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"Os governos desistiram da EJA"

Pesquisador faz balanço da EJA no país e diz como tornar a escola flexível e atraente para quem não pôde estudar na idade certa

POR:
Elisângela Fernandes
Sérgio Haddad,

Sérgio Haddad,
assessor da organização não governamental Ação Educativa, diretor-presidente da Fundação Fundo Brasil de Direitos Humanos

Em 1974, o professor de Economia Sérgio Haddad assumiu a direção do então curso supletivo de 1º e 2º graus, que acabara de ser criado no Colégio Santa Cruz, na capital paulista - até hoje, referência por oferecer um ensino gratuito de qualidade a quem não teve a oportunidade de estudar. Mesmo após deixar o cargo, em 1989, Haddad nunca se afastou da Educação de Jovens e Adultos (EJA), tema que estuda até hoje. 

Formado também em Pedagogia, ele é assessor da organização não governamental Ação Educativa, diretor-presidente da Fundação Fundo Brasil de Direitos Humanos e membro do Conselho Internacional de Educação de Adultos (Icae), ambos em São Paulo, e do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES), em Brasília. 

Em entrevista a GESTÃO ESCOLAR, o pesquisador analisa o cenário atual da EJA no Brasil, explica por que houve uma queda acentuada nas matrículas nessa modalidade - que passou de 4,9 milhões para 3,9 milhões entre 2007 e 2012, segundo o Censo Escolar - e comenta os desafios que os educadores precisam superar com a crescente presença de jovens nas turmas da EJA.

O que explica a redução da matrícula na EJA nos últimos anos?

Sérgio Haddad Esse é um fenômeno pouco estudado. Hoje vivemos um paradoxo: a queda da procura acontece justamente quando há mais financiamento. O Brasil tem cerca de 65 milhões de pessoas com 15 anos ou mais sem instrução ou que não concluíram o Ensino Fundamental. A demanda, portanto, deveria ser enorme, mas isso não aconteceu. Alguns justificam dizendo que houve mudança demográfica. Outros, que não é vantajoso para as redes de ensino investir nesse segmento, pois elas recebem 20% a menos por um aluno do Ensino Fundamental da EJA em comparação ao valor por estudante do ensino regular da zona urbana. Na verdade, os governos desistiram de investir nesse público. 

Quais as evidências dessa desistência por parte dos sistemas de ensino?

São muitas as barreiras que precisam ser superadas para a EJA dar certo: as redes fixam um número mínimo de alunos para formar as turmas no período noturno, faltam coordenadores pedagógicos especializados na modalidade, as bibliotecas ficam fechadas e não há iluminação na quadra de esporte à noite, entre outros problemas. O aluno mal sabe onde há vaga. Não se investe em divulgação, que precisaria ser feita nos metrôs, nos ônibus e pela internet. Além disso, o público da EJA raramente toma a iniciativa de procurar a escola, por vergonha ou por acreditar que o tempo de estudar passou. Teria de haver uma atitude ativa do Estado e uma intensa mobilização. 

Por que o desinteresse em atender jovens e adultos?

Pela lógica do custo-benefício. Há uma influência forte da economia sobre a Educação. Prevalecem as óticas da racionalidade e da produtividade em prejuízo da do direito à Educação. A EJA não cabe nem naquela visão: ela sempre será mais cara e terá turmas menores, pois os estudantes têm dificuldades específicas e isso exige um ensino de natureza diferente. 

Ignorar o problema e investir apenas na escolarização das próximas gerações é uma boa saída do ponto de vista econômico?

Nem sob essa ótica a ideia se sustenta. Há dois fatores que têm grande impacto no rendimento dos alunos, principalmente os de baixa renda: ter acesso à Educação Infantil e pertencer a uma família cujos pais avançaram nos estudos. Se os sistemas públicos investissem em EJA, poderiam trazer os adultos analfabetos para a escola e fazer com que eles vivenciassem o processo de aprendizagem junto com os filhos e de forma positiva. Mas prefiro olhar o problema sob a ótica do direito: se essas pessoas não tiveram a oportunidade de estudar na época adequada, não foi por culpa delas, mas das condições sociais, culturais e econômicas - e essa injustiça precisa ser corrigida. 

Houve avanço nos últimos anos?

Algumas políticas do governo federal foram mais efetivas para a EJA do que o próprio financiamento do Fundo de Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb), como o Programa Dinheiro Direto na Escola (PDDE) e outros que garantem livros didáticos, merenda e transporte para os alunos da EJA. Muitos vão à escola direto do trabalho e ter condições de mobilidade e alimentação ajuda muito. Mas apenas isso é insuficiente.

De que maneira o diretor de escola pode contribuir para ampliar a EJA com qualidade?

Antes de mais nada, não fazendo da EJA uma mera adaptação do ensino regular, mas pensando nela em sua especificidade. O gestor precisa ter abertura para ouvir o aluno que chega à escola à noite e conhecer os desejos, as necessidades e as demandas dele em relação à aprendizagem. Com isso é que ele vai construir, com a equipe, o projeto político-pedagógico, pensando não só no currículo mas também no espaço e na flexibilidade dos horários. As experiências que levam esses fatores em consideração mostram que as pessoas, ainda que mais velhas, podem, sim, gostar da escola e aprender. 

Quais os impactos da crescente presença de jovens na EJA?

Quando comecei a trabalhar com esse público, em 1974, os alunos eram na maioria adultos, com pouquíssima experiência escolar. Veneravam a escola e tinham uma enorme expectativa de futuro. Com o aumento da evasão e da repetência, os jovens passaram a contar com a EJA para terminar os estudos e trouxeram com eles alguns conflitos. Muitos veem o professor como aquele que os fez abandonar ou ser expulsos ou o que não conseguiu ensinar. O ambiente é hostil. 

Como ajudar os professores a lidar com essa realidade?

O diretor precisa ter abertura e liderança para incentivar o diálogo e deve criar um ambiente de acolhimento, envolvendo todos na discussão dos problemas. É trabalhoso, mas não há outro caminho. A construção coletiva é o principal fator de motivação em qualquer processo de escolarização de jovens e adultos. Quando isso ocorre, há um enorme prazer em trabalhar em grupo. Além do mais, a lógica de que o educador é treinado para ensinar e transmitir o conhecimento tem de mudar. Paulo Freire já nos mostrou que esse é um processo de mão dupla e coletivo. Na EJA, a colaboração é mais exacerbada porque lidamos com pessoas com uma considerável experiência de vida. Quando a bagagem e a diversidade cultural dos alunos, que são riquíssimas, dominam o ambiente escolar, todos se engajam e o prazer pelo conhecimento supera qualquer outro. 

Assista ao vídeo com trechos exclusivos da entrevista com Sérgio Haddad:

Após 10 anos de Brasil Alfabetizado, Sérgio Haddad critica resultados obtidos pelo programa:

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