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Mais momentos para a criança decidir na pré-escola

Organize o horário para garantir o equilíbrio entre atividades orientadas e as de livre escolha

Como era na rua: Metade do período é dedicado a brincadeiras livres em vários espaços da Casa Via Magia. Foto: Fernando Vivas

Sugerir atividades ou deixar as crianças decidirem como vão brincar? Na pré-escola, essa é uma equação que precisa ser balanceada. Segundo pesquisa da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), para haver aprendizagem significativa e estímulo a todos os aspectos de desenvolvimento da criança, o ideal é haver tanto atividades com iniciativas delas quanto orientadas pelos adultos. No entanto, um estudo feito em seis capitais brasileiras pela Fundação Carlos Chagas (FCC), sob encomenda da Fundação Victor Civita (FVC), ambas em São Paulo, mostra que há pouca margem para os pequenos exercerem autonomia. "Na maior parte do tempo, a professora trabalha com o grupo todo e em atividades dirigidas", afirma Maria Malta Campos, uma das coordenadoras do estudo. 

Vital Didonet, vice-presidente da Organização Mundial para a Educação Pré-Escolar (Omep), ressalta que a liberdade e a espontaneidade são características essenciais do brincar. "A criança deve ser o sujeito do ato lúdico, sentindo gosto e interesse e podendo dar novo rumo e encontrar outras formas de experimentar e realizar seu desejo. Sem isso, deixa de ser brincar para ser exercício didático", afirma. Cabe ao coordenador pedagógico, portanto, orientar a equipe (veja quadro abaixo) a dar condições para que as crianças desenvolvam o potencial durante as brincadeiras sem que, no entanto, caiam na tentação de dirigi-las.

Tempo planejado

Oriente os professores a organizar as atividades de livre escolha com base nas seguintes recomendações:

  • Observar e registrar gostos, interesses, aptidões e necessidades dos pequenos.
  • Estar disponível para brincar como coadjuvante, mas sem sugerir encaminhamentos ou direcionar agrupamentos entre as crianças.
  • Colocar à disposição materiais para estimular as brincadeiras.
  • Mediar situações de conflito, caso ocorram.
  • Aproveitar iniciativas tomadas pelos alunos para transformar temas de seu interesse em elementos para atividades didáticas orientadas.
  • Intervir, se necessário, para ajudar a criança no que ela está criando ou para esclarecer regras das brincadeiras, por exemplo.
  • Respeitar combinados selados entre as crianças para as brincadeiras.
  • Fazer um quadro de controle das atividades para garantir que todos tenham a oportunidade de, ao longo dos dias, experimentar outras opções.

 

Para que os momentos de escolha sejam ricos, é necessário uma preparação tão ou mais complexa que os períodos em que a classe segue orientações do professor. A alternância entre situações de escolha e dirigidas deve ocorrer diariamente. Por isso, vale a pena verificar se os momentos estão bem distribuídos no planejamento do professor. Não é desejável, por exemplo, sugerir em um dia apenas atividades de escolha e, no seguinte, propor só dirigidas. A organização do tempo varia se a instituição funcionar em meio período ou em tempo integral. Mas, segundo Maria Vírginia Gastaldi, consultora em Educação Infantil, os seguintes pontos são indispensáveis a qualquer planejamento:

Organização anterior dos ambientes. O coordenador deve orientar os docentes para organizar as crianças em grupos de quatro. Jogos simbólicos, de expressão plástica, de construção e de tabuleiro e um canto de leitura são algumas atividades interessantes a ser oferecidas. A professora pode dar atenção em um grupo em que surgem dúvidas, mas é preciso haver materiais com que os alunos já saibam lidar ou possam criar sozinhos. Assim, sobra mais tempo ao adulto para observar e identificar pontos a trabalhar com a turma e com cada criança.

