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Módulo 5: Pular, tocar, dançar

Como ampliar o repertório cultural das crianças por meio de brincadeiras populares que envolvem a música e o movimento expressivo

POR:
NOVA ESCOLA
Se o corre-corre das crianças na Educação Infantil incomoda os professores, vale enfatizar a importância do movimento. Foto: Marina Piedade

O povo brasileiro é conhecido internacionalmente pela sua rica produção musical. De fato, olhando de perto, ninguém nega como é vasto e diversifcado o nosso repertório. O mesmo é possível dizer da dança, que, desde as mais tradicionais até a contemporânea, desenvolveu uma linguagem própria nos últimos anos graças ao trabalho de companhias criativas com seus espetáculos inovadores. E a escola, como tem trabalhado com esse importante conteúdo? O que as crianças estão aprendendo? Como a dança e a música aparecem no currículo? Há muito mais a aprender além de coreografas prontas e apresentações ensaiadas para eventos especiais - tais como as datas comemorativas ou a festa de fm de ano. Esta sequência de formação - elaborada com exclusividade para GESTÃO ESCOLAR por Silvana Oliveira Augusto, professora do Instituto Superior de Educação (Isevec) e coordenadora de cursos a distância do Instituto Avisa Lá, ambos em São Paulo, vai provocar algumas refexões e criar momentos para ampliar o repertório das crianças com base no contexto das brincadeiras infantis de todo o Brasil. 

Objetivo geral

Formar professores da Educação Infantil para a promoção de experiências às crianças de 2 a 5 anos.

Objetivos específicos deste módulo

Apoiar a coordenação pedagógica no planejamento de atividades envolvendo dança e música.

Conteúdos

  • Música e movimento expressivos.
  • Objetivos da aprendizagem da música e da dança.
  • Contextos integradores das duas linguagens com base em tradições folclóricas regionais.
  • Ampliação do repertório cultural das crianças por meio de brincadeiras populares que envolvem a música e o movimento expressivo.

Tempo estimado 

Um semestre, com reuniões quinzenais.

Material necessário 

CDs, materiais para cenários lúdicos (tules coloridos, tecidos, elásticos etc.), máquina fotográfca e/ou filmadora, textos e vídeos sugeridos neste módulo.

Desenvolvimento

1ª reunião: Reconhecer as práticas

Comece avaliando as apresentações que a escola promove. Há muito a aprender além de coreografias prontas em eventos e datas comemorativas. Porém, nem sempre esses momentos são vistos como oportunidade para aprendizagens. Faça uma linha do tempo em papel Kraft com fotos das apresentações das crianças nos últimos anos e peça para os professores reconstituírem a história de cada uma. Convide-os a olhar o painel de longe e refetir: quais apresentações envolveram de modo integrado a música e a dança? Das fotografias, quais melhor representam a expressividade corporal das crianças? Do ponto de vista das aprendizagens específicas, de que modo as turmas aprenderam as coreografias e a musicalidade de cada evento? Como foi planejada a progressão das aprendizagens específicas de cada linguagem? O que aprendemos sobre como ensinar esses conteúdos? Nas próximas festas, o que podemos ter como desafio para que as crianças avancem? Para apoiar essa análise, ofereça o check-list no quadro abaixo, construído com base no Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (RCNEI) e organize uma síntese da avaliação feita para iniciar o portfólio sobre a pesquisa e exploração das danças ou folguedos populares que será desenvolvida.

Coordenador Esta sequência deve ser adaptada de acordo com o tamanho e o tempo de sua equipe. Nessa etapa, por exemplo, é importante validar as boas práticas já constituídas e lançar os desafios para um trabalho que dê espaço à expressão criativa (leia os conceitos nos quadros da 3ª reunião), mesmo que seja baseado em coreografias tradicionais. É possível que essa reunião tenha de ser prolongada.

