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Apoiar para não ter de recuperar

Saiba quais são os cinco pontos para implementar um sistema de ajuda pedagógica aos alunos

POR:
Karina Padial e Rosi Rico

Ao longo da vida escolar, praticamente todo aluno passará por momentos em que vai experimentar algum grau de dificuldade para aprender determinados conteúdos. Pode ser circunstancial ou algo que exija atenção prolongada. Em qualquer dos casos, a escola deve estar preparada para amparar o estudante. É importante que seja criado um sistema de apoio pedagógico em que todos - gestores, professores e família - se mobilizem para auxiliá-lo, compartilhando a responsabilidade pelo processo de aprendizagem.

O que ocorre, geralmente, é centrar tudo no aluno, como se a culpa fosse dele. O raciocínio deve ser justamente o contrário: se o estudante não aprende, é a escola que não está dando conta de ensinar. Por isso, é importante que, ao constatar que um estudante não entendeu o que foi apresentado em sala, professor e coordenador reflitam sobre as práticas de ensino empregadas antes de definir a melhor estratégia para ajudá-lo. Afinal, as pessoas aprendem de modos diferentes e talvez o escolhido não seja o mais adequado para aquela criança ou jovem.

"Quando um aluno não realiza uma tarefa escolar, não significa que ele esteja atrasado ou tenha algum problema. Simplesmente pode estar ocorrendo uma inadequação entre o que está sendo proposto e o que o aluno pode realizar naquele momento. Melhor dizendo: o aluno tem potencial e pode realizar até mais do que a escola está oferecendo; o que lhe falta é possibilidade de mostrar o que já sabe e, em contrapartida, entendimento, por parte da escola, para enxergar por que ele não está produzindo dentro do padrão esperado", diz Cecília Iacoponi Hashimoto, em um dos artigos do livro O Coordenador Pedagógico e o Espaço da Mudança (128 págs., Ed. Loyola, tel. 11/3385-8500, 20,30 reais), da coleção O Coordenador Pedagógico.

Quando não há entendimento, corre-se o risco de criar um círculo vicioso do qual o estudante, em geral, não consegue sair sozinho. "Diante de situações que provocam sentimento de impotência, a saúde mental das crianças exige que elas se desinteressem, porque é da condição humana não suportar o fracasso continuado. Portanto, antes que os alunos desistam de aprender o que não estão conseguindo, a escola precisa criar formas de apoio à aprendizagem", diz Telma Weisz, no livro O Diálogo entre o Ensino e a Aprendizagem (136 págs., Ed. Ática, tel. 11/4003-3061, 49,90 reais).

Trata-se de um trabalho constante. Muitas escolas, porém, ainda fazem recuperação só no final do semestre, desconsiderando o fato de que o conteúdo não compreendido pelo estudante ao longo do ano dificilmente o será em algumas aulas durante poucas semanas. Também não adianta oferecer opções apenas para que ele melhore a nota e não seja reprovado. A lógica deve ser outra. "É necessária uma ressignificação para mostrar que o apoio existe para garantir o aprendizado do aluno, e não apenas para que ele passe de ano. Nota é consequência", diz Maria Celina Melchior, avaliadora institucional do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e autora do livro O Sucesso Escolar Através da Avaliação e da Recuperação (104 págs., Ed. Premier, tel. 51/3066-2731, 12 reais).

Obter ajuda precisa ser entendido como algo natural e de acesso a todos, sem a visão ainda existente em muitos lugares de que o estudante que não aprendeu é aquele fraco, lento ou problemático. Na criação dessa nova concepção, a nomenclatura é importante. Os educadores não utilizam mais os termos "recuperação" e "reforço". "Nesse caso, o nome faz diferença. Essas palavras carregam a ideia de que será oferecido mais do mesmo", afirma Rosaura Soligo, coordenadora de projetos do Instituto Abaporu e pesquisadora do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Continuada da Universidade Estadual de Campinas (Gepec-Unicamp). Para ela, o melhor é utilizar o nome "grupo de apoio". "'Recuperação' é associado a algo temporal, só no fim do ano. Com apoio, o objetivo é esclarecer que se trata de um direito, algo que faz parte da escolaridade e está disponível todos os dias", completa Fátima Fonseca, coordenadora pedagógica da Comunidade Educativa Cedac. O principal problema, contudo, é que as palavras "recuperação" e "reforço" enfatizam o fracasso da criança ou do jovem e isentam a escola de responsabilidade.

