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Avaliação do projeto político-pedagógico: o que manter? O que descartar?

A revisão dos projetos institucionais é uma importante ferramenta de planejamento. Siga o passo a passo que preparamos para você e descubra quais projetos devem ser reformulados e quais podem ser abandonados

POR:
Aurélio Amaral

Todo ano, na época de revisão do projeto político-pedagógico (PPP), surgem as dúvidas: que projetos deram certo e podemos manter e quais deram errado e devemos descartar? Desses, algum vale a pena reformular? Essa revisão não é fácil e os critérios usados na avaliação devem ser claros e imparciais para que o processo seja conduzido de forma eficaz. 

Algumas perguntas podem ser formuladas: as ações planejadas atingiram as expectativas ou precisam de ajustes? Elas foram suficientes para que os objetivos fossem alcançados? Questões como essas ajudam a reconhecer e consolidar as conquistas da escola. "As boas iniciativas correm o risco de ser esquecidas quando não são incorporadas ao PPP", explica Neurilene Martins Ribeiro, formadora do Instituto Chapada de Educação e Pesquisa (Icep), em Palmeiras, a 420 quilômetros de Salvador. Afinal, a documentação da memória ajuda a delinear e a sedimentar a cultura escolar e a difundi-la entre os alunos, professores, funcionários e gestores. 

A escola em que você trabalha certamente enfrenta muitos desafios. Por isso, surgem os projetos institucionais para solucioná-los. Fazer um balanço do que deu certo ou não é uma das mais poderosas ferramentas de planejamento. Se as metas forem cumpridas, ótimo! Mas é bom lembrar que o trabalho não se encerra aí. Ações periódicas de manutenção têm de continuar a existir. E se as metas não foram plenamente atingidas? Então, as propostas exigem reformulação - parcial ou total - para resolver os problemas remanescentes. "Ao definir as prioridades, o gestor não se perde em meio a tantas demandas. Todo ano surgem várias. É necessário discernir as relevantes das secundárias", afirma Débora Rana, coordenadora pedagógica da Escola Projeto Vida e formadora do Instituto Avisa Lá, ambos em São Paulo. 

Abaixo, você encontra o passo a passo que GESTÃO ESCOLAR elaborou para ajudá-lo no planejamento de 2014. Ao responder às perguntas, será possível refletir se as ações realizadas foram bem estruturadas e conduzidas e se surtiram o efeito esperado. No meio do percurso da avaliação, provavelmente surgirão algumas dúvidas: como saber se as falhas ou limitações foram fruto das estratégias de comunicação ou dos prazos estabelecidos ou ainda da forma como as funções foram delegadas? Os comentários da próxima página vão ajudar nas respostas. "O olhar investigativo do gestor é fundamental, mas, quando professores, funcionários, alunos e pais participam da avaliação, fica mais fácil chegar ao problema", afirma Maria Márcia Sigrist Malavasi, coordenadora do curso de Pedagogia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). 

Vale lembrar, contudo, que o fim do ano letivo não é o único momento para fazer essa análise. "Os projetos precisam ter um cronograma definido prevendo que os responsáveis registrem periodicamente se a etapa em curso foi bem-sucedida", sugere Ana Benedita Guedes Brentano, selecionadora do Prêmio Victor Civita Educador Nota 10 - Categoria Gestor. Com esse acompanhamento, fica mais fácil identificar os pontos que precisam ser revistos. Você também vai ver como três instituições fizeram reformulações no PPP com base nesse diagnóstico. Reformulações que, de um ano para outro, fizeram toda a diferença.

Que destino dar aos projetos? 

Responda às perguntas e descubra em que pontos eles merecem ajustes.

Passo a passo para revisar os projetos institucionais.

Ilustração Bruno Algarve

O que está por trás das ações? 

Veja como as medidas contribuem para o replanejamento

Descartar

Segundo Neide Nogueira, coordenadora pedagógica da Comunidade Educativa Cedac, em São Paulo, todo projeto traz aprendizagens para a equipe - como a ampliação da capacidade de planejamento estratégico -, ainda que ele não tenha dado bons resultados. Por isso, abandoná-lo é uma decisão que deve ser tomada apenas quando ele está totalmente em desacordo com as demandas ou apresenta limitações irreversíveis. Exemplo: incentivar a comunicação virtual entre os alunos quando não há acesso à internet na escola.


 

Buscar referências

Um projeto tem estratégias e ações equivocadas quando falta embasamento teórico. Imagine uma unidade de Educação Infantil que, para incentivar a autonomia das crianças, implanta o autosserviço no almoço para todas as faixas etárias. A proposta, segundo especialistas, é adequada para maiores de 3 anos. Contudo, a meta é procedente e pode ser atingida com outras ações -- como as crianças manifestando seus desejos e sendo servidas por uma merendeira. Além de consultar livros e artigos acadêmicos e ouvir especialistas, vale contatar escolas que enfrentaram problemas semelhantes.