 

O que as crianças aprenderam

Possibilidades expressivas da dança

  • Exploração de gestos diversos e ritmos corporais.
  • Exploração e reconhecimento dos limites e das potencialidades do próprio corpo.
  • Reconhecimento e utilização das diferentes qualidades e dinâmicas do movimento como:
    • Força
    • Velocidade
    • Resistência
    • Flexibilidade

Possibilidades expressivas da produção musical

  • Percepção e expressão de sensações, sentimentos e pensamentos por meio de:
    • Improvisações
    • Composições
    • Interpretações
  • Reconhecimento e utilização das variações de velocidade e de densidade na organização e realização de produções musicais.
  • Reconhecimento e utilização expressiva das diferentes características geradas pelo silêncio e pelos sons:
    • Altura (graves ou agudos)
    • Duração (curtos ou longos)
    • Intensidade (fracos ou fortes)
    • Timbre ("personalização" dos sons)
  • Reconhecimento de elementos musicais básicos:
    • Frases
    • Partes
    • Elementos que se repetem

 

2ª reunião: Aprender com bons modelos

Folguedos são manifestações folclóricas de grupos que representam um enredo tradicional, desenvolvido com base em um drama de personagens que aparecem trajados a caráter, de acordo com a tradição. Bumba meu boi, congada e pastoril são bons exemplos que surgem em várias regiões brasileiras. O Brasil tem um rico repertório de danças folclóricas, expressões populares caracterizadas por uma coreografa típica que acompanha um certo estilo musical (ciranda, catira e maculelê, entre outros). As tradições culturais são ricos contextos para a criança imaginar, produzir música e dançar. Proponha aos professores a análise de duas experiência com o tema do boi, inspirador de festas populares de diferentes regiões do país. Apresente os textos Brincadeira, Arte e Cultura em Florianópolis, de Mônica Fantin, e Chita no Carnaval e no São João, de Lucília Franzini. Nas discussões em subgrupos, peça que eles preencham um quadro semelhante a este modelo:

Ajude-os a investigar como a estética dos enredos nas diferentes regiões e a riqueza da indumentária de certas manifestações podem ser exploradas em danças e brincadeiras. Para finalizar, construa com os professores um roteiro para o planejamento de uma proposta com base em uma dança ou folguedo, usando o desenho de planejamento desenvolvido por Mônica Fantin.

3ª reunião: Pesquisar para saber mais 

O planejamento de uma nova proposta exige estudos para ampliar o repertório: oficinas com pessoas da comunidade para dançar, tocar e cantar e sessões coletivas de filmes sobre dança enriquecem o trabalho e dão vitalidade ao grupo. Para iniciar essa etapa, organize uma oficina de pesquisa do repertório de danças e folguedos. Oriente os professores a conduzir com as crianças uma consulta à comunidade a fim de identificar pais, amigos, parentes e vizinhos que integrem grupos folclóricos ou conheçam um repertório de memória. Você pode convidá-los a participar de alguns encontros. Ofereça como apoio fontes previamente levantadas e peça que os professores sistematizem as pesquisas para contarem aos colegas. Por fim, oriente-os a escolher uma dança ou folguedo para ensinar às crianças.

Movimento expressivo

Essa dimensão do movimento engloba tanto as expressões e a comunicação de ideias, sensações e sentimentos pessoais como as manifestações corporais que estão relacionadas com a cultura. A dança é uma das manifestações da cultura corporal dos diferentes grupos sociais que está intimamente associada ao desenvolvimento das capacidades expressivas das crianças. A aprendizagem da dança pelas crianças, porém, não pode estar determinada pela marcação e definição de coreografias pelos adultos. (Brasil, MEC, RCNEI, p. 30)

 

Musicalidade expressiva

A música está presente em diversas situações da vida humana. Existe música para adormecer, dançar, chorar os mortos, conclamar o povo a lutar. Presente na vida diária de alguns povos, ainda hoje é tocada e dançada por todos, seguindo costumes que respeitam as festividades e os momentos próprios a cada manifestação musical. Nesses contextos, as crianças entram em contato com a cultura musical desde muito cedo e assim começam a aprender suas tradições musicais. (Brasil, MEC, RCNEI, p. 34)

 

Coordenador Lembre-se de que o ensino de dança e música na Educação Infantil é pouco discutido na formação inicial. A pesquisa orientada em uma reunião pedagógica pode ser desdobrada em vários outros momentos, coletivos e individuais, gerando um programa especial para o estudo autônomo dos professores ou um trabalho compartilhado na comunidade.

