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Célio Cunha analisa contribuições de grandes pensadores à Educação brasileira

Pesquisador faz reflexão sobre como as ideias influenciaram as políticas educacionais no país

POR:
Elisângela Fernandes
Célio Cunha,

Célio Cunha,
pesquisador, foi coordenador especial da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) no Brasil entre 2006 e 2008

Quanto tempo leva para uma ideia surgir, ser alvo de debate, consolidar-se e, uma vez fortalecida, promover mudanças sociais? Qual a influência do pensamento de grandes filósofos na Educação e nas práticas escolares? Em entrevista à GESTÃO ESCOLAR, o educador Célio da Cunha faz uma síntese das principais ideias que impactaram as políticas educacionais desde os colégios jesuítas até os dias atuais. A análise é resultado de recente pesquisa realizada por ele entre 2010 e 2012. 

Formado em Pedagogia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, Célio é professor aposentado na Faculdade de Educação da UnB e da pós-graduação da Universidade Católica de Brasília. Como coordenador editorial e assessor especial da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) no Brasil entre 2006 e 2008, participou da elaboração da Coleção Educadores, composta de 62 volumes que sintetizam a produção de educadores brasileiros e estrangeiros.

Quais as contribuições dos jesuítas para as políticas educacionais brasileiras?

Célio da Cunha Apesar de haver divergências sobre isso, creio que a herança ficou por causa da criação de uma rede de escolas secundárias em várias regiões brasileiras. Do estudo das línguas indígenas, da produção de materiais de ensino em situações inóspitas e da formação de intelectuais de valor, como Padre Vieira (1608-1697). Eles ainda deixaram um sistema de Educação estruturado em termos de gestão e de projeto pedagógico. Chegaram a propor a criação de uma universidade, que não avançou. Todavia, a pedagogia jesuítica ficou defasada em relação aos avanços da ciência e do pensamento, sobretudo entre os séculos 16 e 18, o que impossibilitou Portugal e suas colônias de se inserirem ativamente no contexto cultural e científico da época. Esse foi um dos motivos da expulsão deles do Brasil em 1759, o que deixou um enorme vazio, pois mais de 600 professores saíram do país. 

Depois dos jesuítas, quais ideias passaram a influenciar o currículo e as políticas no país?

O pensamento iluminista, que fervilhava na Europa e valorizava as práticas científicas e o ideal de liberdade, fraternidade e igualdade, foi determinante para que o Marquês de Pombal (1699-1782) expulsasse os padres jesuítas no século 18. Mas, apesar de defender uma Educação laica, ele não conseguiu transformar o ensino brasileiro. Seu maior êxito foi reformar a Universidade de Coimbra, em Portugal, na qual muitos dos inconfidentes mineiros estudaram e tiveram acesso a essas novas visões de mundo, que inspiraram movimentos como o da Inconfidência Mineira. Nesse período, muitos passaram a defender que a entrada do estado na Educação contribuiria para a modernização do currículo e dos processos de ensino e aprendizagem. Antes disso, o inglês John Locke (1632-1704), um dos precursores do Iluminismo, se destacou ao defender que o estudo resolveria o maior problema da época: o da adaptação dos homens às novas tecnologias criadas pelo progresso da ciência.

Escute o áudio: pesquisador fala sobre percurso das ideias pedagógicas.


O que o Iluminismo trouxe para a Educação?

Nessa época, as ideias racionalistas da Antiguidade grega - que tiveram com o Renascimento e a Reforma avanços importantes - atingem o apogeu. A inteligência humana abre-se ao desconhecido e todos os setores e áreas do conhecimento, inclusive a Educação, são influenciados pelo Iluminismo. O plano de ensino do filósofo e matemático Nicolas de Condorcet (1743-1794), na época da Revolução Francesa, defendeu o direito à Educação de qualidade para todas as pessoas, com ensino laico e gratuito voltado para a emancipação e autonomia. Nessa época, forjou-se a escola que temos hoje, que valoriza a dimensão cognitiva. Contudo, foi a Alemanha a pioneira ao desenvolver uma política educacional de Estado, tornando-se referência para outros países, como Inglaterra, França e Estados Unidos. 

Por que a Alemanha e não outro país, como Inglaterra ou França?

Influenciado pelas ideias do inglês John Locke e de outros pensadores da época, Frederico II, rei da Prússia, foi o primeiro a tornar o ensino obrigatório dos 5 aos 14 anos, com punição aos pais que não cumprissem a lei. Alguns estudiosos interpretam essa decisão como uma das mais importantes revoluções na história da Educação. Só que, infelizmente, o Brasil ficou por muito tempo à margem dessa discussão. 

Quando ela chegou por aqui?

