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Com a palavra, as crianças

Escolas de Educação Infantil de Curitiba envolvem os pequenos em decisões administrativas e pedagógicas

POR:
Aurélio Amaral e Karina Padial
Hora de escolher No CMEI Arnaldo Carnasciali, debate reúne dois representantes de cada sala quinzenalmente

Lilás, azul, rosa, verde ou branco? A cor de uma casinha de madeira poderia ser decidida arbitrariamente por um adulto. Mas para as crianças do CMEI Arnaldo Carnasciali, em Curitiba, que brincariam no espaço diariamente, a pintura não era um mero detalhe. Os maiores interessados, todos com até 5 anos, tinham uma posição unânime: queriam o branco. Não era essa a preferência dos professores e gestores, mas o desejo foi ouvido, avaliado e acatado pela direção. Desde 2008, essas e outras questões administrativas e pedagógicas são tratadas dessa maneira, graças à criação do conselho mirim - uma assembleia formada pelos pequenos. 

A ideia nasceu com o projeto institucional A Voz da Criança, que buscava tornar a gestão mais democrática. A comunidade já participava ativamente da rotina da instituição por meio do conselho escolar. Porém, incluir as crianças no processo era um desafio. Nos encontros de formação, a coordenação pedagógica orientava os professores a valorizar as opiniões dos pequenos. No entanto, quando o assunto era de interesse geral do CMEI, não se conseguia aferir as impressões das seis turmas. 

O conselho mirim preencheu bem essa lacuna. Formado por dois representantes de cada sala com crianças de 2 a 5 anos - apenas o berçário não participa -, ele se reúne a cada 15 dias para referendar as deliberações do conselho escolar e para debater outros temas. A cada encontro, os membros se revezam, para que todos participem. Na pauta, constam decisões sobre melhorias no espaço físico, a compra de materiais e a organização de eventos. Toda a programação da festa junina, por exemplo, foi montada com base nas ideias da assembleia. 

É claro que alguns assuntos, como finanças, são tratados apenas entre os adultos e outros dependem de uma curadoria da equipe gestora. No caso da compra de materiais, a verba é definida anteriormente pelo conselho escolar e a coordenação pedagógica faz uma pré-seleção dos itens que poderão ser adquiridos, com base nas necessidades de ensino. Só então as opções são apresentadas aos pequenos. 

Quando foi proposto que as turmas escolhessem a música dos horários de entrada e saída, os gestores sugeriram que os artistas não fossem os mesmos que as crianças estavam acostumadas a ouvir em casa. Dessa maneira, a iniciativa também contribuiria para ampliar o repertório cultural. "Além do objetivo da participação democrática, queremos que o conselho seja um espaço de aprendizagem", explica a diretora, Vanessa Sousa Lima Martinez.

Assembleia contribui para um bom clima escolar

 

 

Diretores e coordenadores também aprendem durante o processo. Afinal, eles precisam lidar com os imprevistos de um canal de discussão amplo como esse - que pode dar abertura a reclamações e pedidos que não procedem. Certa vez, um menino sugeriu a construção de uma piscina no CMEI. Diante da solicitação, Vanessa e a pedagoga Juliane Genguini discutiram com todos se a obra era viável e se ela representava realmente uma prioridade. Os pequenos, então, entenderam que a tomada de decisões muitas vezes depende de fatores alheios às vontades pessoais. 

Ainda no primeiro ano da iniciativa, percebeu-se melhora no clima escolar. Como as opiniões são levadas em conta, as crianças se identificam mais com a instituição e se sentem parte dela. Os pequenos apresentam hoje um desenvolvimento mais acelerado da oralidade e interagem mais com os colegas. Para a escola, o principal aprendizado foi o exercício da escuta. 

Os resultados foram tão significativos que, em 2010, o projeto foi elogiado no seminário anual de boas práticas de gestão da rede de ensino e a diretoria de Educação Infantil da Secretaria passou a dar assessoria a outras unidades interessadas em implantar a iniciativa. Hoje, 23 CMEIs - uma em cada dez instituições de Educação Infantil da rede - têm conselho mirim. "Além de orientar as escolas na elaboração de projetos, a rede deve estimular a divulgação de experiências positivas para que elas possam ser replicadas e se tornarem políticas públicas", diz Ida Regina Milleo de Mendonça, superintendente de Gestão Educacional do município. 

A proposta para a implantação dos corpos consultivos mirins em outros CMEIs dá liberdade para que cada instituição defina a periodicidade e a pauta dos encontros, a forma de eleição dos conselheiros e os assuntos sobre o qual eles devem arbitrar. No CMEI Autódromo, que implantou a iniciativa em 2013, os dez membros, que têm entre 3 e 5 anos, foram escolhidos pelos próprios colegas. Para prepará-los para o processo eleitoral, as professoras leram e discutiram o livro A Eleição da Criançada e Outras Histórias de Cidadania, de Pedro Bandeira (24 págs., Ed. Melhoramentos, tel. 11 3874-0880, 32 reais), com as crianças e explicaram as funções que os representantes do órgão exerceriam. "Eles mostraram muito interesse e, rapidamente, surgiram vários candidatos com excelentes propostas, como a compra de novos livros, brinquedos e jogos para o computador", conta a diretora, Elizabeth Terezinha Schneider. Pouco depois, os temas já tinham se transformado na pauta da reunião do grupo e saiu a primeira decisão do novo órgão: passar em cada classe para fazer uma lista dos brinquedos que todas as turmas queriam. Entre os mais votados estiveram um quebra-cabeça tridimensional e um boneco de dinossauro. 

Natallie Yasmin Lima da Costa, 5 anos, é uma das "conselhistas", como ela diz, desde o ano passado. "É legal porque a gente fala um monte de coisas de brincar. E aí escolhe", conta a menina, entusiasmada porque os amigos tinham gostado de sua sugestão de incluir a dança da cadeira entre as brincadeiras que seriam feitas com os pais em um encontro marcado pela escola. Depois, ela avisa todos os colegas sobre o que foi conversado. E é assim, tomando decisões, entre outras coisas, sobre o brincar, que eles aprendem desde cedo sobre democracia.

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