 

Reformular metas

Algumas limitações podem, de fato, inviabilizar um projeto (veja o comentário no quadro Descartar). Porém, sempre que possível, procure ajustá-lo. "Já que os desafios que o motivaram não deixarão de existir, vale pensar em adequações", explica Débora Rana. Se o empecilho foi, por exemplo, a falta de material adequado, estabelecer metas intermediárias até a escola dispor dos recursos pode ser uma solução.

 


 

Rever a formação e a comunicação

O projeto institucional, como o próprio nome evoca, envolve diversos setores da escola e todos precisam estar mobilizados. Para que professores e funcionários se envolvam, é preciso que eles estejam conscientes dos propósitos e a maneira como os ajustes vão contribuir para melhorar as condições de ensino e aprendizagem. Por isso, o diretor e o coordenador pedagógico devem garantir que a proposta esteja na pauta de formação das equipes.


Replanejar o tempo

Nem tudo acontece exatamente como previsto no cronograma. No acompanhamento mensal, é possível averiguar em que etapas intermediárias o projeto desandou. Às vezes, um assunto trabalhado nas reuniões coletivas demanda mais encontros para ser assimilado por todos. É melhor redefinir os prazos do que correr o risco de não cumprir os objetivos.


 

Fazer a gestão da equipe

Talvez muitas tarefas se concentrem na mão de poucos. Se um professor sempre se voluntaria para coordenar projetos, pergunte em que momentos ele poderá se dedicar aos compromissos. Caso note sobrecarga, sonde outras pessoas para assumir as funções.

 


 

Discutir novos projetos

A avaliação das iniciativas pode deflagrar desafios até então desconhecidos. Leve-os para as reuniões coletivas e reúna ideias para a implantação de um novo projeto.

 


 

Incluir no PPP

Se cumpridos os objetivos, os projetos se mostram eficientes e, por isso, devem ser consolidados como parte da cultura e da identidade escolar.

 


 

Avaliar periodicamente

Alguns projetos terão continuidade nos anos seguintes, com objetivos mais avançados. Outros, de caráter temporário, precisarão de revisão. Imagine uma horta comunitária, cuja implantação tenha envolvido toda a comunidade por um ano. Ainda que os esforços maiores já tenham passado, é fundamental observar se a horta está sendo usada conforme o planejado. O processo de reavaliação permite detectar se a relevância do projeto permanece a mesma e se as pessoas continuam envolvidas.


 

Reimplantar

Caso a avaliação aponte mudanças na cultura escolar, talvez seja a hora de colocar o projeto em prática novamente. A renovação no corpo profissional e o aumento repentino do número de alunos são fatores que merecem atenção, pois, nesses casos, nem sempre a comunidade conseguirá transmitir os valores institucionais a todos os novatos.



Mais foco no planejamento de aula 

Questionário do conselho de classe mudou para aferir opiniões precisas sobre a aprendizagem

Ana Maria da Silva, diretora.
Foto: Gustavo Bettini

Até 2011, os conselhos de classe na EM Dom Beno, em Jaboatão dos Guararapes, na Região Metropolitana de Recife, não se aprofundavam na análise do desempenho dos estudantes. As reuniões bimestrais giravam em torno de notas, problemas de comportamento e reclamações dos professores - quando o objetivo deveria ser entender as causas do baixo desempenho de alguns estudantes. Pais e alunos não participavam. Foi então que surgiu a ideia do projeto Conselho de Classe: Para quê? A Quem Se Destina? Para dar novo sentido a esses encontros. A equipe gestora passou a elaborar questionários para os professores e para os pais e, com base nas respostas, formular a pauta do encontro. "Graças a esses dados, o debate deixou de ser pautado por impressões pessoais", explica a diretora, Ana Maria da Silva. 

Ao fazer um balanço do projeto, percebeu-se que as metas estavam sendo alcançadas e que os docentes começaram a valorizar a observação do progresso individual de cada aluno e efetuar a autoavaliação da própria prática em sala de aula. No entanto, em conversa com a equipe, Ana Maria notou que o planejamento das aulas ainda era o mesmo e não revelava a intenção das propostas. A saída encontrada foi fazer adaptações no questionário para os professores com foco nesse item e desenvolver uma ficha de perguntas também para os alunos. Nas últimas reuniões dos conselhos, realizadas no terceiro bimestre de 2013, as respostas tabuladas pela equipe gestora traziam dados sobre os objetivos das atividades que a turma realizava, os critérios para a seleção dos materiais pedagógicos de acordo com propósitos e uma análise sobre a gestão do tempo de ensino. Os alunos avaliaram a assiduidade nas tarefas de casa, a organização e o comportamento deles e houve espaço para que registrassem críticas, elogios e sugestões. "Agora que temos um retrato de muitos olhares sobre a aprendizagem, as intervenções planejadas para as aulas têm foco mais preciso", afirma Maria de Fátima Rodrigues da Silva, supervisora da escola.

