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"A escola precisa ensinar a pensar sobre identidade"

Para pesquisadora, as instituições devem reconhecer diferenças entre alunos negros e brancos, discutir preconceitos e estimular o pensamento crítico

POR:
mariana rios
Mary Garcia Castro,

Mary Garcia Castro,
socióloga, pesquisadora da Universidade Católica de Salvador (Ucsal) e autora de estudos sobre relações raciais.

O preconceito racial é replicado de forma velada nas escolas, o que tem contribuído para a continuidade da segregação do negro na sociedade brasileira. Esse é o pensamento da socióloga Mary Garcia Castro, pesquisadora da Universidade Católica de Salvador (Ucsal) e autora de estudos sobre relações raciais. Em pesquisas realizadas em escolas públicas e privadas de capitais brasileiras, em parceria com a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), ela identificou mecanismos que impactam no desempenho de crianças e jovens negros. Na entrevista a seguir, Mary lembra que a escola deve estar atenta a isso e perceber que apelidos e brincadeiras de cunho racista fazem tão mal quanto a falta de um projeto político-pedagógico (PPP) que estimule os estudantes a se posicionar criticamente.

 

 

 

Quais as formas de racismo mais comuns dentro das instituições de ensino?

MARY GARCIA CASTRO Primeiro, existem as sutis. Os jovens que sofrem algum tipo de discriminação social ou que sabem que são tratados como diferentes - como o negro, o gordo, o muito magro e o muito baixo -, até por uma atitude defensiva, se calam. Uma das formas de racismo é o professor não se dar conta de que por trás daquele rosto impassível tem um sofrimento. Outra é não ver a relação entre desempenho e baixa autoestima. E ainda há brincadeiras e apelidos que são muito duros e algumas vezes são reproduzidos até por docentes.


Então, o discurso de que a escola é um espaço de igualdade não é verdadeiro?
Deveria ser, mas não é. Com a democratização e a consequente entrada de vários jovens na escola, sobreveio a ideia de tratar todos como iguais, quando as pessoas não o são. Essa postura produz mais desigualdade porque os desiguais não podem ser tratados como iguais. Se parte da ideia de que todos têm a mesma bagagem cultural e de ensino. E não é isso que ocorre. Nossas pesquisas mostram que os professores, arbitrariamente ou inconscientemente, tratam de uma forma diferente os alunos brancos e os negros, porque estereótipos e estigmas estão enraizados. E o educador é uma pessoa muito importante na vida das crianças e dos jovens, que idealizam esse profissional. Uma atitude negativa de um docente tem uma influência muito grande.

 

Falta um despertar da sensibilidade sobre quem é o outro. Ser preconceituoso vem na nossa carga de herança civilizatória.

 

Por que a discriminação racial presente na escola ainda é uma questão pouco discutida nesse ambiente? 
Porque temos o mito da democracia racial. Ninguém é racista. Racista é o outro. Há também a questão do racismo se reproduzir na mídia, com o reforço dos estereótipos. Vê-se a notícia de que quem roubou é negro e conclui-se que todo negro é ladrão. Isso ocorre porque temos um vício de rotular e a Educação não o combate. Falta um despertar da sensibilidade sobre quem é o outro. Ser preconceituoso vem na nossa carga de herança civilizatória. Então, é preciso investir em pensamento crítico, o que, muitas vezes, não ocorre. A escola deve ensinar a pensar sobre identidade, direitos e deveres.

 

Existe uma relação entre evasão e a necessidade do aluno negro entrar mais cedo no mercado de trabalho?
Claro, mas esse não é o único motivo da evasão. A maioria mora na periferia, em lugares de alto risco - onde há mais oportunidades no tráfico, no crime e no mercado ilegal de baixa renda. Estamos fazendo uma pesquisa agora no Rio de Janeiro, no Complexo do Alemão, com meninos que saíram do tráfico e outros que ainda estão nele. E eles dizem: "O que ganho em uma semana, o meu pai, que é operário, e a minha mãe, que é empregada doméstica, não tiram em três meses". Estamos numa sociedade que não incentiva outras gratificações além da recompensa financeira ou do status. Também é uma falácia dizer que todo mundo no tráfico ganha muito bem, mas tem o prestígio e a fama, que são importantes para a juventude. 


Suas pesquisas mostram uma relação entre racismo e violência nas escolas?
Sim. Muitas pessoas, nas escolas, até se assustam quando enfatizamos que racismo, sexismo e homofobia são tipos de violência. Uma vez encontrei um garoto cujo apelido era "negro fedido". Nós o chamamos para uma conversa particular e ele chorou. Mas, na frente dos colegas, ele dizia que não tinha problema algum ser chamado daquele jeito. Então, é necessário incentivar a percepção sobre aquilo que pode ofender o outro.

 

Estamos numa sociedade que não incentiva outras gratificações além da recompensa financeira e do status.

 

Em 2007, o governo federal tornou obrigatório o ensino de conteúdos relacionados à história e à cultura africanas e afro-brasileiras na Educação Básica. A medida foi uma política pública válida? 
A lei torna o tema obrigatório, mas há uma resistência por parte dos professores. Até pelas condições de trabalho e remuneração, eles consideram uma carga a mais. Além disso, existe um déficit de docentes de História, ou em qualquer outro campo, com esse conhecimento. E as faculdades de Pedagogia não ensinam isso. Quando o fazem é o estereótipo: cultura negra é candomblé, um pouco de escravidão, alguma coisa de folclore. Mas não é isso. A África é um continente muito complexo e pouco conhecido. Aqui em Salvador se tem muito cuidado com o assunto. Na Secretaria Municipal de Educação há cursos preparatórios. Mas ainda são insuficientes. A lei é válida, mas sua implementação não é avaliada, o que seria fundamental.


Foto: Fernando Vivas

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