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Mais valor à pesquisa

Orientadora do laboratório de Ciências usa o espaço para formar os professores polivalentes, aproximando-os das práticas investigativas

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NOVA ESCOLA
Nizete, da EMEF Candido Portinari, propõe aos professores atividades de pesquisa. Foto: Fernanda Frazão

A investigação é uma etapa central na construção do conhecimento científico e indispensável para aprender Ciências. Porém, os professores precisam estar familiarizados com as estratégias de pesquisa e a formulação de hipóteses para desenvolver atividades significativas para os alunos. Por ser formada em Biologia, me sentia bastante segura para trabalhar dessa forma nas turmas do 6º ao 9º ano. No entanto, os docentes polivalentes tinham dificuldade em fazer o mesmo nas séries iniciais do Ensino Fundamental. Nesse segmento, as aulas eram predominantemente expositivas e os conteúdos de higiene - um tema transversal - tinham mais espaço do que os de Física, Química e Biologia. 

Era clara a necessidade de elaborarmos um projeto de formação específico para a disciplina. Consegui implementá-lo em 1995, quando, afastada da sala de aula por problemas de saúde, precisei ser readaptada em outra função. Na ocasião, sugeri à equipe gestora criar um laboratório de Ciências, pelo qual eu seria responsável. Além de supervisionar as aulas práticas, fiz a proposta de desenvolver atividades com os colegas. 

A direção topou. Reformamos um banheiro desativado, que servia como depósito de materiais, até que a escola construísse um espaço específico - o que aconteceu quatro anos depois -, e instituimos horários fixos para a formação.

Aos poucos, a iniciativa foi provocando reflexões sobre os conteúdos e a forma de ensiná-los. Certa vez, discutimos sobre como introduzir os fundamentos das cores para as turmas do 1º e do 2º ano. Uma professora queria trabalhar com o arco -íris - elemento que desperta a curiosidade das crianças -, mas ela não estava segura sobre as atividades a propor. A equipe relembrou os elementos necessários para a formação do fenômeno - luz branca e água - e levantou algumas hipóteses para recriá-lo: usando a água de uma mangueira contra o sol, iluminando um prisma com uma lanterna ou expondo à luz um CD mergulhado em uma bacia d?água. Como saber qual deles funcionaria melhor? Sugeri que testássemos nós mesmos. Na medida em que realizavam as experimentações, os professores não apenas se sentiam mais motivados a reproduzi-las em aula como reforçavam seus conhecimentos teóricos, já que eles tiveram de estudar paralelamente conceitos de Física - como a refração e a decomposição da luz branca. 

Eu também aprendo muito nesses encontros. A equipe das séries iniciais me ajuda a repensar a formação com base nas necessidades dos alunos pequenos, já que minha experiência em sala, até então, tinha sido apenas com os anos finais do Ensino Fundamental e o Ensino Médio. Hoje coloco em discussão como relacionar os experimentos científicos com as atividades de alfabetização - o que é importante especialmente nos primeiros anos. Para as pesquisas que envolvem materiais cortantes ou fogo - que a princípio pareceriam adequadas apenas para os mais velhos -, desenvolvemos em conjunto algumas adaptações, como deixar as etapas mais perigosas sob responsabilidade do professor. 

Os bons resultados ganharam o reconhecimento da rede de ensino. Em 2003, fui convidada pela Secretaria Municipal de Educação de São Paulo para ser formadora de professores da primeira etapa do Fundamental no Projeto ABC da Educação Científica Mão na Massa. Por um ano, coordenei o projeto em 12 unidades escolares, um total de 280 professores. A experiência me motivou a fazer um mestrado na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), no qual me aprofundei teoricamente na pesquisa sobre a formação docente em Ciências. 

Graças ao contato com uma professora que participou da minha banca de mestrado, estabeleci uma parceria com o laboratório de Física da USP. Por três anos, nossos professores receberam quinzenalmente formação na própria escola e bimestralmente na faculdade, com os docentes de lá. Atualmente, estou trabalhando na minha tese de doutorado, também na USP. Ao incentivar os professores a valorizar a pesquisa em sala, acabei aproximando a instituição da pesquisa acadêmica.

Maria Nizete de Azevedo é orientadora do Laboratório de Ciências da EMEF Candido Portinari, em São Paulo.

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