Registro e estudo do comportamento das crianças. A observação deve gerar registros em textos, fotos, vídeos ou planilhas. Com base no material, a coordenação pedagógica e o professor decidirão as atividades mais pertinentes nos períodos de regência. "Se o grupo demonstra interesse por insetos, por exemplo, pode-se fazer uma aula sobre o tema. Caso se note excesso de individualidade em alguns alunos, é possível criar atividades, durante o tempo orientado, que estimulem o trabalho coletivo, explica Virgínia. Quanto mais a criança aprende nas aulas em turma, mais consegue aprofundar e diversificar a brincadeira no tempo livre.

Disponibilidade para interferir. Se houver conflito, deve-se interromper a brincadeira para solucioná-lo. A intervenção também é necessária em caso de esgotamento da atividade. Nessa situação, o professor deve estar preparado para oferecer novas possibilidades para as crianças escolherem.

 

Espaço para brincar e conviver 

A Casa Via Magia, em Salvador, valoriza um espaço de convívio livre, que funciona como "a calçada que as crianças de antigamente dividiam", conta a coordenadora pedagógica, Karine Matos Araújo. Lá, a brincadeira livre ocupa duas das quatro horas e meia em que as crianças permanecem no local e podem ser feitas em todos os ambientes da escola individualmente ou nos agrupamentos feitos pelos alunos. 

"Eles já sabem que podem pegar livros, construir castelos, usar fantasias, brincar no parque ou montar um grupo e pedir um jogo à professora, conta Karine. Segundo ela, além dos postos fixos de brincadeiras sempre abertos, diariamente os educadores disponibilizam materiais diversos conforme conhecem os interesses dos alunos ou percebem necessidades. Durante esse tempo, a postura do professor é de observação e de se colocar como elemento disponível para o que a criança está criando. "Ele intervém, por exemplo, se percebe sinais, verbais ou não, de que uma discussão pode virar briga ou de que um grupo precisa de ajuda para elaborar mais a brincadeira. Não são ações com o objetivo de dirigir a atividade." 

Os momentos de escolha ocorrem durante uma hora e meia na chegada e a meia hora antes da saída. No restante do tempo, há brincadeiras, mas organizadas por grupos por faixa etária e propostas pela educadora para atingir objetivos específicos de desenvolvimento. 

 

Preparar, receber e já!

Cantos diversos: No CMEI Santa Felicidade, há propostas diferenciadas pela manhã e à tarde. Foto: Marcelo Almeida.

No CMEI Santa Felicidade, em Curitiba, os tempos de livre escolha são organizados em cantos de atividades diversificadas arrumados com antecedência. Por ser uma escola de tempo integral - em média as crianças permanecem na unidade por dez horas -, eles ocorrem de manhã e à tarde com características diferentes. 

Logo na entrada, os alunos são direcionados em turmas por idade. As professoras recepcionam a cada um e apresentam cerca de cinco atividades para brincadeiras. Elas participam e estudam interesses e peculiaridades de cada aluno por uma hora e meia. "Percebemos que com esse tempo institucionalizado, os alunos passaram a ser ouvidos pelas professoras. Aos poucos, as crianças dizem o que querem fazer e os cantos passam a ser configurados por elas", conta a diretora, Soraya do Rocio Gaspari. 

No meio da tarde, abre-se outro tempo de até uma hora e meia para atividades diversificadas com a convivência entre as turmas. As professoras se fixam em espaços diferentes e recebem alunos de idades diversas que vão brincar juntos e criar com os materiais oferecidos. A coordenadora pedagógica, Noemi de Freitas, avalia essa situação como a mais rica. "A gente percebe que as crianças acham isso muito natural, elas se organizam, se ajudam e dão papéis para os colegas conforme suas capacidades." Segundo ela, por causa disso, as atividades orientadas, que ocupam o restante do tempo, também passaram a ser desenvolvidos em grupos heterogêneos.

Bibliografia

Qualidade em Educação Infantil, de Miguel Zabalza, 288 págs., Ed. Penso, tel. 0800 703 3444, 57,60 reais (e-book)

 

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