Reforço na formação 

Clima entre os alunos melhorou depois que docentes passaram a discutir atritos em reuniões

Rita Carvalhaes, vice-diretora
Foto: Paula Huven

As constantes brigas entre os estudantes afligiam a equipe gestora da EE Padre Eustáquio, em Belo Horizonte. Em 2009, o número de ocorrências chegou a mais de 50, contando apenas as que foram levadas ao conhecimento da diretoria. Em uma delas, o Conselho Tutelar - órgão que entra em ação quando todos os recursos internos para a resolução do problema se esgota - teve de ser acionado. Esse fato motivou a implementação, no ano seguinte, do projeto A Paz é a Gente Que Faz, cujo foco era preparar os docentes para a mediação de conflitos e dar abertura aos alunos para que expusessem as insatisfações. 

Maria Leonor Cardoso Ferreira, diretora da escola, frequentou um curso promovido pela Secretaria Estadual de Educação em parceria com o Poder Judiciário, cujo objetivo foi discutir a tomada de decisões diante de casos graves de violência e a relação com o Conselho Tutelar. A gestora compartilhou o que aprendeu em algumas reuniões pedagógicas e orientou os docentes sobre como mediar uma conversa entre os envolvidos no caso de desentendimento. Até então, era comum postergar a solução do problema, que se restringia ao registro do ocorrido e à aplicação de uma punição, sem providências maiores. 

A adesão da equipe, no entanto, não foi plena, segundo apontou a avaliação feita no fim do ano, pois os conflitos que surgiam entre os próprios professores não estavam sendo resolvidos de forma adequada. Em 2011, o projeto foi reformulado e entrou na pauta da formação continuada. As questões de relacionamento interpessoal passaram a ser tratadas periodicamente. "Abrimos espaço para a equipe pontuar formalmente os desentendimentos, com o cuidado de não expor nenhum colega. Assim, acabamos com o bate-boca de corredor", explica a vice-diretora, Rita Carvalhaes. Graças ao exemplo de todos os educadores, as brigas - dos docentes e dos discentes - se tornaram raras. Mesmo com as metas atingidas, as ações de manutenção continuam. "Agora, nos preocupamos em levar esses hábitos aos novatos."

De novo, do zero 

Para envolver a comunidade nos esportes, foi necessário descartar um projeto e iniciar outro

Marjorie Bolognani, diretora (à esq.) e Márcia Siqueira, diretora até 2012.
Foto: Fábio Nascimento

Embora fossem realizados desde 1995, os jogos interclasses da EMEF Professor Vicente Ráo, em Campinas, a 95 quilômetros de São Paulo, não eram prioritários para a equipe gestora - tanto que o projeto nem constava do PPP. A organização ficava sob responsabilidade exclusiva dos professores de Educação Física e cabia a eles decidir as modalidades que entravam na competição. Os times eram formados pelos capitães de cada equipe, escolhidos pelos colegas. Com isso, só os melhores jogavam. Os demais participavam entregando coletes, anotando a pontuação, monitorando os alunos menores ou reforçando a torcida. Apenas os primeiros colocados recebiam medalha. "Queríamos envolver todos os alunos, mas acabávamos organizando um evento excludente", explica Márcia Siqueira, que dirigiu a instituição até dezembro do ano passado. 

Com propósitos incoerentes com os princípios da escola, o projeto foi descartado na reunião de planejamento de 2005 para dar lugar a um novo - os Jogos da Amizade. A meta, a partir de então, passou a ser promover a cidadania e o convívio social. A organização das equipes passou a ser feita por sorteio. A participação aumentou, porém a competitividade continuava se sobrepondo à solidariedade. 

Em 2007, a equipe gestora reavaliou o projeto e notou que o espírito de colaboração poderia estar mais presente se a organização fosse delegada à comunidade. Nasceu, então, a Comissão Organizadora dos Jogos da Amizade (Coja), composta de representantes de alunos, pais, professores e funcionários. As modalidades, a identidade visual do evento, as cerimônias de abertura e de encerramento e até as premiações passaram a ser escolhidas pelo colegiado - inclusive aumentando o número de agraciados com medalhas com a criação de novas categorias. "Incluímos xadrez por sugestão dos alunos que não gostavam de esportes coletivos", conta a professora de Educação Física Márcia Scaramuzza. "Com isso, a importância de participar foi superando a de ganhar." 

Passando por pequenos ajustes nos anos seguintes - como a mudança de horários de reuniões de organização -, a iniciativa se consolidou não apenas como um trabalho pela convivência e integração da comunidade escolar mas também como um pilar da gestão democrática. À atual diretora, Marjorie Samira Ferreira Bolognani, cabe hoje o processo de reavaliação periódica. "Muitos professores estão próximos da aposentadoria. Precisamos manter a cultura quando a equipe se renovar."

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