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Fofoca nunca mais

O diz que diz que prejudica o trabalho e o clima na escola. As causas podem ser institucionais ou pessoais

POR:
Karina Padial

"Vem cá, deixa eu contar uma fofoca." Quem nunca fez ou aceitou um convite como esse? Conversas dessa natureza são tão comuns no ambiente profissional que dificilmente se percebe os estragos que causam: afetam o clima, constrangem os envolvidos e impactam negativamente o trabalho. Sendo assim, elaborar estratégias para acabar com os fuxicos não é perda de tempo. Para planejá-las, no entanto, é preciso identificar a origem do problema. 

Quando falar mal uns dos outros vira rotina entre professores e funcionários é sinal de que os vínculos não vão nada bem. "A falta de respeito, cooperação e solidariedade deixa o ambiente propício para conversas maldosas. Consegue-se reverter esse cenário quando a escola passa a refletir constantemente sobre esses valores", afirma Ana Aragão, do Grupo de Estudo e Pesquisa em Educação Moral da Universidade Estadual de Campinas (Gepem/Unicamp). 

Antes de tudo é preciso que os gestores estejam blindados em relação às fofocas. Uma boa medida é avaliar as próprias atitudes em relação à equipe. "Compreender as individualidades e os diferentes tempos que cada um leva para se adaptar ou se enturmar faz com que professores e funcionários se sintam respeitados e deixem de criticar os superiores pelas costas", diz Célia Godoy, consultora de gestão escolar do Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino de São Paulo. 

Tão importante quanto isso é não se deixar influenciar pelas histórias que chegam aos seus ouvidos por meio da "rádio peão" - como é conhecida a fofoca no meio corporativo - nem participar dela levando o assunto adiante ou dando atenção demasiada a quem está disseminando o diz que diz que.

Desrespeito é condição básica para o surgimento de papos mal-intencionados 

Os motivos que fazem surgir a fofoca e fazê-la se espalhar podem ser alguns sentimentos pessoais (saiba quais são e como lidar com eles abaixo) mas também ter origem no próprio funcionamento da escola. 

De modo geral, Ana Aragão sugere que o projeto político-pedagógico (PPP), documento que traz os princípios que norteiam o trabalho da instituição, sirva de base para a discussão em reuniões, grupos de estudos ou seminários que visem discutir o problema. Foi o que ela fez entre 2003 e 2008 na EMEF Padre Francisco Silva, em Campinas, a 98 quilômetros de São Paulo, quando atuou como consultora. Lá, Ana percebeu que os docentes falavam mal uns dos outros e que os problemas de relacionamento entre os membros da equipe gestora rapidamente eram expostos. Ela mesma passou a ser procurada pelos professores que queriam criticar o comportamento de alguém. 

Como forma de reverter o cenário, a pesquisadora propôs discussões sobre os valores presentes no PPP. Semanalmente, durante duas horas, as relações interpessoais no trabalho foram o principal assunto em pauta. Todos disseram como poderiam mudar a própria postura, o que esperavam da dos colegas e relacionaram as dificuldades da rotina. Depois de um ano, os educadores se sentiram seguros para explicitar atitudes que lhes desagradavam -- um professor gritando com os alunos, por exemplo -, o que antes certamente seria tratado em pequenos grupos com comentários nada construtivos. 

"Dois cuidados precisam ser tomados nesse trabalho. O primeiro é preservar as pessoas. As ações devem ser trabalhadas de forma coletiva para que a equipe entenda que o problema é de todos e não de uma só pessoa. O segundo é resolver todas as reclamações. A falta de posicionamento dá margem para que as fofocas voltem a aparecer", afirma Ana.

Assista ao terceiro vídeo da série Como Lidar com a Equipe, com o consultor Antônio Carlos Carneiro.

 

 


Comunicação confusa e dispersa favorece os mal-entendidos 

Se um docente está chateado com uma situação e não encontra espaço para se expressar, certamente levará a insatisfação para os corredores. "Locais pautados por ações unilaterais precisam rever os conceitos para garantir uma convivência harmoniosa. Quando há gestão participativa, onde todos se escutam e ajudam a tomar decisões, a fofoca fica sem lugar ou, no mínimo, é tratada com clareza e resolvida conjuntamente", defende Célia Godoy. 

Os fuxicos também aparecem quando a comunicação é ineficiente. É preciso ter certeza de que todos compreenderam os objetivos das ações e dos projetos que estão sendo desenvolvidos na escola. Quando os professores e funcionários não veem sentido em determinado processo ou se sentem testados ou desrespeitados diante de uma intervenção, abre-se um caminho para as críticas veladas. 

Na EMEF Wilson Hedy Molinari, em Poços de Caldas, a 461 quilômetros de Belo Horizonte, a coordenadora pedagógica Flávia Maria de Campos Vivaldi identificou que, após seis meses da chegada de novos docentes, um grupo ainda não havia se engajado no trabalho de Educação moral realizado na escola. Além disso, alguns professores começaram a espalhar comentários negativos sobre o projeto e a criticar a mediação de conflitos, maneira como a equipe gestora resolvia os problemas. 