A existência de um sistema de apoio bem-feito dentro das escolas também poderia colaborar para reduzir o número de alunos com defasagem idade-série, ou seja, que está com idade superior à esperada para aquela etapa escolar. Trata-se de um problema grave no país. Em 2013, o índice nos anos iniciais do Ensino Fundamental foi de 15%, ou seja, de cada 100 alunos, 15 estavam com atraso de dois anos ou mais. O porcentual aumenta conforme se avança na escolaridade, com 28% nos anos finais do Ensino Fundamental e 30% no Ensino Médio, segundo informações do Censo Escolar, realizado anualmente pelo Inep. "Não é a única solução, no entanto, se a proposta de grupos de apoio fosse implantada de forma efetiva nas escolas, isso ajudaria a diminuir esse índice", diz Fátima. "Mas em geral o que ocorre hoje é o apoio chegar depois, quando já há muitos alunos com defasagem."

Para evitar esse cenário, cabe aos diretores e coordenadores, além de estimular e estruturar um sistema de apoio, envolvendo todos dentro da escola, favorecer condições para que tudo funcione da melhor maneira possível. Nesta reportagem, abordamos cinco pontos que podem contribuir na implantação desse tipo de política.


  • Veja galeria de fotos do projeto da EMEF Professora Delly Gaspar dos Santos, em Jacareí, SP:

PPP deve prever ajuda

Antes de planejar o sistema de apoio mais adequado, a escola precisa refletir sobre suas práticas. Se o projeto político-pedagógico (PPP) define as propostas educativas de uma instituição, ele também deve prever o que fazer quando a criança ou o jovem, por algum motivo, não consegue aprender. "Tudo gira em torno de um bom procedimento no PPP, que deve ter a visão de recomposição do processo de aprendizagem quando for preciso", diz Vera Placco, professora do Programa de Pós-Graduação em Educação: Psicologia da Educação, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e coorganizadora da coleção O Coordenador Pedagógico, que inclui O Coordenador Pedagógico e Questões da Contemporaneidade (142 págs., Ed. Loyola, tel. 11/3385-8500, 37,10 reais).

Entre as metas a cumprir, portanto, é fundamental incluir a estruturação de um sistema de apoio pedagógico, a ser definida coletivamente. Mas, mais do que detalhar cada passo, o PPP aponta qual a concepção que irá nortear esse processo. É nele que estarão expressos os propósitos a se atingir, como a criação de uma cultura de responsabilidade compartilhada, o comprometimento com a oferta constante de ajuda ao aluno e mesmo a definição, na formação de professores, de propostas pedagógicas que incluam a possibilidade da retomada de conteúdos de maneiras diferenciadas.

Uma vez em desenvolvimento, é necessário que a equipe gestora oriente e acompanhe o processo de avaliação dos estudantes que participam desses grupos. Deve também analisar, em parceria com os professores, se o projeto está alcançando seus objetivos para, sempre que for preciso, promover reformulações. O importante é que o apoio realmente faça diferença na aprendizagem de crianças e jovens.

 

O que fazer com o diagnóstico

Para promover o progresso do estudante, é preciso identificar o que o aluno sabe e em quais conhecimentos ele deve se apoiar para avançar. O diagnóstico, portanto, não pode ser genérico. Quanto mais específico sobre a natureza do conteúdo, mais eficiente será a escolha do apoio necessário. "Identificar claramente quais são as dificuldades é importante, porque, às vezes, o problema pode ser apenas de ritmo ou circunstancial, algo a ser resolvido no processo normal da sala de aula, o que é sempre melhor", diz a professora Vera Placco.

Além da observação e do acompanhamento diário do professor, as informações extraídas das avaliações e das produções dos alunos são aliadas importantes para definir as necessidades do estudante. Muitas vezes, é possível traçar as primeiras estratégias antes mesmo do início das aulas, utilizando como base análises e recomendações feitas no ano anterior.

O coordenador pedagógico precisa acompanhar esse processo orientando os docentes a organizar os dados recolhidos e a preparar o diagnóstico da aprendizagem dos alunos. A análise de tudo é feita em conjunto com o professor da turma. "Os gestores devem garantir que as informações circulem e não fiquem retidas com o professor que dá as aulas regulares. Elas devem ser compartilhadas com diretoria, coordenadores pedagógicos e professores do grupo de apoio para que possam elaborar um plano de ação", afirma Mara Parisi, formadora de gestão educacional da Comunidade Educativa Cedac. Ao preparar o planejamento, é fundamental recorrer a essas informações que nortearam as tomadas de decisões, por exemplo, quanto à organização dos alunos e dos materiais.

