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Módulo 4: Desenhar e pintar

Como desenvolver nas crianças o olhar crítico às produções artísticas por meio das habilidades gráficas

POR:
NOVA ESCOLA
Desenhar e pintar. Foto: Ricardo B. Labastier

Desenvolver um olhar inteligente e sensível é um desafio para os educadores de Arte e pesquisadores que estudam e criam metodologias de mediação entre o público e a Arte em museus. Mas como se apura o olhar para uma importante forma de expressão não artística: o grafismo das crianças pequenas? A partir dos 8 meses, elas conseguem sentar e explorar os materiais de desenho e pintura, imitando a professora e os colegas mais velhos. Para que a equipe docente saiba conhecer, apreciar e intervir nos percursos criativos, é preciso reconhecer a linguagem das crianças e compreender o processo que nasce nos primeiros gestos e resulta no desenho. O exercício de observar as imagens contribui para a sensibilização e traz referências importantes para tomar decisões sobre os materiais adequados a cada proposta e as intervenções necessárias ao avanço das habilidades gráficas. É o que propomos nesta sequência de trabalho, elaborada por Silvana de Oliveira Augusto, professora do Instituto Superior de Educação Vera Cruz (Isevec) e coordenadora de cursos a distância do Instituto Avisa Lá, ambos em São Paulo. 

Objetivo geral
Formar professores da Educação Infantil, tendo em vista a promoção de experiências fundamentais às crianças até 5 anos, como ler, conversar, conhecer o mundo natural e social, desenhar e pintar, ouvir e produzir música, dançar e brincar de faz de conta e com jogos de regras.

Objetivos específicos deste módulo
- Desenvolver olhar crítico às produções artísticas.
- Planejar propostas que visem ao desenvolvimento das habilidades gráficas das crianças.

Conteúdos 
- Modos de observação do desenho. 
- Critérios de leitura dos desenhos de crianças.
- Análise dos percursos gráficos.
- Possibilidades de intervenções com base na escolha de materiais e suportes.

Tempo estimado 
Um semestre, com reuniões mensais ou quinzenais.

Material necessário 
Um painel de fundo neutro para exposição das produções, objetos que riscam (lápis, giz, carvão etc.), suportes (papelão, cartolina, papel sulfite etc.) e os dois quadros deste encarte.

Desenvolvimento

1ª reunião: Levantamento dos saberes

Proponha aos professores que tragam à reunião três desenhos de uma criança. Misture as produções, organize uma pequena mostra na sala de reuniões e convide os professores a tentar identificar os autores. Ressalte que os pequenos deixam impressas marcas pessoais, mesmo na fase das garatujas (etapa em que os traços e rabiscos ainda não formam figuras). Ajude-os a notar as semelhanças e as diferenças entre os desenhos. Em seguida, oriente-os a repetir essa reflexão visual, agora tomando como base as produções de toda a turma. Peça para registrarem as descobertas e levarem para a próxima reunião mais três exemplos de pintura ou desenho de uma criança.

Coordenador A maneira de exibir um desenho ou uma pintura influencia a apreciação. Como o exercício de observação será frequente nas reuniões, exponha os desenhos em um fundo neutro - pode ser um quadro ou painel sem molduras ou enfeites ou simplesmente uma área da parede forrada com papel preto.

2ª reunião: Planejamento do tempo 

Inicie a reunião com uma discussão sobre a observação dos desenhos. Há marcas repetidas, ideias retomadas ou temas recorrentes? Depois da conversa, apresente a eles o plano de trabalho. Diga que, a cada reunião, aprenderão a analisar as produções e planejar novas propostas. Para isso, as crianças precisarão desenhar no mínimo duas vezes por semana. Assegure que os professores tenham o tempo e os materiais necessários para a organização das atividades e sugira que eles leiam o texto Para a Organização do Trabalho de Desenho, de Silvana Augusto, autora deste encarte, que traz orientações sobre a seleção de materiais e a análise das produções. Por fim, convide-os a trazer novos exemplos de desenhos. Essa é uma prática que deverá ser repetida em todas as reuniões.

Coordenador O objetivo de trazer desenhos em todos os encontros é ajudar os professores a "ver depois de olhar", ou seja, a descobrir o que há de novo nos rabiscos. Isso representa uma forma de cuidado, como nos ensina Alfredo Bosi, professor emérito da Universidade de São Paulo (USP). "Olhar não é apenas dirigir os olhos para perceber o ?real? fora de nós. É, tantas vezes, sinônimo de cuidar, zelar, guardar, ações que trazem o outro para a esfera dos cuidados do sujeito: olhar por uma criança, olhar por um trabalho, olhar por um projeto. E, não por acaso, o termo italiano guardare e o francês regarder se traduzem precisamente por ?olhar?. "

3ª reunião: Expressão do movimento

Desenhar e pintar. Foto: Marcelo Almeida

Organize o painel com as produções trazidas para o encontro. O primeiro ponto de análise será o gesto. Chame a atenção para o movimento e para a força que a criança exerce ao riscar o papel e levante algumas questões: o desenho sugere um percurso em zigue-zague ou em uma única direção? O movimento é em rotação ou radial (do centro para fora)? Os traços parecem ter sido feitos de forma rápida ou devagar? Em seguida, discuta o que ocorreria se os pequenos variassem a posição em que trabalham. Organize em um painel as hipóteses dos professores - que serão retomadas na próxima reunião. Por fim, oriente-os a planejar propostas de desenho nas quais a criança explora, em dias diferentes, três posições:

  • sentada na cadeira, apoiando o papel sobre a mesa;
  • sentada sobre o chão;
  • de pé, apoiando o papel na parede.