 

4ª reunião: Planejar para ensinar melhor

Foto: Marcelo Almeida

Depois de pesquisar as referências, é hora de sistematizar planejamentos consistentes para serem desenvolvidos nos próximos meses - o que pode ser feito em duplas. Você pode intervir sugerindo a melhoria das atividades e organizando pautas para a observação e o registro da prática. Planeje o registro escrito e fotográfico das brincadeiras e a organização de portfólios e elabore um cronograma de encontros para supervisionar o trabalho, criando momentos para que eles partilhem o que estão fazendo.

Inclusão

Como lidar com crianças que tenham alguma deficiência ou necessidade especial que restrinja movimentos ou escuta? No planejamento de atividades envolvendo música e dança, pense em como incluir todas, de acordo com cada contexto. Os próprios alunos podem e têm direito de dar sugestões de como participar. No projeto Ciranda, publicado na revista NOVA ESCOLA, a especialista Maria da Paz Castro, orientadora de práticas inclusivas da Escola da Vila, em São Paulo, sugeriu ajustes para incluir de modo participativo crianças com deficiência motora: colocá-las para ajudar na marcação de ritmo ou dar um sinal combinado com a turma para a mudança de passo, segurar um estandarte ou outro objeto importante para a dança, fazer pesquisa sobre o tema e apresentar aos colegas ou ser o fotógrafo da atividade. "Assim, ele deixa o papel da criança que sempre precisa de ajuda para ocupar um posto importante, de quem tem algo a oferecer à turma", afirma ela. As discussões coletivas devem incluir os demais educadores, porteiros e equipe de apoio, pois muitas adaptações, principalmente as espaciais, envolvem toda a instituição.

 

Coordenador Esse trabalho vai resultar em apresentações mais interessantes das crianças, mas não se esqueça que no dia a dia também há boas oportunidades para elas produzirem música e dançar. E as brincadeiras, atividades permanentes nesse segmento, oferecem um bom contexto. Incentive a equipe a pesquisar sobre elas em sites, livros, revistas e CDs. No site da revista NOVA ESCOLA há uma interessante pesquisa das brincadeiras em 40 cidades em todo o Brasil. Outra sugestão é o acervo Barca.

 

5ª reunião: Avaliação e sistematização 

Organize uma troca de portfólios entre os professores para que cada um conte o que pesquisou, planejou e desenvolveu. Oriente-os a considerar o instrumento utilizado na 1ª reunião como referência de análise do próprio trabalho, explicitando os objetivos específicos das linguagens, o que as crianças aprenderam e o que os professores fizeram. Eles podem produzir painéis com fotografias do percurso e legendas explicativas do processo para apoiar a reunião de pais.

Quer saber mais?

BIBLIOGRAFIA

O Domínio do Movimento, Rudolf Laban, 272 págs., Ed. Summus, tel. (11) 3872-3322, 68,10 reais 

Explorando o Universo da Música, Nicole Jeandot, 174 págs., Ed. Scipione, tel. (11) 4003-3061, 40,50 reais 

Expressão Corporal na Pré-Escola, Patricia Stokoe e Ruth Harf, 152 págs., Ed. Summus, 39,90 reais 

Gestos de Cuidado, Gestos de Amor - Orientações sobre o Desenvolvimento do Bebê, André Trindade, 168 págs., Ed. Summus, 86,90 reais 

Gesto e Percepção, Hubert Godard, in Lições de Dança - vol. 3., Ed. UniverCidade, tel. 0800-606-9999, só para consulta 

Kollreutter Educador, Teca Alencar Brito, 192 págs., Ed. Peirópolis, tel. (11) 3816-0699, 42 reais 

Música na Educação Infantil, Teca Alencar Brito, 208 págs., Ed. Peirópolis, 49 reais

 

 

 

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