Há várias opções para se oferecer apoio pedagógico. Muitas vezes a definição do que pode ser feito é das secretarias de Educação, que disponibilizam os recursos humanos e materiais necessários. Mas os gestores também têm alternativas. Se a escola não conseguir professores específicos para o apoio, tem como opção utilizar os próprios educadores. "Eles podem ser estimulados a pensar coletivamente, debatendo e dividindo as atividades entre si", diz Rosaura. Ela sugere, por exemplo, que, algumas vezes por semana, estudantes de classes diferentes sejam reagrupados conforme questões específicas de aprendizagem e que cada educador assuma o trabalho com aqueles cuja necessidade tenha mais a ver com a experiência dele. São as chamadas turmas flexíveis.

Também na sala de aula regular, o professor tem a possibilidade de preparar atividades diferenciadas para níveis variados de conhecimento ou organizar monitorias aluno-aluno, em que um colega ajuda o outro. O que não deve ocorrer é uma diferenciação que exponha os alunos. "Deixar um grupo resolvendo questões complementares em sala enquanto os demais são encaminhados para a quadra pode gerar um problema, porque, para o estudante, é como se fosse prêmio para os outros e castigo para ele", alerta Rosaura, do Instituto Abaporu.

Quando houver necessidade e condições, pode-se organizar aulas individuais ou para um conjunto pequeno de alunos no período oposto ao regular algumas vezes por semana. Vera sugere também que, para o Ensino Médio, sejam criados grupos de estudos entre os próprios estudantes, apenas com supervisão do professor. "Aprender bem com seus pares é princípio básico da Educação. No caso dos jovens, ajuda o fato de o linguajar deles ser mais objetivo e sintético do que o dos adultos", diz a professora da PUC. De acordo com a estudiosa, eles ganham também a experiência da autonomia, que pode ser vivenciada aos poucos ao longo de todas as etapas do ensino como forma de preparação para esse momento.

 

Formação criteriosa do professor

Escolher bem o educador que irá conduzir o grupo de apoio determina se a estratégia planejada para os estudantes que não conseguem aprender determinados conteúdos será ou não bem-sucedida. Não é o estagiário inexperiente e sem supervisão nem o docente readaptado. Não é aquele que prefere poucos alunos na sala para não ter muito trabalho. O educador deve aceitar enfrentar o desafio, mesmo que para isso seja necessário rever a própria metodologia e encontrar formas de ensinar que dialoguem com o que os alunos sabem. "É preciso que seja alguém que se comprometa com a turma, que não reforce o estigma de fracasso e também esteja disposto a estudar", esclarece Mara.

Definidos os professores, o diretor deve incentivar a regularidade das reuniões para a formação tanto daqueles que só atuam com os grupos de apoio quanto dos regulares que acumulam a função. Ao coordenador cabe o planejamento dessa formação. Os gestores precisam também garantir a circulação de informações e estimular a articulação entre os educadores. "O professor regular deve compartilhar com o docente do grupo de apoio um relatório sobre o que foi feito em sala, como foi feito e qual a dificuldade apresentada", diz Maria Celina. "Ele não pode lavar as mãos ao enviar o aluno para o apoio. Sua responsabilidade se mantém."

Essa troca de informações também é importante quando o gestor utiliza apenas os educadores regulares, mas com turmas flexíveis e reagrupamentos. Compartilhar o planejamento e a avaliação permite que se possa trocar impressões e discutir encaminhamentos. Outra preocupação é que todos falem a mesma língua. O conteúdo que o professor do apoio dará é diferente do que foi visto na sala regular, mas deve seguir a mesma direção do que foi proposto. "Esse professor precisa estar afinado com a filosofia e as propostas de ensino da escola. Ele deve conhecer e se comprometer com seu projeto", afirma Vera.

Para ajudar os professores a refletir sobre o papel deles no desenvolvimento do trabalho de apoio e as práticas adotadas nas escolas, Rosaura costuma iniciar suas formações pedindo a eles que escrevam um depoimento sobre a vivência escolar na época em que eram crianças ou jovens. O relato deve responder à pergunta: "Como você foi tratado quando teve alguma dificuldade de aprendizagem?". Depois, ela pede que compartilhem os textos. "É uma maneira de recuperar a condição de aluno do educador, que durante muitos anos esteve naquela posição, mas nem sempre se lembra disso em suas reflexões. Assim, começamos o processo de debate humanizando o olhar em relação ao que ocorre com os estudantes", explica a pesquisadora. Quando a dinâmica é feita com docentes que ainda não se conhecem, contribui também para a troca de experiências pessoais.