4ª reunião: Intervenções no ambiente

Leia as hipóteses levantadas na reunião passada e convide o grupo a checá-las com base nas produções realizadas na última atividade. Como as crianças reagiram às propostas de explorar diferentes posições corporais? Ajude-os a notar que a variação de posturas amplia as possibilidades de desenho e que, por isso, devemos incentivá-la. Uma ideia é utilizar espaços alternativos para desenhar e pintar - como o pátio interno, o chão do parque, a parede da sala.

5ª reunião: Tipos de traço 

Em 1947, o professor de Educação Artística norte-americano Viktor Lowenfeld (1903-1960) nomeou as primeiras produções infantis como garatujas - termo que usamos até hoje. Anos depois, a psicóloga norte-americana Rhoda Kellogg (1898- 1987) categorizou os diferentes tipos de traço do desenho e da pintura (veja o quadro abaixo). Apoiado nesses padrões, conduza uma análise dos desenhos trazidos pelos professores. Peça que eles apontem as variantes mais recorrentes e mostre que as crianças usam os padrões para se expressar de formas bastante singulares. Em seguida, discuta o uso dos materiais. As produções atuais foram feitas com canetinhas coloridas. Explore com eles outras possibilidades oferecendo canetas esferográficas, hidrocores de ponta grossa e fina, lápis grafite 6B e gizes de lousa molhados. Oriente-os a experimentá-los e a planejar atividades considerando as especificidades de cada material. 

A pesquisa das linhas

Coordenador O tipo de material é determinante na produção gráfica. As canetas, principalmente a hidrocor, são ótimos materiais para desenhar, às vezes melhores do que os gizes de cera ou lápis coloridos, que não riscam bem o papel e exigem muita força da criança. Materiais simples, como giz de lousa, carvão ou mesmo gravetos sobre a areia macia, também podem ser bem aproveitados. Faça um levantamento do que a escola tem disponível e busque ampliar o leque de recursos para esta atividade.

6ª reunião: Distribuição espacial 

Além das linhas, Rhoda Kellogg catalogou os padrões de disposição espacial usados pelas crianças em seus desenhos (veja o quadro abaixo). Discuta sobre como cada criança desenvolve um modo próprio de ocupação do espaço, privilegiando determinadas regiões da superfície. Depois, ofereça aos docentes uma diversidade de formatos de papel (redondo, quadrado, estreito, pequeno, grande etc.) e peça para planejarem as propostas de desenho com base no tipo de papel oferecido. Explique que a criança toma consciência da superfície enquanto desenha. Por isso, variar tamanhos e formatos de papel exige dela novas soluções gráficas.

A pesquisa do espaço

7ª reunião: Avaliação e apresentação 

Depois dos estudos e das intervenções, organize uma exposição de caráter formativo, um momento em que cada professor apresente aos colegas exemplos de percursos gráficos que mostrem a construção das crianças e, ao mesmo tempo, o trabalho docente.

Coordenador Embora a expressividade gestual esteja presente também nas produções das crianças maiores, acima de 2 anos, sabemos que a palavra vai ocupando um papel preponderante em seus desenhos. Para dar continuidade a essa sequência, recomende o estudo Condições Sociais da Construção do Desenho Infantil, de Silvia Maria Cintra da Silva, sobre as relações entre a fala e o desenho. Ela mostra que os pequenos desenvolvem interações sociais durante o processo de produção, observando o que o colega produz e copiando gestos, por exemplo. Com os maiores, vale organizar rodas de apreciação para que elas mesmas reflitam e busquem maneiras de ampliar o repertório de desenhos.

Quer saber mais?

Bibliografia

  • A Constituição Social do Desenho da Criança, Silvia Maria Cintra da Silva, 136 págs., Ed. Mercado de Letras, tel. (19) 3241-7514, 32 reais
  • A Educação do Olhar no Ensino das Artes, Analice Dutra Pillar (org.), 205 págs., Ed. Mediação, tel. (51) 3330-8105, 42 reais
  • Formas de Pensar o Desenho: Desenvolvimento do Grafismo Infantil, Edith Derdyk, 192 págs., Ed. Zouk, tel. (51) 3024-7554, 38,50 reais
  • O Olhar, Adauto Novaes (org.), 528 págs., Ed. Companhia das Letras, tel. (11) 3707-3500, 76,50 reais
  • O Olhar em Construção: Uma Experiência de Ensino e Aprendizagem da Arte na Escola, Anamélia Bueno Buoro, 160 págs., Ed. Cortez, tel. (11) 3611-9616, 35,70 reais
  • Psicologia da Arte, Lev Vygotsky, 396 págs., Ed. Martins Fontes, tel. (11) 3116-0000, 76,72 reais

 

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