Ao compreender que isso era resultado de um entendimento equivocado da proposta e dos objetivos a ser alcançados, a coordenadora organizou um seminário. Nele, os educadores com mais tempo de casa apresentaram as conquistas - como a diminuição dos casos de indisciplina e violência - alcançadas desde que a escola havia iniciado, cinco anos antes, algumas mudanças no currículo para incorporar momentos de reflexão sobre valores, cidadania e ética. "Ao ouvirem dos colegas os resultados positivos dos processos que criticavam, os comentários sem fundamento acabaram, todos se envolveram no projeto e passaram a trabalhar coletivamente", conta Flávia. "Foi preciso explicitar o sentido das ações." 

Ausência de momentos de integração gera vínculos frouxos 

A rotina intensa de trabalho nas escolas muitas vezes impede que professores e funcionários tenham momentos de integração que permitam a eles se conhecerem e se aproximarem. Para Jane Souza, especialista em pesquisa de clima e consultora de Recursos Humanos da RH e Parceria, em São Paulo, sem a possibilidade de estreitar as relações e encontrar afinidades, é muito difícil o aparecimento de vínculos de confiança que façam com que eles atuem com maturidade em situações em que não há consenso. 

Momentos de celebração e de diálogo, nos quais as equipes se sintam valorizadas e ouvidas, são, portanto, fundamentais. Ao perceber que os funcionários desconheciam os propósitos das atividades desenvolvidas na instituição, os coordenadores do Núcleo de Projetos Especiais (Nupes) da Escola Parque Salvador, da rede pública do estado da Bahia, criaram o Conversando a Gente Se Entende, um encontro semestral realizado desde 2012 com o objetivo de refletir sobre a importância do trabalho deles no ambiente escolar.

Eles participam de palestras, conversas e atividades em grupo baseadas em temas definidos pelos próprios participantes. Quatro encontros já foram realizados e entre os temas discutidos estão as relações interpessoais e as questões de gênero. "A diferença no clima é perceptível e as reclamações diminuíram", diz Luciene Brandão, assistente social do Nupes. Se alguma queixa ainda chega aos ouvidos dos gestores, eles retomam os combinados feitos com a equipe - não apontar os delatores e discutir os problemas de forma coletiva nas reuniões, entre outros. Segundo Luciene, a mudança foi só possível porque os funcionários passaram a compartilhar experiências e a compreender a postura do outro. "Acabamos com o sentimento de exclusão e mostramos que eles também fazem parte do processo educativo", completa.

Motivos pessoais que geram fofoca 

O papo de corredor nocivo pode acontecer por diversos razões, geralmente relacionadas a sentimentos negativos 

 Por maldade

 
 

Há quem sinta prazer em expor um colega. Para isso, busca o ponto fraco da pessoa e o explora por meio de comentários mal- -intencionados. Muitas vezes, essa é uma forma de defesa - para que os próprios defeitos saiam de evidência, a pessoa joga o foco em outra. Uma conversa coletiva que permita a reflexão sobre respeito entre a equipe é fundamental.

 

 


Por inveja 

 

Uma pessoa inteligente, comunicativa, bonita e popular é alvo fácil de fofoca quando desperta inveja nos colegas. Desqualificar quem possui essas características é uma forma de se autoafirmar. Diretor e coordenador devem ficar atentos para ver se essa não é a reação de alguns ao próprio comportamento do gestor de privilegiar e/ou elogiar apenas um ou outro educador.

 


 Por ingenuidade

É difícil dizer que quem fala mal dos outros pelas costas o faz sem imaginar as consequências. Uma conversa, porém, pode ser mal interpretada ou cair em ouvidos errados, dando início a uma sequência de desentendimentos. Vale retomar a importância de críticas e sugestões serem apresentadas apenas nos momentos destinados a elas. 

 


 

Por bajulação

 

 

Para se aproximar e obter reconhecimento, o autor passa a levar e trazer informações sobre os colegas. Como os gestores são os mais procurados nesses casos, é preciso redobrar a atenção e ignorar esses comentários. Vale promover um debate sobre comportamentos que buscam vantagens pessoais e desprezam princípios como justiça e sinceridade. 

 

 


 

Por vingança

Após se envolver em um problema pessoal ou profissional com um colega e se sentir prejudicado, o docente ou o funcionário usa a fofoca para retribuir a agressão. Nesse caso, é comum que uma história seja inventada ou distorcida. Uma das alternativas para o gestor é se colocar à disposição para fazer a mediação do conflito entre as partes. 

 


 Por ambição

 

Para ocupar o lugar almejado, uma pessoa pode dar início a uma campanha de desmoralização pensando que, com isso, está se valorizando diante de colegas e chefes. Ao identificar esse comportamento, o gestor precisa trabalhar valores de cooperação e esclarecer os critérios usados na escola para a definição de cargos. 

 


 

Por diversão

 

É a típica situação em que a fofoca é um hobby de alguém que gosta de vigiar a vida alheia e comentar sobre ela. Geralmente, seu autor tem muito tempo livre e está infeliz com a própria situação. Cabem duas ações: rever a rotina da pessoa para evitar momentos ociosos e lembrá-la que a escola é um ambiente profissional e deve ser respeitada como tal.

 


Ilustrações: Luciano Veronezzi

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