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Eles vão à escola para ver os amigos

E isso é bom! Trabalhos em grupo e atividades culturais agradam os jovens e os engajam no ensino

POR:
Aurélio Amaral
Grêmio estudantil ativo. Foto: Ricardo Jaeger

Não é fácil encontrar adolescentes que digam ter prazer em estudar. Ainda assim, a maioria gosta de ir à escola. É o que aponta a pesquisa O Que Pensam os Jovens de Baixa Renda sobre a Escola, feita pelo Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) sob encomenda da Fundação Victor Civita (FVC), ambos em São Paulo. A principal motivação? Encontrar os amigos. "Os alunos do Ensino Médio veem a instituição mais como um lugar de convivência do que de aprendizagem. Isso mostra o peso das relações sociais na adolescência", diz Haroldo Torres, coordenador da pesquisa. 

Grande parte dos entrevistados considera boa a convivência com os companheiros de classe e gosta de trabalhos em grupo (veja os números abaixo). No entanto, muitas vezes os gestores veem a sociabilidade como um problema. Pensa-se que toda interação social é sinônimo de zoeira - forma de tratamento interpessoal que vai desde conversas durante a explicação do docente até pequenos enfrentamentos físicos, que não chegam a caracterizar brigas. 

De fato, a zoeira é um incômodo e os próprios estudantes reconhecem isso. Para 76,7% dos entrevistados, os colegas de classe fazem bagunça a ponto de atrapalhar a aula e 21% deles admitem pertencer à turma do fundão - a que tem a pior fama na sala de aula. Esses comportamentos estão ligados principalmente à falta de percepção de sentido nos conteúdos das disciplinas. A situação se agrava quando o ambiente não é acolhedor. "Em várias das instituições visitadas, havia câmeras nos espaços de uso comum, o que incomoda os alunos", conta Haroldo. 

Aliados ao baixo desempenho e à reprovação, fatores internos como os descritos são os maiores motivos para o abandono - razões como trabalho e gravidez na adolescência são apontadas por apenas um terço dos entrevistados que deixam os estudos. A diferença é que o diretor pode interferir sobre o que acontece dentro da escola. Então, por que não aproveitar a boa socialização dos jovens para engajá-los? Confira as estratégias para promover o contato entre os alunos no quadro abaixo e nos exemplos desta reportagem. É necessário, porém, estar aberto às propostas. Um outro estudo, realizado por Alexandre Barbosa Pereira, doutor em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo (USP), mostrou um descompasso entre os desejos dos jovens da periferia da capital paulista e a política da escola. Em um dos relatos, uma turma sugeriu um campeonato de dominó para melhorar a rotina. A equipe docente achou a ideia absurda, pois o jogo remetia a uma cultura de bares. "Os jovens reclamam que a escola é autoritária e não os entende. É uma postura que precisa ser revista." Ou seja, incentivar o contato entre os estudantes é também uma maneira de a própria instituição se aproximar deles.

Grêmio estudantil ativo

O Festival de Cinema Estudantil de Flores da Cunha, a 139 quilômetros de Porto Alegre, é organizado pela EEEM São Rafael e está na 15ª edição. O evento tem o apoio da prefeitura - que cede os equipamentos de filmagem - e da Universidade de Caxias do Sul (UCS), no município vizinho, que ajuda na orientação dos projetos, do roteiro à finalização. A noite da exibição dos curtas atrai a comunidade em peso. Mas o festival só ganhou proporção graças ao envolvimento do grêmio estudantil. "Ele incentivou os alunos a elaborarem roteiros e, com isso, criaram o hábito de assistir e produzir cinema na escola", explica o diretor, Vitório Francisco Dalcero. O engajamento da entidade também foi decisivo para que os torneios esportivos interclasses e o Festival de Poesia dessem certo. Um professor é responsável por coordenar as iniciativas extracurriculares, mas os representantes dos alunos se envolvem na organização, da escolha de datas à definição do orçamento.

