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Repensar a indisciplina

Saiba como estimular a equipe a refletir sobre a própria postura e orientá-la para atuar frente a situações de conflito na escola

POR:
NOVA ESCOLA
Objetivos 
  • Geral: promover uma mudança de olhar em relação à indisciplina, estudando conceitos de desenvolvimento moral e ético e adotando-os como conhecimento necessário ao processo educacional. 
  • Para a direção: analisar o regimento da escola e orientar a atuação da equipe diante de situações de conflito.
  • Para a coordenação pedagógica: estimular a equipe a refletir sobre a própria postura.
  • Para os professores: conhecer os princípios de um ambiente de cooperação.



Conteúdo de gestão escolar

  • Pedagógico e equipe: conhecimento sobre desenvolvimento moral, ética e valores humanos.


Tempo estimado 

No mínimo um ano, com reuniões semanais. Os problemas não acabam depois desse período. O objetivo é que todos aprendam a lidar com eles.
 


Desenvolvimento 

1ª etapa  O significado da indisciplina

Para mudar a perspectiva em relação à indisciplina, é imprescindível que a escola se responsabilize cotidianamente por garantir um ambiente de cooperação, em que o valor humano, o respeito, a dignidade e a integridade marquem as relações. Essa conquista pode se dar por meio de um percurso de formação continuada para todos os funcionários.

Para começar, levante com a equipe quais as principais situações de indisciplina na visão dela. Organize o grupo em duplas. Cada uma deverá classificar as situações em categorias e apresentá-las. Anote os resultados e guarde-os para retomá-los no fim da formação.

O próximo passo é aproximá-los do significado de indisciplina. O que a distingue da violência, por exemplo? Oriente a discussão de acordo com os seguintes pontos: 

  • A indisciplina escolar é um sintoma de que algo não vai bem. Se há conflitos, a falha está na relação e não nas pessoas. 
  • O comportamento indisciplinado é algo a ser alterado, mas isso só vai acontecer se as responsabilidades forem divididas entre todos. Não é mais possível dizer que "aqueles alunos do professor X são bagunceiros". Os alunos são de todos e deve haver parceria para transformar a situação. 


2ª etapa  A origem da indisciplina

Desloque o foco da discussão para a origem da indisciplina. Questione a equipe sobre as práticas existentes na escola, as propostas didáticas, o domínio do professor sobre o conteúdo, sua postura perante o aluno e sua ação em situações de conflito.

Deixe claro para a equipe que o mais importante quando se trata de indisciplina é lidar com a causa do conflito e não apenas atribuir culpa e impor punições. Pouco importa quem começou uma discussão. O fundamental é analisar o que levou as pessoas a ter dificuldade de negociar soluções justas e respeitosas.

 

3ª etapa  Análise do projeto político-pedagógico (PPP) da escola

Para seguir uma regra, é preciso entender sua razão de ser. Se não houver explicação que a justifique, a restrição pode e deve ser questionada. Com base nisso, a ideia, nesta etapa, é analisar o regimento da escola. Proponha a seguinte questão para a equipe: os problemas têm mais a ver com as regras morais ou com as convencionais?

Neste ponto, discuta os princípios que fundamentam o PPP. Como sugestão, tome como base a Declaração Universal dos Direitos do Homem.

Apresente e converse com a equipe possíveis estratégias de lidar com a indisciplina, tais como:

  1. Demonstrar que a honestidade será sempre considerada importante. Os alunos devem aprender que o que têm a dizer pode, sim, irritar o professor. Mas, em qualquer circunstância, em vez de ser punido por ter sido autêntico, ele deve ser orientado a perceber que o sentimento de bem-estar por ter seguido o valor da verdade é o que mais conta.
  2. Não agir de improviso. Manter-se calmo e controlar suas reações. Os problemas não precisam ter uma resposta imediata por parte da equipe escolar. Agir de improviso pode levar a atitudes pouco adequadas.
  3. Reconhecer sentimentos e orientar comportamentos. Ficar bravo e com raiva é uma reação natural de qualquer ser humano. Dizer ao aluno "você não pode se sentir assim" ou "você não pode ficar com raiva do seu amigo" é, portanto, inadequado. Oriente-o dizendo algo do tipo: "Você deve mesmo ter ficado muito bravo, mas bater no colega resolveu o problema?".
  4. Acreditar que o conflito pertence aos envolvidos. Isso não significa aceitar qualquer alternativa de resolução ou se alienar do problema. Você deve ser um mediador, ajudando-os a descrever o problema, incentivar que falem sobre os sentimentos e as ações e busquem soluções, sempre incidindo sobre a causa e respeitando princípios.


4ª etapa  Acompanhamento do trabalho em sala de aula

Realize o acompanhamento direto da atuação docente, com gravação em vídeo ou observação e registro realizado pelo coordenador durante as aulas, momentos de recreio, entrada e saída, dependendo de onde o problema se localiza. Em seguida, o grupo deverá discutir a postura do professor e dos alunos com base nos conceitos estudados. Aqui, é obrigatório que o observado consinta em ser objeto de análise e discussão. 

 

Avaliação 

Por meio de questionários, peça aos alunos, funcionários e pais que analisem se houve avanços. Resgate a listagem feita no começo do projeto e peça que a equipe docente altere o que achar necessário, revendo as categorias definidas anteriormente. Ao mesmo tempo, veja se, à medida que a formação avançou, a equipe se sentiu mais segura para resolver os conflitos que surgiram na escola.

 

Bibliografia

O Mapa do Problema Escolar: Quando a Cidadania Parece Não Ser Possível (Anais do XXII Encontro Nacional de Professores do Proepre Educação e Cidadania), de Luciene Tognetta.

Estratégias de Intervenção nos Processos de Desenvolvimento Profissional e Pessoal Docentes (II Congresso Internacional do Centro de Investigação, Difusão e Intervenção Educacional (CIDInE): Novos Contextos de Formação, Pesquisa e Mediação), de Ana Aragão e Idália Sá-Chaves.

Autoscopia: Um Procedimento de Pesquisa e de Formação (Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 30, n. 3, pp. 419-433), de Ana Aragão e Priscila Larocca.

Viajantes Destemidos sem Mapas Precisos: Professores-Formadores (Professor Formador: Histórias Contadas e Cotidianos Vividos), de Vera Lucia Sabongi de Rossi. Ed. Mercado de Letras.

 

Consultoria

Ana Aragão Professora da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)