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O professor certo para a turma certa

Na hora de atribuir aulas, use a combinação que atende melhor às necessidades de cada turma

POR:
Elisângela Fernandes

O começo do ano letivo traz o desafio de definir em quais turmas os professores serão alocados. Como conciliar a disponibilidade de horário e as necessidades pessoais e profissionais? Algumas redes de ensino têm legislação própria sobre o assunto e, na maioria delas, quem soma mais tempo de serviço e maior pontuação na carreira ganha prioridade na escolha - o que não é recomendável. Mesmo nas escolas que dispõem de mais autonomia, geralmente a preferência é dos profissionais mais antigos. 

Segundo Andrea Caldas, professora adjunta do Setor de Educação da Universidade Federal do Paraná (UFPR), esse critério - enraizado na cultura do Brasil - faz com que os mais experientes optem pelas turmas com melhores resultados e bom histórico de aprovação. Os alunos com dificuldade de aprendizagem, consequentemente, acabam estudando com os professores novatos, com menos qualificação. "Por isso, o ideal é que a atribuição seja feita com base em critérios pedagógicos", afirma.

Para evitar mal-entendidos, a equipe gestora precisa esclarecer que as decisões têm como propósito assegurar boas condições de ensino e aprendizagem - as demandas dos docentes serão atendidas em seguida, na medida do possível. A clareza nos argumentos é importante. Cabe ao coordenador e ao diretor conduzir uma discussão com o grupo para:

  • Expor as necessidades de cada turma, pontuando o que os alunos sabem, o que precisam aprender e quais esforços devem ser realizados para alcançar os objetivos.
  • Elencar as competências que se esperam para lecionar em cada turma, série ou segmento. Por exemplo, os grupos de alfabetização requerem experiência e formação na área. Já a desenvoltura na gestão de sala de aula é uma habilidade importante para trabalhar com os grupos em que há casos de indisciplina.
  • Relacionar os pré-requisitos apresentados com o perfil de cada professor, justificando por que ele é mais adequado para assumir determinada classe.

A alocação dos professores, no entanto, não se resume a algumas reuniões. Ela representa também o fechamento de um ciclo: o do ano letivo anterior. Graças ao trabalho periódico de acompanhamento, formação em contexto de trabalho e supervisão, o coordenador pedagógico reúne informações valiosas sobre o aprendizado das turmas e as características dos docentes. Por isso, é importante reconhecer publicamente, ao longo do ano, as qualidades e os sucessos da equipe, assim como discutir com o grupo aspectos comuns a todos que podem ser aprofundados. 

A regularidade dessas ações favorece a compreensão dos propósitos dos critérios de atribuição. Dessa forma, a aprendizagem, que é o objetivo principal do trabalho, passa a ser reconhecida como uma responsabilidade de toda a equipe, e não apenas do professor da turma. 

Se os profissionais ainda não se veem como uma equipe, essa, portanto, é uma boa oportunidade para começar a construir um ambiente de coletividade. "Quando existe um sentimento de pertencimento no grupo, frases como ?só trabalho com esta turma? ou ?esse é meu horário? deixam de frequentar as reuniões", defende Flavia Medeiros Sarti, do Departamento de Educação da Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (Unesp), campus de Rio Claro.

Escolha deve considerar limitações da equipe

Vale ressaltar que as decisões no processo de atribuição podem variar de acordo com as necessidades da instituição e das turmas. Na EMEF Vila Renovação (leia sobre o caso e ouça o depoimento do gestor no quadro abaixo), em Rio Verde, a 238 quilômetros de Goiânia, após muitas discussões, optou-se por manter um professor com perfil alfabetizador para acompanhar a mesma classe ao longo dos três primeiros anos do Ensino Fundamental. 

Foco no ciclo de alfabetização

Em 2011, quando chegou na EMEF Vila Renovação, a professora Cíntia Cristina Rodrigues Mendes de Lima assumiu a turma do 1º ano do Ensino Fundamental, formada pelos mesmos alunos de outra unidade na qual trabalhou anteriormente. Na época, os gestores sugeriram que ela continuasse com o mesmo grupo até que eles concluíssem o 3º ano. Com isso, a taxa de alfabetização aumentou em relação aos anos anteriores. A iniciativa, então, foi estendida a todo o ciclo de alfabetização. A professora Helena Pereira da Silva, que lecionava apenas para o 1º ano, se sentiu um pouco insegura em prosseguir com o grupo e ensinar conteúdos do 2º ano. "Aceitei porque vi o trabalho da minha colega e sabia que teria o apoio da equipe pedagógica", lembra. A diretora Adriana Vaz de Carvalho Alievi conta que os bons resultados são frutos da formação com foco na alfabetização, da troca de experiências entre os professores e dos grupos de estudos realizados, mensalmente.

Ouça o depoimento da diretora Adriana Vaz de Carvalho Alievi:

 

 

Já na EMEF Capistrano de Abreu (leia sobre o caso e ouça o depoimento do gestor no quadro abaixo), em São Paulo, os professores mais experientes do grupo se prontificaram a assumir duas turmas do 5º ano com histórico de repetência e alta distorção idade-série e ao fim do ano todos os alunos, exceto três com necessidades educacionais especiais (NEE), estavam alfabetizados. Em ambos os casos, os professores recebem o acompanhamento da equipe gestora, por meio dos encontros de formação, e os materiais didáticos para as atividades.

 

Atenção às necessidades da turma

Na EMEF Capistrano de Abreu, a avaliação institucional feita continuamente por meio de diagnósticos, acompanhamento do trabalho dos professores em sala de aula, momentos de formação e dos encontros são usados nas reuniões de atribuição de aulas. "Em geral, as indicações propostas pela coordenação são encaradas com profissionalismo e ética e conseguimos bons acordos", explica a coordenadora Rosa Maria Pereira de Araújo. Em 2013, ao iniciar as discussões sobre a atribuição, a equipe gestora lembrou ao grupo que havia duas turmas de 5º ano compostas de alunos com histórico de repetência. O diretor Josafa Rehem Nascimento Vieira destacou que ninguém seria privado do direito de escolha, mas enfatizou a urgência de promover chances reais de aprendizagem a estudantes que só tiveram a experiência de fracasso escolar. "Sensibilizamos o grupo para compreender a importância de essas turmas não ficarem por último na escolha como se fossem a 'sobra' da atribuição. Para nossa alegria, elas foram as primeiras a ser escolhidas pelos mais experientes", comemora. 

Ouça o depoimento do diretor Josafa Rehem Nascimento Vieira:

 

O que fazer quando o ano começa com o quadro de professores ainda incompleto? Muitas redes não têm profissionais com dedicação exclusiva e recorrem a horistas. Quando isso acontece, o caminho é expor o problema ao grupo e priorizar as turmas com mais dificuldades - que serão atendidas pelos efetivos. O objetivo é facilitar a adaptação do professor contratado, que chegará à escola depois da atribuição e sem conhecer o perfil dos estudantes e certamente precisará do apoio dos gestores e dos colegas mais experientes. 

Caso os docentes atuem em mais de uma instituição - situação comum no segundo segmento do Ensino Fundamental e no Ensino Médio -, a questão do deslocamento não pode ser negligenciada. "É claro que o aprendizado dos alunos deve ser o primeiro critério, mas a decisão final não é só do gestor, e sim do grupo. Ela precisa ser viável a todos. Não basta escolher o profissional de melhor perfil se ele não tem condições de chegar a tempo para lecionar", argumenta Flavia.


Ilustração: Olavo Costa

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