A elite intelectual brasileira surge no final do século 19, influenciada pelo darwinismo e o positivismo. Grandes nomes da literatura - como Euclides da Cunha (1966-1909), Manoel Bonfim (1868-1932), Silvio Romero (1851-1914), Tobias Barreto (1839-1889), Machado de Assis (1839-1908) e Lima Barreto (1881-1922) passam a mostrar um Brasil mais realista, e isso é fundamental para a formação do pensamento de Paulo Freire (1921-1997), Darcy Ribeiro (1922-1997) e Florestan Fernandes (1920-1995), que passam a reconhecer e valorizar a origem negra, indígena e europeia do país. Essa é outra discussão que continua até os dias de hoje, quando está em pauta a implantação de cotas raciais nas universidades públicas. Houve também o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, em 1930, assinado por Anísio Teixeira (1900-1971) e Fernando de Azevedo (1894-1974), que trouxe a ideia do pacto federativo - e o atual Plano Nacional de Educação propõe a criação de um Sistema Nacional de Educação. Mas a Educação começa a mudar mesmo após a Constituição de 1988, quando há avanços rumo à universalização do ensino. 

Como essas ideias mudaram as práticas escolares?

Elas trouxeram, principalmente, uma visão mais humana da Educação. Há pouco tempo, examinei a questão dos castigos e das violências físicas e simbólicas que ocorrem nas escolas e constatei que algumas práticas já eram condenadas por Platão (427-327 a.C.). Esse tema foi objeto de reflexão ao longo dos séculos e hoje se sabe que não se aprende mediante o castigo, e sim com respeito, consideração e diálogo. Podemos dizer que hoje há uma relação cada vez mais equilibrada entre alunos e educadores. E isso é resultado de um conjunto de ideias pedagógicas que tiveram início na Grécia antiga e que foram aperfeiçoadas por inúmeros pensadores. Há um longo percurso para as ideias chegarem às escolas. Ainda há muito a avançar. Em todo o mundo, por exemplo, só 30 países ratificaram a eliminação total do castigo físico. 

Quais ideias pedagógicas devem nortear o trabalho dos gestores escolares?

São aquelas que fundamentam o ideal das gestões democráticas, compartilhadas e responsáveis, que possibilitam à escola ajudar a cumprir uma das grandes metas, que é a de formar mentes abertas aos problemas da sociedade e sensíveis ao imperativo universal de uma vida digna. São as que possibilitam às crianças e jovens revelar suas potencialidades e construir projetos de vida que sejam relevantes não apenas para a sociedade como também no plano das realizações pessoais. Não é a toa que o sociólogo francês Émile Durkheim (1858-1917), há mais de 100 anos, já defendia que todo educador precisa construir uma cultura pedagógica.

Influência na Educação

Conheça as ideias que impactaram a forma de ensinar ao longo da história 

Antiguidade 4000 a.C.-476 d.C. 

Sócrates (469-399 a.C.) O filósofo grego colocava a filosofia a serviço da formação do ser humano por meio do autoconhecimento, da sabedoria e da prática do bem. Foi um defensor do diálogo como método de ensino. 

Platão (427-347 a.C.) Considerado o primeiro pedagogo, o pensador grego concebeu um sistema educacional integrado a uma dimensão ética e política. Ele defendia que toda a Educação deveria ser de responsabilidade estatal. 

Aristóteles (384-322 a.C.) Fundador da ciência e da lógica, o filósofo via a Educação como caminho para a vida pública. Para ele, o princípio da aprendizagem seria a imitação: a formação de bons hábitos dependeria do exemplo dos adultos. 

Idade Média 476-1453 

Santo Agostinho (354-430) Embora tenha vivido na Antiguidade, o teólogo argelino teve grande influência no ensino no Ocidente. A valorização da disciplina e o sacrifício do pensamento em favor do temor a Deus serviram de alicerce para a Companhia de Jesus, responsável pelos colégios jesuítas no Brasil. 

Tomás de Aquino (1224-1274) O pensador italiano buscou conciliar as teorias de Santo Agostinho e as de Aristóteles. Compreendia a razão como o princípio fundamental para entender e ordenar o mundo. 

Idade Moderna 1453-1789 

Martinho Lutero (1483-1546) Responsável pela Reforma Protestante, o teólogo alemão inaugurou o ensino moderno ao defender uma Educação para todos. Ajudou a criar um sistema de ensino público e apoiou a distinção entre as ideias do mundo e do espírito. 

Comênio (1592-1670) Considerado o pai da didática moderna, o cientista checo reflete sobre teorias didáticas e questões cotidianas da sala de aula no livro Didactica Magna. Para ele, o professor é um profissional, e não deve ser visto como um missionário. 

John Locke (1632-1704) Ideólogo do liberalismo, o inglês se destacou pela defesa da liberdade individual. Para ele, a mente seria uma tábula rasa e o aprendizado fruto das informações e vivências de cada sujeito, que possui a capacidade inata de aprender. 

Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) O teórico suíço foi o primeiro a ver a criança como um ser integral, e não incompleto. Ele dividiu a infância em fases de desenvolvimento e defendeu um ensino que valorizasse a liberdade e assegurasse às crianças momentos felizes. 

