele fortaleceram a união de todos. A relação entre professores e demais funcionários está melhor, o pessoal de apoio percebeu que suas contribuições são relevantes e podem ser colocadas em práticas e, agora, mesmo nas reuniões coletivas, a participação geral é maior", comemora Caroline.

As crianças da EMEB Julio de Grammont desenharam os funcionários após conhecê-los melhor

Ilustração: Melissa Lagôa