As amizades contam muito

Jovens têm percepção positiva das relações interpessoais no ambiente educativo

91,9% convivem bem com a turma 

89,6% gostam da maioria dos companheiros de classe 

76,4% têm prazer em trabalhar em grupo 

74,4% confiam nos colegas para falar de assuntos pessoais 

Fonte Pesquisa FVC/Cebrap

Postar, curtir e compartilhar

A EE Professor Soares Ferreira, em Barbacena, a 172 quilômetros de Belo Horizonte, mantinha um blog desde 2010 para atualizar a comunidade de reuniões e eventos festivos. O diretor, Fernando Cézar de Paiva, percebeu que a página não atraía a atenção dos pais nem dos alunos. "Os jovens passam boa parte do tempo no Facebook. Se a plataforma deles mudou, precisamos mudar também", explica. Em 2012, o blog virou uma página dentro da rede social. A princípio, ela era administrada pelo próprio diretor, até que ele notou que a interação seria maior com a participação direta dos estudantes. Hoje, três representantes de cada série do Ensino Médio pensam e redigem os conteúdos, que passam pela supervisão de Fernando antes da postagem. Além dessa página, a escola tem outras três para a divulgação da produção dos projetos didáticos, aproveitando o engajamento digital para reforçar o ensino. 

Ponto de encontro

Desde o ano passado, a EMEF Marili Dias, em São Paulo, investe na melhoria da infraestrutura do pátio para torná-lo mais aconchegante. O piso foi renovado, os muros ganharam novas cores e mesas de pingue-pongue e tabuleiros de xadrez foram comprados para que o intervalo tivesse mais opções recreativas. Ao se sentirem mais acolhidos durante o turno regular, os adolescentes passaram a frequentar a instituição no contraturno e nos fins de semana. Mesmo as partidas de futebol no fim de tarde, que eram realizadas informalmente, ganharam o respaldo institucional. As luzes da quadra de esportes começaram a ser acesas depois das aulas, permanecendo até as 22 horas. "O bairro tem poucos espaços de lazer e socialização. É natural usar a escola para esses fins", diz a diretora, Glória Cortez. Com isso, os alunos passaram a se preocupar com a preservação do prédio. As pichações e depredações, antes recorrentes, não acontecem mais.

Aproveitando o social

Confira cinco maneiras de usar o gosto por atividades coletivas dos jovens a favor da aprendizagem 

- Incentive o trabalho em grupo Nos encontros de formação, discuta com os docentes a possibilidade de incluir debate e pesquisa em equipe nas aulas. Carteiras móveis facilitam o agrupamento e é preciso ter espaços onde grupos de estudo se reúnam no contraturno, como salas ociosas ou cantinhos na biblioteca. 

- Crie um ambiente aconchegante Contam pontos a favor do clima a boa conservação do prédio e o acesso aos materiais e espaços de uso comum. A sala de informática fica trancada na hora do recreio? Como é feito o empréstimo de bolas, raquetes de pingue-pongue e outros materiais de lazer? 

- Mantenha a escola ativa Que tal promover campeonatos esportivos, grupos de dança e outras atividades fora do horário de aula? A equipe gestora não precisa fazer tudo sozinha. Chame a garotada para colaborar na organização e na coordenação dos projetos. 

- Inclua a tecnologia na rotina Discuta o uso das ferramentas nos encontros de formação e oriente a equipe sobre incluí-las no planejamento de atividades. Aproveite para estreitar a relação com os alunos, criando blogs, páginas e grupos em redes sociais. 

- Adapte o regimento interno As novas atividades demandam normas. Celulares serão usados em aula? Então, é preciso determinar em que situação e o que pode ser feito com ele e também prever as exceções. Fazer trabalhos em grupo, por exemplo, exige que as regras sobre o silêncio sejam repensadas - afinal, as trocas vão gerar uma certa zoeira.


 

 

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