Johann Heinrich Pestalozzi (1746-1827) Para o pedagogo suíço, o aluno aprende fazendo, ou seja, conduz o própria aprendizado com base na experiência prática, intelectual, sensorial e emocional do conhecimento. Para ele, a emoção desperta o processo de aprendizagem. 

Idade Contemporânea 1789-hoje 

Friedrich Froebel (1782-1852) O alemão reconheceu a infância como uma etapa crucial do desenvolvimento humano e considerava as brincadeiras como o primeiro recurso de aprendizagem. Fundou os jardins de infância para os menores de 8 anos. 

Auguste Comte (1798-1857) Pai do positivismo, o francês valorizava os fenômenos empíricos e desconsiderava os processos mentais do observador. Influenciou a ênfase na aferição dos métodos de ensino e da aprendizagem dos alunos. 

Karl Marx (1818-1883) Para o teórico do comunismo, a Educação participa do processo de transformação das condições sociais, ao mesmo tempo que sofre influência da sociedade. Ele defendia uma formação ampla: intelectual, física e técnica. 

Émile Durkheim (1858-1917) O sociólogo francês defendia que as consciências individuais são formadas pela sociedade. Ele argumentava que o indivíduo deve conhecer o contexto no qual está inserido. E isso se aprende na escola pública, laica e estatal. 

John Dewey (1859-1952) A democracia nas escolas era uma das principais ideias do pedagogo norte-americano. Ele defendia a necessidade de unir teoria e prática e valorizava os saberes dos alunos. Sob influência do empirismo, criou uma escola-laboratório. 

Maria Montessori (1870-1952) Defensora do respeito às necessidades e interesses dos alunos, a médica italiana via a Educação pelo movimento e pelos sentidos. Ela fundou a Casa dei Bambini (Casa das Crianças), que diversificava os agrupamentos dos alunos. 

Édouard Claparède (1873-1940) Para o psicólogo suíço, a Educação está centrada na criança, e não no professor. Defendia situações de ensino motivadoras e um currículo obrigatório e enxuto, a ser aperfeiçoado em cada escola, segundo os interesses locais. 

Henri Wallon (1879-1962) O psicólogo francês propunha um ensino baseado na afetividade, no movimento, na inteligência e na formação da consciência do "eu". Considerava a reprovação excludente e a definia como "a própria negação do ensino". 

Célestine Freinet (1896-1966) Criador da Pedagogia do Trabalho, o francês acreditava na aprendizagem como resultado da relação dialética entre ação e pensamento. Suas experiências didáticas incluenciaram a criação das escolas-laboratório. 

Jean Piaget (1986-1980) O biólogo suíço se dedicou à observação científica sobre como aprendemos. Para ele, o conhecimento é fruto da interação entre sujeito e objeto de aprendizagem por meio da assimilação e da acomodação de novos saberes. 

Lev Vygotsky (1896-1934) De acordo com o psicólogo bielorrusso, as condições culturais dos estudantes devem ser levadas em conta durante o processo de aprendizagem, que ocorre na relação dialética entre o sujeito e a sociedade. 

Anísio Teixeira (1900-1971) O pensador brasileiro acreditava na Educação como um processo permanente de reconstrução. Defendia a escola pública, de tempo integral, laica, para todos e municipalizada, para atender às necessidades locais. 

Frederic Skinner (1904-1948) O psicólogo norte-americano dedicou-se ao comportamento humano. Defendia que a aprendizagem ocorre com base na ação do sujeito sobre o meio. Influenciou a prática do reforço e da repetição de tarefas nas escolas.

Florestan Fernandes (1920-1995) O sociólogo brasileiro e militante socialista via na Educação um potencial de transformação social e de emancipação dos trabalhadores. Defensor da ampliação do ensino público e da autonomia às escolas. 

Paulo Freire (1921-1997) O educador brasileiro defendia uma Educação para conscientização política. Crítico da escola tradicional e burocrática, sustentava que a construção do saber ocorre de forma coletiva, reconhecendo os saberes dos alunos. 

Edgar Morin (1921) Para o pensador francês, a escola é permeada pela sociedade. As condições de ensino e aprendizagem seriam influenciadas por questões de classe, gênero, raça. Essa diversidade de atores pode influenciar mudanças sociais. 

Michel Foucault (1926-1984) Segundo o filósofo francês, a escola é um local de produção e reprodução de um tipo de sociedade. Considerada uma instituição de controle e de punição. Para ele, toda relação de poder está vinculada à construção do saber. 

Pierre Bourdieu (1930-2002) Para o sociólogo francês, a escola, ao em vez de ser transformadora, reproduz e reforça as desigualdades sociais. O desempenho escolar está associado ao legado familiar e econômico do aluno: o capital cultural.

 


Foto: Gabi Portilho

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