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Esporte inclusivo para todos

Saiba como garantir as condições para os alunos com deficiência participarem das atividades de Educação Física

POR:
Beatriz Santomauro
Futebol inclusivo: Antes competitivas, as atividades na EM Cid Passos, em Salvador, hoje são colaborativas. Foto: Fernando Vivas.

Na Educação Física, existe a máxima de que o mais importante é participar, correto? Mas será que sua escola está assegurando a todos os alunos esse direito? É comum que os estudantes com deficiência fiquem de fora das aulas dessa disciplina - seja pela infraestrutura inadequada ou por uma lacuna de formação do professor para incluí-los nas atividades. 

Por se tratar de uma questão que envolve não apenas a equipe docente mas também os gestores, o Instituto Rodrigo Mendes (IRM), em São Paulo, a Fundação Barcelona, na Espanha, e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) promoveram uma formação continuada em Educação Física Inclusiva voltada para coordenadores pedagógicos, diretores, professores regentes das turmas e especialistas na disciplina. 

O curso, com duração de seis meses em encontros semanais de cinco horas, teve como proposta mesclar aulas teóricas e aplicações práticas. Os profissionais de cada escola deveriam elaborar um projeto institucional que levasse em conta os conhecimentos adquiridos e as necessidades locais, trocando ideias com os tutores e os colegas de outras escolas. "A Educação inclusiva é responsabilidade da comunidade escolar. Por isso, todos devem participar do processo de acolhimento do estudante com deficiência, da reflexão sobre o direito à igualdade e o respeito às diferenças, o desenvolvimento das estratégias pedagógicas que favoreçam a criação de vínculos afetivos, as relações de troca e a aquisição de conhecimento", afirma Luiz Henrique de Paula Conceição, do IRM, que formulou um modelo de projeto institucional. 

A atividade proposta também deveria garantir a integração, o envolvimento e a participação geral daqueles com deficiências e também dos mais gordinhos ou dos menos ágeis - normalmente excluídos das aulas de Educação Física. Era necessário, portanto, abandonar a ideia de esporte de alto rendimento, em que o bom é forte e eficiente. "E para garantir que todos participem e tenham igualdade de oportunidades na atividade cabe à escola pensar em outras regras e recursos", diz Rodrigo Mendes, presidente do IRM.

Cultura popular é tratada nas aulas

Confecção conjunta: Na EMEF Teotônio Vilela, em São Paulo, Ivana, professora da sala de apoio, ajuda os alunos com NEE a fazer as pipas. Foto: Raoni Maddalena.

A EMEF Senador Teotônio Vilela, em São Paulo, não explorava tão bem o espaço e faltavam atividades que levassem em conta os 39 alunos com deficiência. Em geral, a equipe docente considerava as aulas de Educação Física um momento de exploração dos esportes de alto rendimento. 

Para reconceitualizar a disciplina, a coordenadora pedagógica, Lucineia da Silva Santos, propôs, nas reuniões de formação, a exploração de brincadeiras da cultura popular com a organização de oficinas com as turmas de 3º ano. A equipe entendeu que, por ser a primeira experiência, seria melhor escolher as crianças de uma só série e, com base nos erros e acertos, fazer propostas semelhantes para outros anos. 

Com isso, uma vez por semana e durante as aulas de Educação Física, houve construção de pipas, do jogo cinco-marias - saquinhos de pano preenchidos com arroz - e do vaivém - feito com dois fios de barbante e uma garrafa PET que percorre o fio de um lado a outro. Em seguida, partiram para a prática da brincadeira e da reflexão sobre as melhores estratégias para jogar bem. 

Pela primeira vez, a equipe pensou junta, articulada, sobre as estratégias variadas que poderiam atender às necessidades das crianças do 3º ano - incluindo os cinco estudantes com deficiência. 

Para as três crianças com deficiência intelectual, a professora da sala de apoio Ivana Oliveira sugeriu que seria produtivo o trabalho em duplas, com o incentivo vindo de outra criança e uma progressiva construção da autonomia. No trabalho com a menina autista, a aproximação e o toque de outra pessoa já era um desafio, mas com respeito à forma de ela interagir com a atividade foi possível trabalhar com as demais e colar a pipa. E, para aquela com deficiência múltipla, dentre elas a baixa visão, manipular o papel de seda e a vara, notar texturas, sons e formatos foi bastante estimulante. 

Entre uma oficina e outra, os profissionais da escola se reuniam e avaliavam o andamento do trabalho para garantir a participação irrestrita: eles se revezavam para estar com as turmas, observar as dificuldades e habilidades e trocar experiências. "Percebemos que as crianças com deficiência interagem mais quando estão fazendo as mesmas atividades dos colegas, mesmo que precisem de apoio. Esse projeto foi o primeiro passo para construirmos um olhar que agrega a todos", diz José Brassioli, coordenador de Educação Física do CEU Paz, que funciona no mesmo ambiente da EMEF, e que foi um dos participantes da formação continuada. As entrevistas feitas com as famílias no início e no fim do projeto apontaram que houve mudanças com as crianças, como melhora na sociabilização, vontade de ir para a escola e de participar. "Percebi que trabalhar sozinha pensando na inclusão tem menos efeito que pensar com o restante da equipe, circular pela escola, trocar experiências", diz Ivana.

Jogos e brincadeiras animam a turma toda 

Antes da formação continuada, as atividades da EM Cid Passos, em Salvador, eram planejadas para a maioria, sem um olhar específico para quem não conseguia acompanhar os desafios. O projeto capitaneado pelo diretor, Uilton Lopes Vieira, teve como objetivo adaptar os esportes levando em conta a participação de todas as crianças nas aulas de Educação Física, dos 3 aos 11 anos. Para isso, foi necessário reunir a docente Alda Nascimento e Reginalva Santos, responsável pelo atendimento da sala de apoio, para discutir as atividades e planejar os materiais necessários. 

Alda montou circuitos para que os pequenos de todas as séries experimentassem vários esportes, como a corrida com obstáculos, o futebol de mãos dadas e o zigue-zague contornando cones, variando conforme as possibilidades de cada idade. Nas turmas em que havia crianças com deficiência, Reginalva contribuía. Por ter contato frequente com essas crianças, ela conhece as potencialidades de cada uma. "Mas, em vez de trabalhar com elas sozinha em minha sala, agora sou parceira da professora nas aulas", diz. 

As 12 crianças que ela atendia tinham baixa visão, autismo e deficiência intelectual. Durante a prática do futebol de mãos dadas, um dos alunos ficava de olhos vendados e o outro guiava a dupla na corrida pela bola, o que foi um grande desafio para o deslocamento de todos. "Como intercalamos as crianças que ficavam de olhos fechados e abertos, agindo como guia do colega, às vezes era a criança com baixa visão que direcionava, mudando os papéis e as formas de participação", explica Reginalva. 

No começo do projeto, a escola estava sem coordenação pedagógica. Mas, desde que Elidê Jesus assumiu essa função, houve um grande ganho. "Nos encontros regulares com toda a equipe, compartilhamos o projeto institucional e a intenção do que deve ser a inclusão da Educação Física. Assim, todos os profissionais da escola passaram a assimilar os valores de uma escola inclusiva", diz Elidê.

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