Seções | Avaliação | Entrevista

"É preciso contextualizar os resultados das avaliações"

Pesquisador defende que notas dos exames externos cheguem a professores e gestores em linguagem acessível

POR:
Paola Gentile
Chico Soares,

Chico Soares,
é professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)

Um dos maiores especialistas brasileiros em avaliação e medidas educacionais é o professor José Francisco Soares, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Chico Soares, como é conhecido, acompanha desde a década de 1990 os exames que periodicamente são realizados pelos alunos para ver a quantas anda o aprendizado na Educação Básica no país. Ele compactua com a opinião de que a introdução dos testes foi um avanço, pois dão uma visão objetiva dos conhecimentos realmente adquiridos, porém está convicto de que os resultados não estão sendo aproveitados em todo o seu potencial. Além de raramente serem usados na concepção de políticas públicas, chegam às escolas em formato pouco útil: "Apenas com a nota média da instituição é impossível dizer em que dimensões curriculares são necessárias ações pedagógicas ou de gestão. Falta traduzir as notas em linguagem próxima dos gestores e professores para que elas promovam as transformações cabíveis no âmbito da escola. O sistema de avaliação é muito caro para ser utilizado somente em parte de seu potencial", afirma o professor. Nesta entrevista a GESTÃO ESCOLAR, Chico Soares sugere modelos para a divulgação dos dados de exames como a Prova Brasil. 

A nota de uma escola na Prova Brasil é dada por meio de uma escala que varia de zero a 500. Essa maneira de divulgar o resultado é eficiente?

CHICO SOARES Sintetizar as respostas dos alunos aos itens do teste, em um único número, é necessário, pois permite verificar a porcentagem de alunos que não aprendeu como deveria e identificar as escolas exemplares e, portanto, as práticas pedagógicas e políticas usadas por elas. No entanto, isso não é suficiente. É preciso traduzir a nota em uma linguagem curricular. Por exemplo, o que sabem exatamente os estudantes que têm nota 180 no descritor 6 de Língua Portuguesa, que é identificar o tema de um texto?

Como esses dados precisariam ser interpretados e comunicados? 

A equipe que consolida os números finais das avaliações deveria providenciar dois relatórios. Um pedagógico, destinado aos coordenadores e aos professores, e outro para o gestor. O primeiro deve ter uma descrição resumida dos conceitos de competência, habilidade e matriz de referência - base da Prova Brasil - e um esclarecimento sobre a metodologia de construção do teste, conceitos ainda pouco conhecidos dos educadores. Depois dessa introdução, viria a explicação pedagógica dos números. Essa interpretação consiste em mostrar a proficiência do aluno em relação a cada item avaliado e a probabilidade de ele acertar outros mais fáceis e mais difíceis. Esse é o chamado mapa de itens. Em seguida, o relatório apresentaria comentários de esclarecimento. 

E o relatório de gestão? 

Esse iria para as mãos do diretor, que deve estar a par de como os alunos estão distribuídos nos níveis. Está se consolidando no Brasil o uso de quatro níveis: avançado, proficiente, básico e insuficiente, que demandam intervenções pedagógicas diferentes - desafio, aprofundamento, reforço ou recuperação. Ao saber a porcentagem de estudantes em cada um deles, o gestor poderá decidir o projeto prioritário para sua escola. Além disso, esse documento apresentaria o cruzamento dos resultados com os fatores sociodemográficos, como gênero, atraso escolar, perfis cultural e socioeconômico dos alunos, envolvimento dos estudantes com os estudos e dos pais com a Educação dos filhos e os hábitos de leitura da comunidade. São fatores externos que influenciam a aprendizagem e, se o diretor não pode controlá-los, pode minimizá-los ou neutralizá-los.

Por que um relatório assim seria mais útil para os educadores? 

Porque embasa a tomada de decisão. Exemplo: uma escola tem 35% dos alunos no nível adequado em leitura, só que, desses, 52% são meninos e 67% meninas. Muitos esperam que o gênero feminino se saia melhor nessa habilidade, mas a diferença é grande, de 15 pontos porcentuais. O gestor atento vai comparar esse dado com o de uma escola semelhante e perceberá que, nelas, a diferença é de sete pontos. Alguma coisa está errada com a escola dele, e ele vai se perguntar: que tipo de texto estamos usando em sala de aula? Eles agradam também aos meninos? O espaço escolar é muito feminino? As habilidades e preferências dos meninos são valorizadas? Assim, é possível entrelaçar os resultados e propor ações específicas no âmbito da gestão que impactarão no desempenho dos garotos. 

A escola não deveria almejar ter todos no nível avançado? 

Não, por causa da diversidade, um valor que precisa ser enfatizado. Em qualquer sociedade, são necessárias pessoas boas em diversas habilidades. Se um estudante quer ser músico, não precisa ter o mesmo conhecimento de Biologia do que o futuro médico, porém terá de adquirir saberes para compreender certos fenômenos e a sociedade em que vive. O que a escola não pode aceitar é ter alunos no nível insuficiente. Perceba que o nível básico não é medíocre. Ele indica que o estudante aprendeu o mais importante. E o adequado, que o aluno está apto a continuar os estudos com sucesso. 

Há algum indício de que o sistema de média será substituído? 

Que eu saiba, não. Ainda vigora a lógica da classificação, e não a do diagnóstico. Muitas redes têm obrigado suas unidades a exibir o número do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, o Ideb, na fachada. Esse dado diz pouco sobre a qualidade do ensino do estabelecimento e sugere que qualquer um pode obter qualquer resultado. As escolas têm de ser comparadas com outras semelhantes, ou seja, aquelas que têm a mesma complexidade e enfrentam dificuldades parecidas. Senão, um dado diagnóstico passa a ser opressor. É mais difícil obter sucesso em uma escola maior do que numa pequena; as que atendem mais de um segmento correm mais risco de ter problemas na gestão do que uma que receba estudantes de um só; onde há poucos alunos por turma, a realidade é outra; e o nível socioeconômico do público também é um fator determinante. No entanto, o objetivo final, que é o aprendizado de todos, deve ser o mesmo para todas as escolas. 

O que deve mudar na Prova Brasil e nos questionários respondidos pelos gestores, professores e alunos? 

Pouca coisa. Apenas detalhes de redação. As informações importantes estão todas nesses documentos. É preciso contextualizar os resultados e refletir sobre eles com olhar sociológico e pedagógico.

Compartilhe este conteúdo: