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Dois velhinhos

POR:
NOVA ESCOLA

Dois inválidos, bem velhinhos, esquecidos numa cela de asilo.

Ao lado da janela, retorcendo os aleijões e esticando a cabeça, apenas um consegue espiar lá fora.

Junto à porta, no fundo da cama, para o outro é a parede úmida, o crucifixo negro, as moscas no fio de luz.

Com inveja, pergunta o que acontece. Deslumbrado, anuncia o primeiro:

Um cachorro ergue a perninha no poste.

Mais tarde:

Uma menina de vestido branco pulando corda.

Ou ainda:

Agora é um enterro de luxo.

Sem nada ver, o amigo remorde-se no seu canto.

O mais velho acaba morrendo, para alegria do segundo, instalado afinal debaixo da janela.

Não dorme, antegozando a manhã. O outro, maldito, lhe roubara todo esse tempo o circo mágico do cachorro, da menina, do enterro de rico.

Cochila um instante é dia. Senta-se na cama, com dores espicha o pescoço: no beco, muros em ruína, um monte de lixo.


Conto publicado no livro Mistérios de Curitiba, Ed. Record

Dalton Trevisan, dissecador da condição humana

Dalton Trevisan produz contos curtos, escritos em linguagem tão concisa que muitas vezes chega a ser elíptica: ele mesmo declarou que seu caminho vai "do conto para o soneto e dele para o haicai". Seu estilo é direto e ágil e suas narrativas apresentam os dramas de pessoas que se movem entre as expectativas de felicidade e realização que aprenderam a alimentar e a realidade crua e desumana, que as frustra e aniquila. As relações humanas que apresenta comprovam que a realidade é degradada e cruel: as pessoas se maltratam e se ferem em vez de manterem no cotidiano vínculos de carinho e respeito. Assim, marido e mulher estão sempre em conflito, pais e mães oprimem os filhos, amigos se confrontam e disputam o poder... Nem os animais de estimação escapam desse moinho de sentimentos: sua ingênua dedicação recebe impaciência e indiferença como retribuição.

Sua escrita sintética e contundente pode ser considerada uma referência constante no trabalho de muitos contistas recentemente surgidos, como os da Geração de 90.


Para ler mais

  • Guerra Conjugal, Dalton Trevisan, 144 págs., Ed. Record, tel. (21) 2585-2000, 26,90 reais
  • Mistérios de Curitiba, Dalton Trevisan, 125 págs., Ed. Record, 26,90 reais
  • O Vampiro de Curitiba
    , Dalton Trevisan, 112 págs., Ed. Record, 26,90 reais
  • Pico na Veia, Dalton Trevisan, 112 págs., Ed. Record, 26 reais

Biografia

Tímido e arredio, o curitibano Dalton Trevisan foge do assédio dos jornalistas e guarda sua vida pessoal a sete chaves. Não fornece seu telefone, tem raros amigos nos círculos literários e por vezes se recusa a receber pessoalmente os prêmios conquistados por seus contos magníficos. Mas é possível imaginá-lo à noite, percorrendo às escondidas as ruas da capital paranaense, escutando atrás das portas as manifestações dos desejos escondidos da população, alimentando-se deles, trazendo-os à superfície e incorporando-os a seus escritos.

Não por acaso, o escritor que muitos consideram o maior contista brasileiro contemporâneo costuma ser designado pelo título de um de seus livros de histórias curtas: o Vampiro de Curitiba.

Nascido em 14 de junho de 1925, Dalton Jérson Trevisan estreou na literatura em 1945, quando ainda cursava Direito. Entre 1946 e 1948, tornou-se conhecido como editor da revista literária Joaquim, que reuniu ensaios de críticos como Antonio Candido e Otto Maria Carpeaux, textos em prosa e poemas inéditos de autores brasileiros e traduções de Joyce, Kafka e outros nomes das letras mundiais. Ao mesmo tempo, continuou a burilar os seus contos, em geral ambientados na capital paranaense. O conto foi praticamente o único gênero a que Trevisan se dedicou, pois além deles escreveu apenas um romance, A Polaquinha (1992).

Em 1959, publicou Novelas Nada Exemplares, que lhe valeu o Prêmio Jabuti: o primeiro dos muitos de sua carreira. Em 1965, foi lançado O Vampiro de Curitiba, com o emblemático personagem Nelsinho, de uma sensualidade febril, que assedia velhinhas, respeitáveis donas-de-casa, virgens e prostitutas polacas ou bem brasileiras. Dez anos depois, seu livro Guerra Conjugal foi adaptado para o cinema por Joaquim Pedro de Andrade. Em 1996, recebeu o Prêmio Ministério da Cultura de Literatura pelo conjunto de sua obra. Em 2003, dividiu o 1º Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira, com o livro Pico na Veia: o vampiro recluso permanece ameaçador.

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