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Comunicação com os pais na Educação Infantil

Tudo explicado nos mínimos detalhes. A comunicação eficiente entre pais e escola é um dos segredos para atender bem as crianças de até 5 anos

POR:
Bianca Oliveira

Um bebê está irritado, chorando muito, e as professoras não sabem o que o incomoda. Ao levá-lo até a creche, a mãe não contou que, na noite anterior, ele dormiu mal e teve sono irregular. Sem saber o motivo pelo qual a criança está incomodada, o dia será difícil tanto para ela quanto para os educadores. Situações como essa são comuns em instituições em que não há uma cultura sólida de comunicação com os pais. 

Na fase em que os pequenos não falam nem se expressam plenamente, o contato diário com as famílias é fundamental. "Qualquer alteração na rotina deve ser relatada", explica Beatriz Telles, coordenadora do Núcleo de Educação Infantil da Comunidade Educativa Cedac, em São Paulo. Sono, alimentação, problemas de saúde e até o funcionamento do intestino e da bexiga são algumas questões que merecem atenção (leia os quadros desta reportagem). 

De acordo com a pesquisa A Gestão da Educação Infantil no Brasil, realizada em 2011 pela Fundação Victor Civita (FVC) em parceria com a Fundação Carlos Chagas (FCC), ambas em São Paulo, 83% dos gestores já discutem como se comunicar eficientemente com as famílias nos encontros de formação continuada realizados com a equipe docente. Mesmo assim, é comum o equívoco de deixar a responsabilidade da relação com os pais exclusivamente com os professores. Diretor e coordenador pedagógico também podem conversar diretamente com a família quando há mudanças recorrentes no comportamento, conflitos ou situações delicadas. "Não se trata de tirar a autoridade do professor, mas de ajudá-lo a entender o momento pelo qual a criança está passando e a buscar soluções", afirma Erisevelton Silva Lima, professor da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (UnB) e formador na Escola de Aperfeiçoamento dos Profissionais da Educação do Distrito Federal (Eape). 

Nesse processo, a equipe gestora tem três funções básicas: orientar os docentes sobre como transmitir e solicitar as informações, definir e formalizar os processos de comunicação e promover ações que reforcem os laços com as famílias. Para Clélia Cortez, formadora no Instituto Avisa Lá, em São Paulo, é preciso zelar para que os valores da escola sejam preservados na abordagem com os familiares, pois algumas questões podem ser difíceis de lidar. Para isso, é preciso reforçar, durante a formação em serviço, a importância de ouvir os pais sem rotular nem culpar as crianças. "Importante é esclarecer que a troca de informações visa o planejamento de intervenções que levarão ao bem-estar e ao desenvolvimento da identidade e da autonomia", explica Clélia.

O que a família deve comunicar à escola

 

Frequência no sono Oriente os pais a informar, na hora da entrada ou por meio da agenda, se a criança dormiu menos horas ou fora do horário de costume e a qualidade do sono - tranquilo? Agitado? Uma noite bem ou maldormida ajuda no desenvolvimento cognitivo e influencia no humor dos pequenos durante o dia. Ao saber desse tipo de detalhe, a escola tem elementos para analisar eventuais mudanças no comportamento e adequar a rotina à necessidade da criança. 

Questões familiares Na primeira reunião de pais, peça que acontecimentos de grande impacto - como a morte de parentes próximos ou separação conjugal - sejam comunicados o mais rápido possível à equipe gestora, de preferência em um encontro pessoal com a presença também do professor. Em um ou outro caso, os pequenos podem demonstrar irritabilidade, agressividade ou falta de atenção. 

Problemas de saúde Questões pontuais - gripe, mal-estar - devem ser comunicadas pessoalmente ao professor no horário de entrada. Os medicamentos não podem ser ministrados na escola sem prescrição médica e autorização dos responsáveis. Porém, o mais importante é pedir aos pais que preencham, no ato de matrícula, uma ficha com dados sobre a saúde do filho, indicando se há uso regular de algum medicamento, alergias etc. Isso permitirá prever alternativas para as crianças que tenham sensibilidade a algum material - uma atividade que use bexiga de látex pode ganhar um substituto de plástico, por exemplo. 