 

Organização de espaço, tempo, material e pessoal

Para que o sistema de apoio pedagógico funcione, os gestores devem organizar a estrutura das escolas, que inclui salas adequadas para aulas extras, com o mesmo suporte que é oferecido durante o período regular. Improvisar espaços reforça no aluno a impressão de que está sendo colocado de lado ou de que ele é um problema para a instituição.

O quadro de horários também necessita ser planejado para incluir os grupos de apoio. As aulas podem ocorrer na sequência do período escolar, por exemplo, para evitar o deslocamento dos alunos. Antes de definir, porém, é recomendável que o diretor consulte estudantes e famílias sobre a disponibilidade para frequentar a escola em um período diferente do regular, como maneira de garantir a presença nas aulas complementares. Em casos específicos, e se a instituição tiver condições, podem ser estipulados horários aos sábados para atender aqueles que não conseguem estar presentes durante a semana.

Se a opção for pelo contraturno, é de responsabilidade da equipe gestora toda a logística envolvida. Se os alunos ficarem direto até o horário da aula no grupo de apoio, esse intervalo precisa ser planejado. Devem ser também consideradas a alimentação das crianças ou dos jovens e a supervisão deles nesse período e o que isso acarreta em termos de material extra e remanejamento de pessoal. "Em geral, esse intervalo coincide com a entrada dos estudantes do outro turno, o que exige atenção e reflexão sobre o impacto disso na estrutura e na logística da escola", diz Rosaura.

Para os estudantes que precisam se deslocar, o diretor pode solicitar transporte escolar gratuito, nos lugares em que as secretarias oferecem o serviço. Também para as secretarias são encaminhados os pedidos para contratação de professores para as aulas no contraturno. Algumas oferecem material pedagógico específico para os grupos de apoio. "Todo detalhe é importante. A equipe gestora deve fazer o planejamento pedagógico e logístico, refletindo sobre tudo que é necessário e quais imprevistos podem ocorrer", completa Rosaura.

 

Envolvimento de pais e alunos

É importante que os estudantes sejam estimulados a participar dos grupos de apoio, que possam entrar e sair conforme suas necessidades e encarem isso de forma natural dentro do processo de aprendizagem. Eles não devem se sentir estigmatizados ou isolados por serem menos inteligentes, mas, sim, estimulados a acreditar na própria capacidade de aprender. Para Rosaura, a maneira como é dada a notícia de que o aluno precisa de apoio é decisiva para sua real adesão e consequente resultado do trabalho. Esclarecer o que será feito e qual a finalidade é essencial. "Como combater a fantasia de que quem vai estudar com um grupo específico é pior? Explicando a proposta, dizendo que todos têm dificuldade em alguma ocasião, que o apoio é para ajudar no que cada um está necessitando naquele momento e que talvez ele não precise depois", diz a pesquisadora do Gepec.

A mesma explicação detalhada sobre a proposta de apoio deve ser feita às famílias, que são fundamentais para estimular os estudantes e garantir a presença, principalmente quando as aulas forem em horários diferentes das regulares. Já na primeira reunião de pais, pode ser apresentado o sistema de apoio. Assim, quando o estudante precisar, os responsáveis não serão surpreendidos. Afinal, assim como os alunos, eles também têm de considerar o apoio como parte corriqueira da vida escolar. Isso, no entanto, nem sempre é fácil. Muitas famílias vinculam qualquer necessidade de atenção especial com fracasso. "Algumas acreditam que a criança ou o jovem simplesmente não consegue aprender e que não há nada a ser feito. Outras se contentam com notas medianas e acham desnecessário o apoio", afirma Mara, do Cedac.

Cabe aos gestores, em conjunto com os docentes, convencer os pais de que o apoio é uma forma efetiva - e uma oportunidade a mais - para melhorar a aprendizagem dos filhos. Segundo Rosaura, "se não houver alinhamento de discurso entre escola, família e estudante, o resultado, em geral, é péssimo". Por outro lado, quando os responsáveis se tornam aliados, o processo é facilitado. "Eles devem conhecer a proposta e ter confiança no que está sendo proposto. Precisam sentir-se livres para, ao identificar uma dificuldade, procurar a escola", defende Vera.

Controlar a frequência dos alunos dos grupos de apoio é fundamental. Mas não basta monitorar. O diretor tem de definir o que deve ser feito em caso de faltas e quem irá fazer o que foi planejado. No decorrer do ano, durante as demais reuniões com as famílias, é importante retomar as explicações sobre o sistema de apoio e detalhar o andamento das atividades.


  • Ouça o depoimento de Suzette Chabalgoity, coordenadora pedagógica da EM Vereador Carlos Pessoa de Brum, em Porto Alegre:


Ilustração: Bruno Algarve