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Estagiários: os professores e gestores do futuro

Planeje atividades para o estudante universitário. Além de aprender, ele pode trazer boas ideias à escola

POR:
Ana Gonzaga
Planeje atividades para o estudante universitário. Além de aprender, ele pode trazer boas ideias à escola. Foto: Marcelo Almeida

A aluna de Pedagogia Eliana Botlender Severo (foto) trabalhava paralelamente à universidade, mas decidiu, no ano passado, deixar o emprego para se dedicar ao estágio na EM Professor Ricardo Krieger, em Curitiba. "Ao conhecer o dia a dia da escola, descobri o interesse pela carreira na área de gestão", explica. O estágio ajuda na assimilação da cultura profissional e na compreensão dos papéis dos professores e gestores - e, por isso, é uma etapa fundamental para a formação dos estudantes de licenciaturas e de Pedagogia. 

Apesar da importância, muitas vezes a escola não admite estagiários - por desinteresse ou insegurança sobre como orientá-los - ou os recebe de improviso. Trata-se de um duplo prejuízo: não só se deixa de contribuir para a formação inicial docente como se perde a chance de entrar em contato com ideias e iniciativas que surgem na universidade. Caso existam instituições de Ensino Superior na região, que tal se aproximar delas e elaborar um programa de estágio com objetivos claros, planos de atividades e critérios de avaliação? A iniciativa pode partir de ambas as partes. Em todo caso, a escola deve nomear um coordenador - pode ser um membro da equipe gestora ou um professor -, que faça a interface com a faculdade e se responsabilize pela acolhida dos estudantes (leia na próxima página). 

O estágio deve seguir as normas do Ministério da Educação (MEC). As graduações em licenciaturas exigem uma duração de pelo menos 400 horas, divididas entre observação de aulas e atividades práticas, que variam conforme a disciplina. Em Pedagogia, o mínimo é de 300 horas, incluindo aí a observação da gestão escolar e da regência em sala de aula. Ou seja, o futuro professor ou gestor também deve participar de reuniões do conselho de escola e da Asssociação de Pais e Mestres (APM), auxiliar os professores na organização das reuniões de pais e acompanhá-las, colaborar na organização de documentos e ajudar na preservação da memória institucional.

Nas escolas parceiras do curso de Pedagogia no campus de Guarulhos da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), na região metropolitana da capital paulista, o estágio dura 45 horas, em dez dias letivos. Nesse tempo, os alunos se debruçam sobre três aspectos da gestão escolar: o projeto político-pedagógico (PPP), as relações entre a escola e as famílias e os processos que envolvem a gestão local e a rede de ensino. A avaliação é feita por meio dos instrumentos utilizados no programa como o caderno de campo, o roteiro de trabalho e o relatório final. Para afinar o compromisso, a universidade e as instituições se reúnem semestralmente. 

Também é possível o formato no qual os alunos frequentam a escola diariamente por vários meses. Na EMEF Desembargador Amorim Lima, em São Paulo, o compromisso com a permanência de pelo menos um semestre é um dos critérios de seleção. Segundo a diretora, Ana Elisa Siqueira, é o tempo necessário para os estagiários conhecerem a dinâmica da escola e colocarem projetos em prática. Além de acompanhar as aulas, eles tiram dúvidas e organizam oficinas de leitura e de Arte. Toda ação direta com as crianças, no entanto, tem a supervisão de um professor. Afinal, vale lembrar que o estudante ainda não está preparado para substituir um profissional formado. "Ele ainda não tem nem autoridade nem maturidade para reger uma sala de aula sozinho", diz Rogério Amirati, coordenador pedagógico da EE Professor Geraldo Campos Moreira, em São Paulo. 

Quando bem orientadas, as iniciativas dos estagiários podem ser incorporadas à rotina escolar. A graduanda de Pedagogia Eliana Severo, citada no início da reportagem, desenvolveu em uma turma um projeto de leitura que conquistou a participação dos pais e, por isso, foi estendido a todas as classes. De um lado, a escola contribui para a formação do estudante com a experiência de seus profissionais e o contato com os alunos e, de outro, o estagiário colabora com o envolvimento, a capacidade de pesquisa, a criatividade e o empenho. Vale a pena, portanto, abrir as portas para a universidade.

Recepção planejada 

Para o estágio ser frutífero, a escola e a universidade precisam tomar algumas providências. 

Escola 

  • Nomear uma pessoa para coordenar o programa de estágio. 
  • Incentivar os docentes a receber um estagiário, pois a experiência ajuda a refletir sobre a prática. 
  • Alinhar as propostas da universidade com o PPP da escola. 
  • Comunicar aos estudantes suas funções e as expectativas de atuação. 
  • Mostrar à equipe como supervisionar a observação e as práticas. 
  • Solicitar dos estagiários relatórios periódicos das atividades realizadas. 
  • Incentivar os estudantes a apresentar projetos pedagógicos ou institucionais. 
  • Incluir as boas sugestões nas pautas dos encontros coletivos. 

Universidade 

  • Expor à equipe gestora o que espera que seu aluno aprenda na escola. 
  • Orientar os estagiários, em reuniões prévias, na execução das tarefas. 
  • Acompanhar o desenvolvimento do estudante por meio de relatórios e registros. 
  • Replanejar os conteúdos curriculares com base nas devolutivas. 

Consultoria: Stela Piconez, professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP).

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