Necessidades educacionais especiais (NEE) Os pais deverão preencher um formulário específico e anexar a ele um laudo médico. É com base nesse documento que serão planejadas as adaptações pelo professor regular com a ajuda do profissional do Atendimento Educacional Especializado (AEE). Esse controle permite oferecer à equipe docente a formação específica necessária para lidar com as necessidades e providenciar materiais.

 

Registro das informações permite acompanhamento

Uma forma eficiente de alinhar a comunicação aos princípios institucionais é formalizando-a. No Brasil, as conversas entre professor e pai ou mãe na porta da sala e no portão da escola são habituais. Além de desejáveis, muitas vezes elas são eficientes e resolvem o problema da troca de informação. No entanto, é o registro por escrito na agenda ou nas fichas de acompanhamento que permitirão traçar um histórico contínuo e completo do desenvolvimento da criança. Para tanto, o diretor tem de garantir, na rotina dos professores, um horário para que eles façam as anotações do dia e escrevam relatórios aos pais e ao coordenador pedagógico - registrando, inclusive, o que foi tratado no bate-papo informal. 

Ligiane Marcelino Weirich, diretora do CMEI Ruth Vilaça Correia Leite Cardoso, em Curitiba, destaca a importância de manter as fichas atualizadas, considerando a aprendizagem, a saúde e a situação familiar. "Em caso de doença ou mal-estar, os pais são contatados por telefone ou solicitamos a presença na escola. Contamos para eles os sintomas que o filho teve durante o período em que esteve conosco e orientamos a procurar o serviço de saúde. Pedimos para que nos deem um retorno com as orientações médicas para saber se é preciso providenciar algo na escola, se for o caso. Essas informações são inseridas no histórico da criança para atualizá-lo", conta. 

Na Escola Santi, em São Paulo, tanto as conversas diárias como a comunicação por escrito e as reuniões fazem parte da rotina. Para reforçá-las, a direção instituiu uma roda de conversa a cada três meses para tratar de temas específicos e estimular a troca de experiência. "Ao discutir as dúvidas que surgem no âmbito familiar sobre o desenvolvimento dos pequenos e ouvir os relatos dos outros pais, os adultos identificam melhor o que está dentro da normalidade e o que merece mais atenção nas atitudes dos filhos", explica Adriana Cury, diretora da Santi. Resultado: a família demonstra mais segurança e precisão ao comunicar mudanças na rotina da criança.

O que a escola deve informar à família

 

Mudanças no comportamento Tudo que fuja das atitudes habituais - dormir mais ou menos do que o normal na hora da soneca, fazer pirraça ou desentender-se com o amigo. Isso pode ser relatado pessoalmente ou por meio da agenda. Diante de ocorrências mais graves, o melhor é marcar uma reunião. Os pais podem ajudar a esclarecer as causas de possíveis incômodos e, ao ser informados, ficarão atentos caso os fatos se repitam no âmbito familiar. 

Alimentação O cardápio mensal pode ser divulgado em uma tabela colada no caderno, em recados no mural e no blog institucional quando houver. Vale falar pessoalmente no horário de entrada e saída ou por meio de bilhete avulso quando um alimento novo for introduzido ou quando houver rejeição a determinado prato. A família tem o direito de saber se está sendo oferecida uma dieta saudável ao filho e se ele já está usando talheres, servindo-se sozinho etc. 

Xixi e cocô Quando o bebê está saindo das fraldas, é importante dar devolutivas constantes sobre os momentos em que ele demonstrou vontade de ir ao banheiro e do processo de aquisição da autonomia - se foi sozinho ou acompanhado. Assim, os adultos passam a dar atenção aos sinais de que o filho está pronto para a retirada da fralda. As ações em casa e na creche podem ser coordenadas.

 

Ilustrações: Melissa Lagoa

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